Tag: bem-estar animal
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Medir expressão facial de dor em animais
Este artigo da Joana Fernandes constitui a segunda parte na série de artigos que reporta informação de um recente encontro sobre bem-estar animal.
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Expressão facial de dor no ratinho.
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O estudo da dor torna-se ainda mais complexo, pois a expressão de dor pelos animais pode confundir-se com outros estados emocionais negativos que não envolvam necessariamente dor. Por outro lado, quando se trata de uma recuperação de um procedimento cirúrgico, em que o animal está debilitado, os sinais de dor podem não ser tão evidentes. Questões éticas acrescem quando se trata de primatas não-humanos, devido à sua proximidade com a nossa espécie, o que leva a uma opinião pública mais dividida e mais forte quanto a experiências que envolvam estes animais. Quanto ao uso destes animais em investigação, a Directiva 2010/63/eu descreve que “tendo em conta o estado actual dos conhecimentos científicos, ainda é necessário recorrer a primatas não-humanos em procedimentos científicos no domínio da investigação biomédica […]. A utilização de primatas não-humanos só deverá ser permitida nos domínios biomédicos essenciais para o benefício do ser humano, em relação aos quais não existam actualmente métodos alternativos de substituição disponíveis”.
No sentido de procurar medidas mais sensíveis ao reconhecimento de dor em primatas, a equipa da Dra. Sarah-jane Vick (Universidade do Stirling, Reino Unido) tem vindo a desenvolver um trabalho de reconhecimento de dor em macaco reso através das suas expressões faciais. O estudo de dor através das expressões faciais tem vindo a crescer e já existem escalas definidas para espécies como o murganho, o rato, o coelho e, também, para o cavalo. Este novo método de investigação em dor é muito interessante e já foi mesmo abordado num post anterior, em que foi discutida não só a semelhança de expressões faciais entre animais e seu valor evolutivo, mas também a relevância ética das evidências de dor em animais não humanos.
Para explorar as expressões faciais de macacos reso, a equipa utilizou um software de identificação de posições dos músculos faciais. Este software – MaqFACS – foi desenvolvido com base num software existente para identificação de expressões faciais em humanos designado por Facial Action Coding System (FACS). Esta é uma técnica amplamente usada não só em investigação em humanos, mas também na clínica, nomeadamente em psiquiatria.
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| Identificação dos músculos faciais de macaco reso (esquerda) e humano (direita) que demonstra as semelhanças entre as duas espécies. Foto do sítio ofícial de MaqFACS |
O desenvolvimento de uma ferramenta capaz de identificar movimentos dos músculos faciais e correlacioná-los com estados emocionais em humanos, suscitou interesse a cientistas de outras áreas de investigação que utilizam animais não-humanos. O FACS tem sido adaptado a várias espécies animais, como chimpanzés e outros primatas, assim como animais domésticos, como cães e gatos. No entanto, embora este seja um ponto de partida para estudar emoções noutros animais, correlacionar expressões faciais com estados emocionais continua a ser um desafio para os cientistas.
A Dra. Sarah-jane Vick e a sua equipa pretendem utilizar esta ferramenta para, de forma mais precisa, correlacionar modificações no comportamento causadas pela dor infligida por procedimentos cirúrgicos através das expressões faciais de macacos reso, bem como correlacionar estas com expressões faciais de dor em humanos, pois existem muitos músculos em comum entre as duas espécies. Para isso, o objectivo da equipa é comparar as variáveis referidas acima nas diferentes fases de um procedimento cirúrgico invasivo que inflija dor: antes e depois de uma cirurgia e antes e depois do uso de analgésicos. Este estudo está ainda numa fase preliminar e, por isso, não foram apresentados resultados robustos na palestra. Numa próxima fase os autores vão analisar os dados de comportamento e correlacioná-los com os resultados das expressões faciais que obtiveram nas diferentes fases do procedimento cirúrgico.
Devemos acabar com a eutanásia dos animais nos canis?
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| Cão alojado num canil (Fonte) |
Depois da recente notíciasobre a proibição do abate de animais abandonados em Madrid, o PAN – Pessoas, Animais, Natureza decidiu avançar em Portugal com uma iniciativasemelhante. Acabar com a eutanásia de animais abandonados pode parecer à primeira vista uma excelente proposta. Mas vamos reflectir um pouco sobre ela.
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| Quantos descendentes poderá uma gata não esterilizada potencialmente originar? (Fonte) |
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| Quantos descendentes poderá uma cadela não esterilizada potencialmente originar? (Fonte) |
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| Imagens do Waltam Centre for Pet Nutrition |
O fim da eutanásia de animais abandonados deve, sem dúvida, ser visto como um objectivo a perseguir, mas a médio-longo prazo. Até lá temos o dever moral de, dentro da nossa realidade, fazer o melhor pelos nossos animais. A eutanásia, desde que bem conduzida, não envolve sofrimento. Será eticamente mais correcto manter um animal nas condições em que muitos deles vivem hoje em dia (e que irá piorar se a eutanásia for proibida) do que eutanasiá-lo? A resposta, do ponto de vista do bem-estar animal, parece óbvia.
Inovações na medição e avaliação de bem-estar animal: ecos do meeting NC3Rs/BBSRC
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| Duas sociedades científicas colaborando em prol do bem-estar de animais usados em ciência. |
A conferência teve organização conjunta com a BBSRC, a principal agência financiadora de investigação biomédica fundamental e aplicada no Reino Unido, e que através da NC3Rs apoia projectos de investigação em saúde e bem-estar animal. Esta conferência destinou-se assim a apresentar o progresso de estudos em curso promovidos pelas duas entidades financiadoras nesta área, tendo assim sido primariamente focada em Refinement, em detrimento dos outros Rs. Um conjunto de prestigiados investigadores da área estiveram assim presentes, dos quais destaco Marian Dawkins, Mike Mendl, Jane Hurst e Georgia Mason.
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| Tiveram destaque nos estudos financiados pelo NC3Rs os roedores, peixes e primatas não-humanos |
Acho pertinente começar pela própria natureza das instituições organizadoras. A BBSRC tem uma dotação anual de cerca de 600 milhões de Euros para financiar projectos e bolsas de investigação (já por si superior aos 400 milhões da FCT, practicamente a única fonte de financiamento público da ciência em Portugal), num país onde dezenas de outras agências públicas e privadas financiam investigação biomédica, para não falar do avultado investimento da indústria. O orçamento para o bem-estar animal é contudo, e compreensivelmente, uma pequena fracção do total (cerca de 7 milhões de euros).
Já o NC3Rs não têm paralelo em qualquer parte do mundo. Apesar de haver vários centros para os 3Rs no mundo industrializado – e em particular na Europa – nenhum deles tem a dimensão, o nível de financiamento e o alcance desta agência britânica, que deve mesmo a sua existência à própria iniciativa do governo, o que até nem é de estranhar num país com tão grande tradição na protecção dos animais usados para fins científicos, e de onde o conceito dos 3Rs é originário.
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| Os estudos financiados pelo BBSRC focavam-se mais na saúde e bem-estar de animais de produção |
O orçamento anual do NC3Rs é de cerca de 10 milhões de Euros, e é responsável actualmente por alguns dos principais avanços científicos nos 3Rs. A ciência é aliás, o foco principal desta organização, cuja política se centra em promover uma ciência mais humana, mas também mais fidedigna e com maior valor translacional (i.e., com maior e mais directo benefício para as medicinas humana e veterinária). E foi exactamente essa a imagem que me veiculou Mark Prescott, numa breve reunião informal (a propósito de um projecto de promoção dos 3Rs para Portugal, ainda numa fase muito embrionária) onde fez questão de salientar a primazia dada à ciência e o enquadramento da actividade do NC3Rs no progresso científico, não só como políticas centrais da organização, mas também como o seu principal cartão de visita.
- O destaque dado ao bem-estar de espécies emergentes como modelos em investigação biomédica, nomeadamente os peixes, para os quais muito há ainda a fazer ao nível do seu bem-estar.
- O recurso a novas tecnologias como instrumentos de eleição na medição e avaliação de bem-estar animal
- A apresentação da Animal Welfare Research Network, uma rede que integrará os investigadores em saúde e bem-estar animal do Reino Unido, e que será financiada pela BBSRC.
O progresso científico em Portugal nos últimos vinte anos é absolutamente surpreendente, mas falta igual evolução na consideração dada à importância da saúde e bem-estar dos animais, sejam eles os de laboratório ou quaisquer outros.
Deve haver cavalos nas ruas de Nova Iorque?
Bill de Blasio é presidente de Nova Iorque. Um dos assuntos na sua agenda política é o futuro dos cavalos que puxam carruagens nas ruas e parques da cidade. É uma prática desumana, diz de Blasio, que a quer banir.
A controvérsia não tardou. Tal como em outras cidades, como Viena e Sintra, as charretes e os seus cavalos são emblemáticas e há muita gente que não quer ver a sua cidade sem elas.
O igualmente emblemático jornal New York Times pegou no assunto e lançou um debate. Sob o título Horse Carriages Are Not Just A Ride In The Park, convidou um conjunto de pessoas com perspetivas diferentes a pronunciar-se sobre o futuro dos cavalos nas ruas de uma cidade com 8 milhões de habitantes e um número desconhecido de carros.
O veterinário e especialista em saúde equina Harry H Werner argumenta que os cavalos estão de boa saúde, vivem em boas instalações e são bem cuidados. Contrária a esta visão, Holly Cheaver, também veterinária e representante de associações de proteção animal, defende que as condições nas ruas de Nova Iorque e também nos estábulos são nefastas para o bem-estar dos cavalos.
Um terceiro veterinário, Dean W Richardson, defende o valor dos cavalos como uma forma de dar a conhecer os animais aos cidadãos urbanos e que a forma de abordar os problemas deve ser através da regulação e não da proibição.O académico Kenneth Shapiro, por sua vez, discorda que este uso de cavalos sirva como exemplo de uma boa relação humano-animal.
O debate acima referido decorreu há um ano. A proposta agora em cima de mesa é um phasing-out da atividade. Os charretistas marcaram um dia de greve em protesto.
Portugueses investigando em bem-estar animal – Kelly Gouveia
No meu projecto de doutoramento estudei formas práticas de reduzir o stress associado ao manuseamento, em ratinhos de laboratório. O stress associado ao manuseamento constitui um problema de bem-estar e pode induzir variação nos resultados experimentais. Animais de laboratório necessitam constantemente de ser manuseados, quer seja para efeitos de limpeza, simples inspecções diárias ou para fins experimentais. Dado que o ratinho é a espécie laboratorial mais usada neste momento, isto pode ter implicações para muitos milhões de animais utilizados em ciência mundialmente. Embora o método mais comum de manusear ratinhos seja levantá-los pela cauda, uma publicação relativamente recente (Hurst & West, 2010) demonstrou que este método induz aversão ao manuseamento e ansiedade, contrariamente a dois métodos alternativos: guiar o animal para dentro de um túnel presente na jaula ou usar a técnica da mão aberta em que o animal e apanhado com a mão aberta e segurado na palma da mão (hand cupping). 














