Levar a sério o problema dos animais de companhia

Os eventos recentes envolvendo a morte de dezenas de animais em dois abrigos ilegais de Santo Tirso culminaram num autêntico furação político, com a suspensão do médico veterinário municipal, a demissão do Director-Geral da Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e a passagem da tutela dos animais de companhia do Ministério da Agricultura para o Ministério do Ambiente e da Ação Climática.

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Como sempre acontece quando estão envolvidos animais, o debate tem sido extremado; por um lado o PAN, através do seu porta-voz e o PS, pela mão do próprio Primeiro-Ministro António Costa; e por outro, as associações profissionais do setor animal, nomeadamente a Associação Nacional de Médicos Veterinários de Municípios (ANVETEM) e a Ordem dos Médicos Veterinários (OMV).

Num clima de grande crispação e incerteza, dois pontos importa reter. O primeiro é que, aqui chegados, todos somos responsáveis pela presente situação: cidadãos detentores de animais de companhia, profissionais do ramo animal, associações zoófilas, municípios, autoridades veterinárias locais e nacionais, deputados, governos e seus ministérios. Isso torna-nos a todos, ao invés de culpados, co-responsáveis por encontrar uma estratégia que sirva o melhor interesse dos animais. Para tal, vale a pena começar por identificar em retrospetiva o que de positivo se tem feito neste contexto, pese embora as lacunas ainda existentes.

Nos últimos anos, a frequência de campanhas de adoção e esterilização de animais de companhia aumentou drasticamente em todo o país, muito por conta da estreita colaboração entre médicos veterinários municipais e associações zoófilas. São bons exemplos o Programa CED (captura, esterilização e devolução) da Câmara Municipal de Braga ou o @ProjetoFiel do Canil/Gatil Municipal de Évora. Em 2019, foi criado o Sistema de Identificação de Animais de Companhia (SIAC), fundindo as duas bases de dados então existentes e transferindo para os médicos veterinários a responsabilidade pela identificação e registo animal. Este mecanismo, em conjunto com o novo modelo de Boletim Sanitário de Cães e Gatos (uma iniciativa conjunta da DGAV e da OMV), dificultou em muito o mercado ilegal de animais e a desresponsabilização do abandono. Outros aspetos positivos relacionam-se com estratégias que contribuíram para facilitar o acesso aos cuidados de saúde animal. São exemplos a dedução no IRS das despesas médico-veterinárias, proposta pelo PAN em 2016, ou o Programa Nacional de Apoio à Saúde Veterinária para Animais de Companhia em Risco, uma iniciativa da OMV que permite às autoridades locais (Municípios e Juntas de Freguesia) atribuir cheques veterinários aos detentores carenciados, por elas identificados, para utilização em cuidados de saúde primários.

O segundo ponto que importa lembrar é que todos concordamos que os animais são seres sensíveis, cujos interesses urge defender. Divergimos, é certo, na melhor forma de o fazer. Tem razão André Silva quando afirma que os municípios têm falhado na sua obrigações de disporem de Centros de Recolha Oficiais de Animais (CROA), não só em número, mas também em qualidade de bem-estar animal, e que não pode o legislador andar a reboque de uma sociedade mal preparada para lidar com a detenção responsável de animais de companhia. Mas também tem razão a ANVETEM quando defende que aos médicos veterinários municipais deve ser dada autonomia técnica para garantir a gestão populacional dos CROAs e que lhes deve ser conferido o poder de autoridade sanitária veterinária concelhia, ao abrigo do Decreto-Lei nº 116/98.

A sociedade precisa de desenvolver uma estratégia multidisciplinar que permita trabalhar no melhoramento da sua relação com os animais de companhia. Não é com fraturas, aproveitamentos políticos e omissão de pareceres técnicos consubstanciados que se alcança uma solução otimizada para proteger os interesses dos animais. A nossa posição é clara: a abertura desenfreada de centros de recolha – oficiais ou privados – como solução para tirar os animais da rua mais não é que a perpetuação de depósitos que estão longe de lhes providenciar adequada qualidade de vida. É necessário antes investir as verbas disponíveis em outras abordagens. Da mesma forma, as associações zoófilas e os CROAs não deveriam limitar-se a receber e manter animais nos seus canis, ou a fazer as muito úteis campanhas de adoção/esterilização. Em alguns casos, é preferível não ceder animais para adoção do que vê-los mais tarde neglicenciados, mal-tratados ou sujeitos a re-abandono. Deveria ser sempre exigido uma forma de monitorização e registo do percurso dos animais após a adoção, bem como do destino das verbas implicadas. Esta estratégia não só dissuadiria a posse irresponsável de animais, como responsabilizaria as autarquias pela adequada gestão de fundos.

A frente educação é lenta, mas irreversível. O malogrado caso de Santo Tirso nunca teria gerado a mesma indignação popular nem consequências políticas há 10 anos atrás, simplesmente porque as pessoas estão agora muito mais sensíveis a este tema. No entanto, muitas destas reações foram mais fruto da emoção do que da razão, sendo que a desinformação que se seguiu clama por uma estratégia educativa concertada. Desde Setembro de 2018, a Direção-Geral de Educação tem vindo a preparar, em conjunto com a DGAV, a OMV, o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e o Jardim Zoológico de Lisboa, um referencial para o Bem-Estar Animal no âmbito da disciplina de Educação para a Cidadania, e que constitui uma oportunidade educativa sobre estas matérias desde o ensino pré-escolar até ao secundário. Mas a educação para a convivência responsável com animais de companhia não pode esperar tanto tempo. Compete aos municípios, como parte integrante das suas obrigações, sensibilizar ativamente os seus munícipes sobre a detenção responsável e agir em conformidade em casos de manifesta violação, como era o caso dos abrigos de Santo Tirso.

Por sua vez, a legislação tem o poder de impulsionar uma rápida mudança de atitudes. É um instrumento que reflete princípios, mas que deve ter em conta as consequências da sua efetiva aplicação. A legislação feita em Portugal raramente analisa a priori o impacto da sua aplicação, podendo com isso levantar mais problemas do que os que pretende resolver. Neste caso, precisamos de um sólido enquadramento legal que proteja os interesses dos animais de companhia, o que passa pela sua manutenção em condições de saúde e satisfação das necessidades fisiológicas, comportamentais e mentais. Como fazê-lo em canis sobrelotados e a receber continuamente mais animais? A polarização da discussão em torno da eutanásia torna-a artificialmente um instrumento da resolução do problema. A eutanásia não é, nem pode ser, a solução principal. No entanto, excluí-la liminarmente vota centenas de animais à mais miserável das vidas, a sofrimento permanente e sem qualquer hipótese de recuperação e adoção. É, na prática, uma crueldade.

Por fim, são necessários técnicos e organismos competentes capazes de passar à prática estas medidas, usando os fundos disponíveis de forma responsável e verificável. A pluridisciplinaridade é geralmente útil, mas não percebemos como é que se vai melhorar a situação retirando este assunto do controlo das autoridades veterinárias, onde a articulação entre autoridade veterinária nacional (DGAV), médicos-veterinários municipais e profissionais do sector privado é tão drasticamente necessária. Concluímos exortando os decisores políticos a dotarem os organismos competentes, como a DGAV, de técnicos e meios capazes de fazerem frente às actuais limitações, criando políticas pró-ativas de aplicação das normas em vigor, em vez de andar simplesmente a reboque da legislação europeia. O problema não se vai resolver nunca com discursos inflamados ou manobras políticas superficiais de mudança de competências.

Texto escrito em co-autoria com Leonor Galhardo, Bióloga e Consultora em Bem-Estar Animal, e publicado originalmente no Jornal Público.

Qual é o risco do seu cão sofrer um golpe de calor?

Todos sabemos o quão perigoso é deixar um cão no interior do carro ao sol ou com as janelas fechadas. Embora os cães possuam glândulas sudoríparas na pele, elas não servem para fazer termorregulação como no caso dos humanos (excepto nas suas patas, que também suam). Para perder calor, o cão recorre a duas estratégias básicas: vasodilatação periférica e aumento da frequência respiratória (i.e. arfar). Se o ar for demasiado quente e húmido, este mecanismo não funciona eficazmente e o animal entra em hipertermia, que pode resultar em falência multi-orgânica, choque e morte.

Veja infografia sobre golpe de calor em Vets Now.

Mas qual a frequência do golpe de calor em cães? Foi esta pergunta que investigadores de Nottingham Trent University e do Royal Veterinary College de Londres procuraram responder, num estudo publicado na revista Nature Scientific Reports. Os investigadores recorreram à base de dados VetCompass, que reúne informação de animais atendidos em clínicas veterinárias por todo o Reino Unido, para identificar casos de golpe de calor nesse país. Embora tenha sido encontrada uma baixa incidência (0.04%, num total de 395 casos confirmados de golpe de calor durante o ano de 2016), a taxa de letalidade é  elevada: 14% dos animais atendidos morreram. A esmagadora maioria dos casos ocorreu entre os meses de Maio e Agosto. Sem surpresas, cães braquicéfalos (i.e. de nariz achatado) e pesando mais de 50 kgs têm risco significativamente aumentado de sofrer golpe de calor.

Três recomendações genéricas podem ser retiradas deste estudo: à medida que o planeta aquece (um processo inexorável, mesmo que parássemos hoje mesmo de libertar carbono para a atmosfera)  necessitamos de esforços adicionais para educar os detentores a saber vigiar e identificar sinais de hipertermia nos seus animais, por forma a evitar golpes de calor nos meses mais quentes do ano. Por outro lado, é necessário criar animais com uma conformação cardiorespiratória adequada, o que implica alterar o estalão de raças populares como Pug, Bulldog, Dogue Francês, Dogue de Bordeaux, Cavalier King Charles Spaniel e de outras raças braquicéfalas. Por fim, é fundamental manter uma condição corporal adequada porque o excesso de peso, para além de provocar problemas metabólicos, incluindo diabetes, é um factor de risco acrescido para golpe de calor em cães.

A ascensão e queda do bem-estar animal em Portugal

Leonor Galhardo

O meu primeiro emprego em bem-estar animal foi no que é hoje a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). Tinha acabado a minha formação na área e estava desejosa de a pôr em prática. Entrei para a recém-criada Divisão de Bem-Estar Animal, liderada pela Drª Selene Veiga, a quem ouvi defender posições avançadas sobre bem-estar animal – o que na altura não era vulgar entre veterinários, mais focados no uso instrumental dos animais, sobretudo para consumo de carne. Ela falava com consideração moral e prática não só de animais de pecuária, mas também de laboratório, de companhia e até de animais selvagens. Foi com estes últimos que me pôs a trabalhar, em face da minha formação de base.  Com ela aprendi que nem sempre é justo rotular os veterinários pela imagem que alguns, mesmo que na altura muitos, criam da profissão e aprendi também o valor da colaboração e da multidisciplinaridade. Há mais de 20 anos atrás.

Pelas mãos daquela experiente veterinária e das que se seguiram, a divisão ganhou forma, expandiu-se nos tópicos com que trabalhou, ajudou a aplicar e fiscalizar um grande pacote de leis que nos chegaram da União Europeia. Criaram-se estratégias de formação de técnicos, produtores e tratadores. Os funcionários da divisão desdobraram-se em deslocações pelo país para mapearem a situação das pecuárias, dos canis, dos parques zoológicos e dos laboratórios que usavam animais. Falhou muita coisa, com certeza que sim: por fragilidades técnicas, humanas, de conceitos e de recursos. Ao longo do tempo, diversas políticas e carências mantiveram lacunas que num sistema administrativo mais eficiente e modernizado poderiam ter sido ultrapassadas. O que é certo é que, naquele tempo, o bem-estar animal ganhou uma morada, um conceito prático e respeito. Ganhou um conjunto de técnicos que se conseguiram fazer ouvir até hoje junto de interlocutores difíceis e que nenhum político a discorrer sobre animais realmente conhece na prática.

Hoje chegámos a um ponto em que, segundo a Ministra da Agricultura, a atual DGAV tem que se dedicar à alimentação, isto é, aos animais de pecuária. O Ministério do Ambiente que se dedique aos outros – isto junto com as políticas de ambiente, ordenamento do território, cidades, transportes, mobilidade, clima, conservação da natureza, energia, geologia e florestas, e tantos outros temas muito pouco afins com animais de companhia. O PAN, por quem tenho respeito e concordância quanto a vários pontos de vista filosóficos relativos à proteção animal, entendeu focar-se na DGAV como bode expiatório da tragédia dos canis de Santo Tirso. O Governo respondeu precipitadamente na mesma linha e encenou uma mudança de estratégia, sem qualquer consideração pelos reais problemas que bloqueiam uma ação mais efetiva por parte da DGAV e outras entidades, como as Câmaras Municipais. Esperemos que aquilo que começou por ser uma indignação generalizada contra os maus-tratos a animais não venha a ficar para a história como a situação que fez o atual Governo desfazer o único departamento oficial dedicado a bem-estar animal e que mais contribuiu para o melhorar em Portugal.

Leonor Galhardo – Bióloga, consultora de bem-estar animal

(uma versão deste artigo foi originalmente publicada no Jornal Expresso online)

Human-Animal Studies em Portugal: Entrevista com Verónica Policarpo

Verónica Policarpo, coordenas um novo curso de pós-graduação na Universidade de Lisboa, Animais e Sociedade. Conta-nos mais sobre este curso!

O curso Animais e Sociedade faz parte de um conjunto de atividades no âmbito do Human-Animal Studies Hub. No final de 2018, o ICS-ULisboa candidatou-se ao International Development Fund do Animals and Society Institute, nos Estados Unidos, com uma proposta que visava trazer para Portugal, e consolidar, os Human-Animal Studies, ou Estudos dos Animais (a tradução não está estabilizada, por isso opto no geral por manter a expressão inglesa). Nessa proposta propunham-se várias iniciativas que lançassem as bases desta área de estudos em Portugal, de modo a que o seu desenvolvimento se pudesse fazer posteriormente de forma paulatina e sustentável. Entre essas iniciativas, conta-se este programa de estudos pós-graduados, que aliás é o tipo de atividade para que o fundo está direcionado: promover a implementação de cursos na área, em países em que a mesma ainda não esteja implantada ou desenvolvida. Em fevereiro de 2019, esta proposta venceu o prémio da ASI, permitindo, quer dar continuidade a atividades já existentes, quer iniciar novas, como é o caso deste curso.

Qual é a ideia original do curso? Fornecer um olhar científico, plural, interdisciplinar, sobre as relações entre animais humanos e não-humanos, a partir da área dos Human-Animal Studies, em língua portuguesa. O curso reúne uma paleta de temas muito diversificada, e de banda larga, adaptando-se assim às necessidades formativas de alunos de diversas áreas e matrizes profissionais ou disciplinares. Propõe-se abranger temáticas tão diversas quanto os animais de companhia e as famílias multiespécies, as relações entre crianças e animais, a situação dos animais nas catástrofes, as questões que se colocam em relação à conservação da vida selvagem, os animais de produção para consumo alimentar, o bem-estar dos animais de entretenimento e que vivem em cativeiro, os direitos dos animais e a politização da questão animal, a representação dos animais nos media, ou as questões que se colocam atualmente em Portugal relativas ao Direito animal. Conta com professores e especialistas de várias áreas disciplinares: Sociologia, Antropologia, Geografia, Psicologia, Filosofia, Biologia, Medicina Veterinária, Direito; e de várias Escolas da Universidade de Lisboa. Pretende-se estimular a formação de um pensamento crítico sobre as relações humanos-animais, baseado no conhecimento científico mais atual disponível, produzido por diversas áreas do saber.

O curso faz parte de um esforço coordenado por ti em estabelecer uma nova área de estudo em Portugal, Human-Animal Studies. Podes contar um pouco mais sobre esta área internacionalmente – a perspetiva histórica, como se integra com outras áreas de estudo, que tipo de investigação se desenvolve nesta área?

A área dos Human-Animal Studies caracteriza-se por ser interdisciplinar. Começou a desenvolver-se nos anos 80 do século XX, nos Estados Unidos, em paralelo com a emergência do movimento moderno de direitos dos animais, na sequência da publicação, em 1975, da obra de Peter Singer Animal Liberation e, em 1983, da obra de Tom Regan The Case for Animal Rights. Nesta primeira fase, a Filosofia voltava a repensar o valor atribuído aos animais, já levantada por filósofos como Jeremy Bentham no século XVIII, que havia deslocado a interrogação central da capacidade destes últimos de pensarem, para a de sofrerem. Pelo seu lado, as ciências sociais produziram nesta fase dados e evidência empírica da extraordinária diversidade e complexidade das relações humano-animal, com um foco nos benefícios para os humanos. A atenção foi colocada principalmente nos animais de companhia, com estudos principalmente quantitativos. Em resposta a este movimento, as ciências sociais mais interpretativas e as humanidades (disciplinas como a História, os Estudos Literários, ou Estudos Culturais) exploraram os aspetos culturais de enquadramento dessas relações, de que são exemplos as formas como os animais são representados na literatura, arte ou media; ou o modo como se transformaram as relações humano-animal ao longo da História.

Nos anos 90 do século passado, a segunda fase de desenvolvimento da área alargou o escopo da atenção a todo o tipo de relações humano-animal: presentes ou passadas, de co-presença física, ou virtuais; de harmonia e benéficas, ou de conflito e com risco para uma, ou todas, as espécies envolvidas. Os métodos qualitativos começaram a ser mais comuns, e a Geografia, em particular a Geografia Humana, emergiu como um campo importante nesta matéria. Em disciplinas como a Psicologia, o foco é colocado no laço humano-animal (human-animal bond). Quanto às Humanidades, colocam a ênfase na desconstrução do que é ser “animal”, e na tentativa de os compreender “como são”. Nesta fase há ainda um grande impulso dos Estudos de Género e Feministas, que estabelecem relações cruzadas entre vários grupos historicamente oprimidos, mulheres, minorias étnicas, animais. A crítica do patriarcado, e a noção de interseccionalidade ganham importância.

A partir do ano 2000, a área praticamente explode, naquilo a que podemos chamar a terceira vaga. No mercado norte-americano, e também alguns países da Europa como o Reino Unido, os cursos ou programas universitários expandem-se. Da Antropologia surgem perspetivas etnográficas muito inovadoras, integrando os animais como sujeitos de investigação – as etnografias multiespécies. Paralelamente, emergem os Critical Animal Studies, uma corrente que relaciona a produção científica com uma agenda ativista de libertação animal. O mercado da publicação científica nesta matéria fervilha, e em 2012 surge aquele que pode ser considerado o primeiro manual da área: Animals & Society. Em 2014 é instituído o International Development Fund do Animals and Society Institute, que precisamente vem encorajar a criação de cursos e programas de formação em países em que a área ainda não esteja estabelecida. É aqui que Portugal, o ICS-ULisboa, e o Human-Animal Studies Hub, entram na história.

Em Portugal, existem muito menos estudos e investigadores a dedicar-se ao estudo das relações humano-animal, comparativamente com a vibrante produção internacional. Apesar disso, na última década, surgiram alguns trabalhos neste sentido. Encontravam-se, contudo, dispersos e sem um “chapéu” comum. É precisamente este “chapéu” que o Human-Animal Studies Hub pretende ser, de há cerca de dois anos para cá, reunindo debaixo de um mesmo “teto intelectual” investigadores que, apesar dos seus diferentes perfis disciplinares, têm um interesse comum: os animais e as relações humano-animal.

O Hub organiza as suas atividades em torno de três eixos: investigação, formação, e extensão científica/ligação à sociedade civil. Por isso, convido todos os colegas que façam investigação nesta área a visitar a nossa página, e ler a nossa Missão, Valores e Visão. E, se se revirem neles, assim como nas nossas atividades, a contactarem-nos. O objetivo é estabelecermos todos uma rede de sinergias, criando um espaço de diálogo e colaboração. Neste momento, o Hub aloja projetos sobre animais de companhia, animais em contextos de catástrofe, animais errantes e animais de produção; tem diversas atividades de formação, como uma Escola de Verão Internacional bianual, um grupo de leitura mensal, ou este recentíssimo curso pós-graduado Animais e Sociedade. Outras atividades relevantes são os workshops, conferências e seminários.

Fora do âmbito académico, este curso é relevante para que grupos profissionais? Em que áreas de atuação precisamos de mais conhecimento sobre Animais e Sociedade?

Precisamos certamente de produzir, e disponibilizar, mais conhecimento sobre como vivemos com os animais, em sociedade. É necessário a meu ver reforçar a formação de todos os que se dedicam ao trabalho com, e para, os animais, na sociedade civil: associações, ONGs, ou outras organizações. É necessário disponibilizar formação aos profissionais que lidam com os problemas complexos que afligem as vidas dos humanos, como a pobreza, o desemprego, os divórcios, a doença física e mental. Assistentes sociais, psicólogos, juristas e advogados, educadores, professores. Pois se estes problemas têm origem humana, não deixam de atravessar transversalmente as vidas de humanos e animais. E claro, disponibilizar uma formação que possa ser complementar à dos profissionais que lidam diretamente com animais, mas cuja formação de origem não comporte uma visão compreensiva das problemáticas sociais que subjazem às relações humano-animal, como é o caso dos biólogos e veterinários.

Assim o curso dirige-se a todos os que trabalham ou pretendem vir a trabalhar com animais, mas cujas formações sejam noutras áreas: (futuros) veterinários, (futuros) biólogos, outros profissionais que lidem com animais. Mas também os (futuros) profissionais que lidem com seres humanos cujas problemáticas sociais podem vir a cruzar-se com a dos animais: assistentes sociais, psicólogos, juristas, entre outros; ou de associações ou organizações não governamentais ligadas aos animais. E claro, o curso também se dirige a todos aqueles que queiram adquirir ou aprofundar conhecimentos sobre esta temática, independentemente da sua formação e origem, pois a área é interdisciplinar.

Saiba mais seguindo Verónica Policarpo @VMPolicarpo e Human-Animal Studies Hub @humananimalics no Twitter.

Quem faz capa da revista?

Num estudo acabado de ser publicado na revista Anthrozöos, os investigadores Stephen Vrla, Cameron T Whitley e Linda Kalof analisaram as capas de 103 edições da revista National Geographic Kids 2004 a 2013. Mediram a demografia dos animais representados, o status de conservação, os níveis de carisma e os graus de antropomorfismo.

Encontraram padrões evidentes na representação de animais: mamíferos carismáticos (principalmente animais selvagens) eram representados com mais frequência do que animais domésticos menos carismáticos (principalmente animais de companhia).

Os animais de companhia também tinham uma probabilidade significativamente maior de serem antropomorfizados nas imagens. Faltava completamente representações de animais de pecuária, animais em cativeiro, invertebrados ou detritívoros nas capas. Os investigadores concluem que a não-representação desses animais nas capas contribui para a subestimação destes animais “perpetuando assim a exploração de espécies vulneráveis”.

Ao procurar ilustrações para este post encontrei mais capas que dão para pensar.

Qual é o problema desta foto?

Pediram-me para comentar sobre qual seria o problema com a foto acima. A RSPCA fez bem ao apontar que há um problema, mesmo que de alguma forma tenham perdido a oportunidade de explicar que problema seria esse!

A foto mostra uma fêmea de murganho (ou ratinho) com a sua ninhada. Com base no facto de que as crias têm pêlo, mas ainda não têm os olhos abertos, penso que terão talvez uma semana de idade. Os murganhos são uma espécie altricial, o que significa que os jovens nascem num estádio subdesenvolvido e são totalmente dependentes dos cuidados dos pais para basicamente tudo durante a sua primeira semana de vida. Desenvolvem-se, contudo, muito rápido e estão prontos para deixar o ninho com cerca de um mês de idade, amadurecendo sexualmente apenas algumas semanas depois. Mas no estádio de desenvolvimento nesta foto, eles não são capazes de fazer muito. O local para a criação desses filhotes é o ninho que a sua mãe (ou pai, uma vez que os machos compartilham os cuidados parentais, dada a oportunidade, ainda que em condições de laboratório poderão estar ou não presentes) tenham preparado. Isto fornece-lhes o microambiente térmico de que precisam – que precisa ser mais quente que o de um murganho adulto, devido ao seu pêlo pouco desenvolvido.

A julgar pela minha própria experiência do tempo que leva para tirar uma boa foto dos animais, os filhotes estariam sem dúvida com frio, quando a foto foi tirada. Mas isto é apenas parte do problema. Qualquer pessoa que tenha assistido a uma sessão de fotos profissional ou tenha tirado uma foto em estúdio sabe que envolve muita luz e reflectores. Mas esse é precisamente o tipo de ambiente que os neurocientistas usam para testar a ansiedade em ratos – um espaço aberto e bem iluminado. Os murganhos e murganhos são animais noturnos que passam a vida em túneis e raramente se aventuram à luz do dia, pelo que serem forçados a estarem num ambiente que na natureza seria perigoso é muito stressante, provavelmente ainda mais para uma fêmea cujas crias indefesas estejam também expostas dessa maneira.

Se quiserem saber mais sobre a nossa investigação nesta área, convido-os a conhecer o Alive Pup Project. Mas antes de irem, permitam-me refletir primeiro sobre as diferentes formas de tirar fotos e para que finalidades. Verão que no Alive Pup Project também mostramos fotos de filhotes retirados de seus ninhos. Mas essas fotos foram tiradas aquando da pesagem e avaliação dos filhotes como parte de um projeto de investigação com o objetivo de elucidar os fatores por detrás da mortalidade dos filhotes. Este é um grande problema na criação de murganhos em laboratório, e investigar sobre este problema requer recolha de dados. Por outro lado, é possível tirar boas fotos de ratinhos em ambientes menos stressantes para eles, como o ilustrado acima.

Ainda assim, admito que já temos usado stock photos de ratinhos em ambientes não naturais. Simplesmente não tínhamos considerado estas questões.  Mas fá-lo-emos, agora.

O que é que a IKEA tem a ver com o bem-estar animal? Entrevista com Priya Motupalli

Priya Motupalli, é “especialista em fornecimento sustentável global”, o que é certamente um título interessante para uma cientista de bem-estar animal. Diga-nos o que faz na IKEA Food Services AB!

Obrigado! É um título comprido, mas é uma posição incrível, onde coloco o foco central no bem-estar animal na nossa visão para uma agricultura mais sustentável. O meu papel é desenvolver e apoiar a implementação da nossa estratégia de abastecimento sustentável de produtos de origem animal em todos os 52 mercados em que operamos. Esta estratégia consiste num conjunto de programas que abrangem questões de bem-estar animal, impacto ambiental e saúde pública ao nível das instalações agro-pecuárias. O primeiro programa específico para uma espécie, o better chicken programme , foi apresentado ao público no início deste ano.

Que princípios aplica ao seu trabalho?

A missão da IKEA é criar uma vida melhor para as pessoas, no seu dia-a-dia. Eu levo isso a sério no meu próprio trabalho – não estou interessada em que o bem-estar animal ou a produção sustentável de alimentos sejam para um nicho de mercado em que apenas um pequeno segmento da população beneficia ou tenha acesso. O meu objetivo é procurar constantemente lugar para o bem-estar animal como elemento principal de sistemas alimentares mais sustentáveis. Isto não é simples, pois há custos e contrapartidas, e por isso tento dar ênfase na relação do bem-estar animal com questões ambientais ou sociais para poder progredir neste debate, ao invés de não avançar de todo.

Também temos algo chamado os sete princípios alimentares, que definem a direção geral dos negócios na IKEA Food. Embora exista um princípio para o bem-estar animal, o meu favorito é, na verdade, “comida é prazer”. Os consumidores já estão sobrecarregados de informação sobre o que devem fazer e não fazer para um consumo sustentável! Acho que parte do nosso trabalho é garantir que possam comprar alguma coisa no mercado sueco, ou jantar no restaurante, ou comer algo no bistro e simplesmente sentirem-se bem com isso, sem entrarem em pânico sobre a origem, ou como eram as condições de trabalho, ou como os animais foram criados etc. A comida é uma parte íntima e prazenteira das nossas vidas e fazer escolhas mais sustentáveis ​​ou saudáveis ​​não deveria ser um obstáculo a esse prazer!

Obviamente, facultar essa experiência aos nossos clientes é todo um empreendimento, e há uma grande frase do nosso fundador, Ingvar Kamprad, que dizia que “a maior parte das coisas precisa ainda ser feita”.

De que maneira a ciência do bem-estar animal está presente no seu trabalho? Usa dados ou métodos de investigação?

A ciência de bem-estar animal é uma parte crítica do trabalho – e uma das principais razões pelas quais fui contratada! A investigação é a espinha dorsal de qualquer critério de bem-estar animal que criemos, para fornecedores. No entanto, como a ciência apenas nos diz o que podemos fazer, mas não necessariamente o que deveríamos fazer, os nossos critérios para os fornecedores irão depender da legislação específica do país, feedback de ONGs e fornecedores e as expectativas dos clientes.

Além disso, recolha de dados e o uso destes para melhorar o bem-estar dos animais ao longo do tempo são parte integrante de nosso better chicken programme e também serão parte integrante de próximos programas específicos a outras espécies. Juntamente com alguns dos critérios que estabelecemos, também identificamos os principais resultados em termos de bem-estar que iremos avaliar com a ajuda dos nossos fornecedores e parceiros de distribuição. Estes dados sobre o impacto no bem-estar irá informar objetivamente sobre a qualidade de vida dos animais da nossa cadeia de distribuição. A seu tempo, poderemos usar essa informação para estabelecer áreas-chave de melhoramento e intervir de forma direcionada. Os primeiros resultados da recolha de dados do nosso better chicken programme ficaram disponíveis recentemente e estou ansiosa para que comecem a dar frutos!

Se estiverem interessado em saber como a IKEA trabalha a questão da sustentabilidade em geral: https://www.ikea.com/gb/en/this-is-ikea/people-planet/

Se quiserem saber mais sobre a visão da IKEA sobre o bem-estar animal: https://www.ikea.com/gb/en/doc/general-document/ikea-read-more-about-ikeas-view-on-animal-welfare__1364641255476 .pdf

Siga a Priya no Twitter: @drpriyamots

Sobre o programa Better Chickenhttp://5mpoultry.uberflip.com/i/976632-poultry-digital-may-2018/15?m4 =

A atitude dos médicos e dos médicos veterinários em relação à eutanásia

A mais recente contribuição da Ordem dos Médicos para a actual discussão política sobre a legalização da eutanásia foi afirmar que não se envolveriam de maneira alguma no processo. Obviamente, a discussão sobre a eutanásia na medicina humana está fora do âmbito deste blog, e o Animalogos não é o lugar certo para partilhar as minhas ideias pessoais sobre algo que não faz parte da minha consideração profissional. Mas o que posso fazer como cientista é procurar e partihar informação científica com relevância para a discussão. Assim, aproveitarei a oportunidade para partilhar um artigo que é tanto relevante como desconhecido, neste contexto.

O artigo, publicado no Journal of Medical Ethics em 2010, relata os resultados de um questionário feito a veterinários suecos em 2008. Faz parte de um corpo maior de trabalho sobre as atitudes acerca do suicídio medicamente assistido por dois dos co-autores, Lindblad e Lynöe, que também inclui sondagens a médicos e ao público geral, na Suécia. Para contextualizar, convém dizer que na Suécia, ao nível político, a discussão sobre eutanásia está ainda numa fase anterior comparado com Portugal: em outubro de 2019 o parlamento decidiu iniciar uma investigação sobre uma eventual implementação legislativa; desconheço o estado atual desta investigação.  Portanto, a investigação feita 10 anos antes não surge num ambiente de debate na sociedade sobre o tema.

Por que estariam interessados os especialistas em ética médica no que os veterinários pensam sobre o suicídio medicamente assistido na medicina humana? Esse interesse tem a ver com o argumento às vezes apresentado pelos médicos de que “médicos menos experientes e o público em geral não sabem o que realmente estamos a discutir ao lidar com questões de fim da vida”. Mas, contrariamente aos médicos da Suécia, onde a eutanásia é ilegal, os veterinários realizam regularmente a eutanásia ativa como parte da sua prática profissional. Portanto, pode-se argumentar que um veterinário, pelo menos até certo ponto, saberá mais sobre eutanásia do que um médico.

Talvez inesperadamente, verificou-se que a atitude dos veterinários em relação ao suicídio assistido por médicos é comparável ao do público em geral e não à dos médicos.

Os autores concluem que “De forma semelhante ao público geral, a maioria dos veterinários suecos é a favor do SMA. Como médicos veterinários têm uma longa experiência na prática da eutanásia em animais, será difícil afirmar que não entenderão o que significa prestar SMA a pedido de um paciente terminal e competente. Consequentemente, é difícil sustentar que o conhecimento sobre SMA e eutanásia está inequivocamente associado a uma atitude restritiva em relação a essas medidas”.

Deveria a ética em investigação proteger primatas não-humanos como se fossem crianças?

Tenho entretido a ideia de escrever sobre o porquê de os chimpanzés não serem mais protegidos que as crianças. Mas sempre que a começo a desenvolver o argumento parece absurdo – quem conhece a legislação que regula a investigação em animais de laboratório sabe que os chimpanzés não são mais protegidos do que as crianças! No entanto, no contexto de ética em investigação não é raro ouvir o argumento que na Europa os chimpanzés são mais protegidos que as crianças.

Entendo de onde vem este argumento: existe um quadro regulamentar único para investigação com animais na Europa (Diretiva 2010/63 / UE), mas não para a investigação envolvendo crianças. Mas isto não significa que não haja regras para a participação das crianças em investigação, apenas significa que as regras diferem entre os países. E, tanto quanto sei, nenhuma dessas regras permite que qualquer criança possa ser envolvida em estudos invasivos e arriscados sob qualquer pretexto – excepto, talvez, se é provável que esse estudo possa ajuda a criança. Em contrapartida, a chamada cláusula de salvaguarda permite aos Estados-Membros da UE suspender a proibição geral que vigora do uso de grandes símios (chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas) “caso um Estado-Membro tenha motivos fundamentados para considerar que é fundamental tomar medidas para a preservação da espécie ou relacionadas com o aparecimento imprevisto de uma condição clínica debilitante ou que possa pôr em perigo a vida de seres humanos” (Diretiva 2010/63 / UE, artigo 55: 2). Ou seja, por outras palavras, perante um surto de Ébola na Europa, testes de vacinas em chimpanzés seriam potencialmente permitidos (já se essa investigação poder realmente ser feita na prática é uma questão diferente. Por muito tempo, o único país industrializado a manter chimpanzés para estudos invasivos foram os EUA, mas em 2015 o NIH anunciou que não iria mais financiar tais estudos e os chimpanzés de laboratório agora estão sendo aposentados em santuários).

Curiosamente, antes de escrever sobre isto, deparei-me com este artigo que propõe que a regulamentação da investigação em animais deve proteger os chimpanzés –  e, de facto, todos os primatas não humanos – da mesma maneira que protege os humanos que participam em estudos científicos  Os autores argumentam que, com tantas semelhanças importantes nas capacidades cognitivas, emocionais e sociais, não faz sentido ter enquadramentos éticos diferentes consoante se trate de um primata humano ou não-humano. Portanto, eles argumentam que devemos remover os primatas não-humanos do enquadramento utilitário habitualmente aplicado à ética em investigação com animais e movê-los para a enquadramento deontológico, que se aplica aos seres humanos que participam como sujeitos em investigação. Na prática, isto significa que a investigação com primatas não-humanos deve respeitar os princípios da beneficência e da não-maleficência, ou seja, a investigação deve preferencialmente beneficiar e definitivamente nunca prejudicar os sujeitos alvos de investigação.

O artigo é uma contribuição interessante ao debate e que vale a pena ler, pelas ideias e pelos exemplos de investigação que seriam aceitáveis no âmbito de um enquadramento deontológico. A ideia de que alguns animais devem receber proteção baseada em direitos não é nova (está subjacente a todo o movimento dos direitos dos animais), mas o artigo contribui com uma discussão única sobre o potencial de fazer investigação biomédica com os primatas não-humanos de uma maneira compatível com os princípios da beneficência, não-maleficiência e até de autonomia e justiça. Infelizmente, não acho que a imagem que eles pintam seja realista. O que pode ser alcançado através do estudo de situações que ocorram naturalmente é fortemente limitado, e eu teria apreciado se os autores tivessem sido mais minuciosos na sua análise sobre quais tipos de estudos seriam impossíveis se mudássemos o enquadramento ético. Por outro lado, se este fosse um artigo sobre como proteger as crianças na investigação, ninguém sonharia em discutir os importantes benefícios da investigação que seriam perdidos por não podermos magoar crianças num estudo! Essa observação, por si só, marca claramente a diferença de pensamento sobre a investigação em termos utilitaristas e consequencialistas versus deontológicos.

De uma perspectiva pragmática, e tendo em conta a diversidade de opiniões sobre o assunto, não prevejo que tão cedo haja uma mudança do enquadramento ético para o uso de primatas-não humanos em investigação, em geral. Mas uma mudança para os grandes símios em particular é bem mais provável, num futuro próximo. Com a eliminação gradual da investigação invasiva em chimpanzés, a única espécie de grande símio que realmente desempenhou um papel na investigação biomédica, uma proibição total poderá ser aceite sem grandes protestos. Nessa altura, será razoável perguntar se os chimpanzés gozam de uma maior proteção do que as crianças, em investigação biomédica.

Transparência sobre experimentação animal – de quem é a responsabilidade?

A  21 de Junho de 2018, foi lançado em Portugal o Acordo de Transparência sobre a Experimentação Animal. Os então 16, agora 18, signatários do Acordo de Transparência Português concordam em:

  • Colocar uma declaração referente ao bem-estar animal no website da Instituição.
  • Colocar um link para o Acordo de Transparência.
  • Fornecer informações adequadas aos meios de comunicação social e ao público em geral sobre as condições em que é efetuada a investigação com animais e os resultados obtidos.
  • Desenvolver iniciativas que promovam maior conhecimento e compreensão da sociedade sobre o uso de animais em investigação científica.
  • Reportar anualmente os progressos obtidos e partilhar experiências.

Com esta mudança, Portugal tornou-se o quarto país europeu com um acordo formal para comunicar mais abertamente sobre a experimentação animal, depois do Reino Unido, Bélgica e Espanha. Esta é uma iniciativa bem-vinda e, se for bem-sucedida, como espero, avançaremos para um clima de discussão em que os cientistas possam falar abertamente sobre o facto de usarem animais em investigação biomédica e fundamental.

Mas o que isto implica em termos de papéis e responsabilidades não é óbvio. Que signifique que precisamos de conversar sobre como os animais são tratados é óbvio para mim, como investigadora em bem-estar de animais de laboratório e profissional envolvida em várias medidas institucionais para promover um uso responsável dos animais em investigação, como a revisão de projectos com animais ou a formação em ciência de animais de laboratório para investigadores. E fico feliz em assumir minha responsabilidade na comunicação e falar sobre estes assuntos. Na verdade, já faço isso. Sempre que questionada pelos media, comento, escrevi regularmente durante quase uma década no Animalogos e também escrevi artigos de opinião nos principais jornais.

Ao olhar para o último link, para um artigo de opinião publicado em 2015, juntamente com três colegas, percebo que abrimos com um argumento que pessoalmente não acho que deva ser meu: a utilidade da investigação com animais. Não porque eu duvide que a experimentação animal permite uma compreensão útil dos mecanismos biológicos, mas porque acho que essa é uma mensagem que deve ser comunicada por quem usa animais em ciência. Essa é a responsabilidade dos meus colegas que investigam nas áreas da neurociência, biomateriais, imunologia e infecção, divisão celular e cancro.

E aqui está um verdadeiro desafio para os promotores oficiais da iniciativa, a Sociedade Portuguesa de Ciências em Animais de Laboratório (SPCAL). Esta associação reúne principalmente profissionais envolvidos no cuidado de animais e no aconselhamento de investigadores que usam animais. Estes profissionais já assumem uma enorme responsabilidade ao trabalhar no sentido de uma investigação com animais mais responsável. Não é justo também dar-lhes a responsabilidade de comunicar o porquê dessa investigação ser importante!