Imposto sobre agricultura insustentável?

Não é (ainda) uma proposta na agenda política, mas a ideia foi recentemente lançada pelo Professor Emérito Frank Berendse da Universidade de Wageningen dos Países Baixos numa carta na revista Nature: As the debate heats up over the European Union’s new Common Agricultural Policy (CAP) for 2020, I propose introducing a progressive tax that is based on farmers’ purchase per unit area of pesticides, antibiotics and imported animal feed such as soya beans (…). Farmers practising sustainable management would be rewarded with increased sales, higher incomes and greater societal respect. (…) A progressive tax on agricultural practices that damage health and the environment would soon pay for itself. It would compensate farmers for lower production by reducing costs and increasing market share. Food prices will increase, but will lead to substantial, price-driven shifts in the sale of sustainable products.

O mapa mostra a venda de antibioticos para animais usado na produção de alimentos na União Europeia (dados de 2013, fonte European Surveillance of Veterinary Antimicrobial Consumption (ESVAC)

Porque é que os porcos mordem as caudas uns dos outros?

Anna Olsson: Rick D’Eath, olá e parabéns pelo teu artigo sobre a mordedura da cauda em suínos, recentemente publicado na revista Animal Welfare. Neste estudo, descreves como o comportamento diferiu entre grupos onde os suínos tinham a cauda cortada (mutilados) e grupos de suínos com caudas intactas. Antes de discutirmos o próprio estudo, pode dizer-nos um pouco mais sobre o problema por trás do estudo?

RD: Morder a cauda é um problema comportamental que afeta suínos em crescimento alojados em parques, um pouco por todo o mundo. Embora existam muitos fatores de risco conhecidos, o mais importante parece ser o acesso limitado a recursos (como espaço no comedouro), mas também o acesso limitado a algum material para mastigar, focinhar e explorar. A mordedura da cauda ocorre em ‘surtos’ esporádicos, que são difíceis de prever ou controlar. É sabido que cortar as caudas bem curtas quando os leitões têm poucos dias de idade reduz o risco posterior de mordedura da cauda, mas é um procedimento doloroso, e visto por muitos como sendo não-ético, sendo que devíamos melhorar o ambiente, em vez de depender de uma mutilação como “solução”. Seria ótimo se pudéssemos avançar para uma redução no corte da cauda, proporcionando simultaneamente as necessidades comportamentais dos suínos de focinhar e mastigar. No entanto, há muita coisa que ainda não se sabe sobre a mordedura de cauda.

AO: Obviamente que o comportamento desempenha um papel importante na mordedura da cauda. Tinhas algumas hipóteses muito concretas para este estudo. Explica-nos, por favor, quais eram elas e no que se baseavam.

RD: O corte da cauda reduz o risco de mordedura da cauda (embora não completamente), mas a razão pela qual é eficaz não é clara. Uma hipótese diz que as caudas cortadas são mais sensíveis, o que significa que os porcos são mais propensos a afastar-se de um potencial mordedor. Outra hipótese é as caudas curtas serem menos atraentes para os mordedores. Comportamentos como investigar causas ou colocá-las na boca sao potencialmente percursores do comportamento efectivo de morder. Por isso, a frequência com que eles ocorrem é susceptível de afectar o risco de um surto prejudicial de mordedura da cauda. No nosso estudo observámos porcos mutilados e não mutilados na mesma exploração, mas que ainda não estavam envolvidos em mordedura da cauda. Comparámos seu comportamento lado a lado para investigar se caudas cortadas eram mais sensíveis ou menos atractivas do que caudas intactas.

Devo acrescentar que este projecto foi uma colaboração entre mim e os investigadores Helle Lahrmann e Torben Jensen- no Danish Pig Research Centre (SEGES), e que o trabalho foi realizado por Mallary Paoli, numa exploração comercial dinamarquesa, para seu projeto de dissertação para o Mestrado em Comportamento Animal Aplicado e Bem-Estar animal (Universidade de Edimburgo).

AO: E o que é que descobriram?

RD: Nenhuma das hipóteses se verificou. Os porcos mutilados não eram mais propensos do que os porcos intactos em afastar-se quando a sua cauda era investigada por (ou colocada na boca de) outro porco, sugerindo que as suas caudas não são mais sensíveis. Além disso, comportamentos dirigidos à cauda não foram mais comuns nos porcos mutilados do que nos porcos intactos, e também não houve evidência de que porcos mutilados posicionem as suas caudas de forma diferente ou mudem o seu nível geral de atividade, o que poderia afetar a capacidade de atratividade ou a disponibilidade das caudas para outros porcos. Portanto, também não há suporte para a ideia de cauda com reduzida atratividade.

Ao invés, Mallary defendeu outra explicação: quando as caudas são mais longas, os porcos são capazes de mantê-las ao longo da boca e mordê-las com mais força usando os dentes molares. As caudas cortadas são demasiado curtas para isso, e os mordedores usam apenas os incisivos, resultando em menos danos. Esta hipótese merece uma investigação mais aprofundada.
Inesperadamente, também descobrimos que os porcos intactos usaram mais os objectos de enriquecimento ambiental (cordas, pedaços de madeira, correntes) do que porcos mutilados, e não temos nenhuma explicação para isso. Também descobrimos que os porcos de maior dimensão passam mais tempo em comportamentos exploratórios e em comportamentos dirigidos à cauda, assim como as marrãs (fêmeas) em comparação com os machos castrados.

Por fim, num dos grupos de porcos mutilados houve um surto de mordedura da cauda perto do fim do estudo. Mallary mapeou os comportamentos neste parque e descobriu que nos dias anteriores ao surto a atividade do grupo foi comparável à de outros grupos, mas os comportamentos dirigidos à cauda foram maiores, e os porcos eram mais propensos a baixar as suas caudas (que é provavelmente um comportamento protetor e um sinal de dor). Embora estes dados digam respeito a um único parque, estas mudanças comportamentais pré-surto foram relatadas por alguns outros estudos utilizando mais grupos e têm o potencial para ser usadas pelos produtores como “sinais de alerta” para intervir e reduzir, ou evitar, danos de mordedura da cauda.

Uma tempestade num copo de leite?

Numa discussão na Assembleia da República (em Janeiro último) de projectos de resolução de PSD/CDS-PP e BE para a defesa do sector leiteiro face ao fim das quotas de leite, o deputado André Silva, do PAN, propôs uma solução out-of-the-box: não bebam leite! 

Carregue na imagem para ver o vídeo.
O deputado referiu o crescente número de pessoas (estatísticas por confirmar) que deixaram de beber leite, na sua opinião por agora disporem de informação “científica” que retira ao leite o estatuto de “super-alimento”, que considera um “mito, fruto do marketing ao serviço do lacto-negócio”. Destacou ainda os problemas ambientais (e o aumento de gases de “efeito-estufa” em particular) resultantes da actividade agropecuária, que embora factuais, não estavam em discussão. 

Quanto à defesa dos produtores, o PAN propõe ajudas para “diversificar” e “converter” a actividade dos pequenos produtores, ao invés da “perpetuação de um problema que é estrutural”. Apesar de em nenhum momento falar de animais, ou do seu bem-estar, esta posição é coerente com a ideologia do PAN, que subscreve uma linha de pensamento filosófica próxima da dos Direitos dos Animais, em sentido estrito. Segundo esta, nenhum animal pode ser usado como um meio para atingir fim, o que exclui o seu uso na exploração de leite ou de lã, por exemplo.

Fonte:vidarural.pt

Sendo apenas representado por um deputado, e não tendo a sua intervenção feito particular mossa na discussão, o impacto da mesma poderia ter ficado por aqui. Contudo, a FENALAC (Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite) decidiu reagir vigorosamente à mesma com uma carta aberta. O teor ríspido desta comunicação contrasta com o respeito devido a um legítimo representante de uma parte não-negligenciável do povo português, concorde-se ou não com ele e as suas palavras.

Mas aparte o tom e o faux pas de num estado democrático se questionar a legitimidade de um representante do povo de exprimir a sua opinião (reitero, concorde-se ou não) a carta da FENALAC abre um pouco mais o debate para áreas de interesse mais geral, como a questão do bem-estar dos animais e da regulação deste e do regime sanitário e impacto ambiental das explorações agropecuárias. 

O deputado do PAN reagiu a esta carta na semana passada com um artigo de opinião no Público onde tem como ponto de partida o direito democrático à informação e à escolha do consumidor e do cidadão.

Se a “liberdade de informação é um direito fundamental essencial”, referido pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1946, como a pedra basilar sobre o qual assentam todas as liberdades, deixemos que aqueles que, primeiro são cidadãos e só depois consumidores, façam as suas escolhas, sabendo que existem alternativas e se ainda assim, pretenderem consumir produtos de origem animal ou quaisquer outros, pois que seja, louvamos as escolhas individuais informadas, sejam quais forem. Só assim caminhamos rumo a novas opções políticas que defendam o direito à verdade em confronto com diferentes modelos de sociedade. 

Sendo a questão do direito à informação da maior relevância, o artigo é não obstante bastante confuso, descontextualizado (foi preciso algum trabalho de detective para saber a que se referia) e em momentos contraditórios (ora acha que se deva deixar a discussão científica para os cientistas, como a seguir diz que estes lhe dão razão). André Silva opta ainda por lamentavelmente manter o debate num nível abaixo do desejável, ao referir-se às “instituídas seitas sistémicas jamais (…) questionadas nas altas instâncias”. No artigo, reforça os principais pontos da sua intervenção na Assembleia da República, insistindo nos estudos que questionam o valor do leite, mas sem apresentar uma só referência (como um link para informação credível) que substancie essa posição. Esta, aliás, é também uma falha que se pode apontar à FENALAC, pois classificam os estudos que supostamente sustentam a posição de André Silva como “pseudo-estudos”, mas não dão exemplos do que consideram “estudos sérios”. 

Fonte: http://www.pecuaria.pt

Se por um lado se entende que a o PAN não seja particularmente sensível aos problemas do sector leiteiro e queira antes promover alternativas ao leite como alimento, por outro o facto de não trazer ao debate a questão mais premente do bem-estar dos milhares de animais que são – e continuarão a ser – usados para a produção leiteira é um virar de costas ao seu eleitorado, certamente mais afeito a questões de bem-estar animal que a uma visão radical dos direitos dos animais. Também não ajuda que considere os produtores como uma “seita” apenas preocupada com os seus interesses, quando estes de facto – como salientam na sua carta aberta – têm uma maior relação de proximidade com os animais e a natureza (os supostos objectos de interesse maior do PAN), que o comum “defensor dos animais” urbanizado que constitui o eleitorado principal deste partido.

A alterização dos produtores pelo PAN (e vice-versa) assenta em preconceitos resultantes da ignorância mútua acerca dos seus interlocutores e não beneficia ninguém, muito menos os animais. Referências a interesses económicos obscuros (seja do “lacto-negócio”, ou do “soja-negócio”), desinformação e manipulação da opinião pública, argumentos de autoridade (“os cientistas dizem que”) são falácias básicas cometidas de parte-a-parte, e que evitam a obtenção de consensos (ou compromissos) que permitam progresso que beneficie consumidores, animais e produtores. 

Neste vazio de questões por resolver, destaca-se o direito do consumidores – que continuarão a consumir leite e os seus derivados como queijo, manteiga, iogurte e gelados – a informação transparente. 

E que sabem os portugueses das condições em que são alojados e criados os animais de produção? Ou o impacto ambiental das produções agro-pecuárias? A julgar pelos dados do Eurobarómetro, ou o nosso trabalho com alunos do ensino secundário no âmbito da Universidade Júnior, muito pouco. E que vantagens (ou desvantagens) haverá para o ambiente e para o bem-estar animal do leite ser produzido em Portugal? 

À falta de melhor legislação, começam alguns produtores a investir e explorar segmentos do mercado para o qual estas questões são relevantes. Exemplo disso é o programa “vacas felizes“, da Terra Nostra, ou o leite biológico Agros. Mas o direito à informação deve ser universal.  

Quem salva estes animais?

O ano de 2015 terminou com uma notícia dramática, pelo menos para quem se preocupa com o bem-estar animal. Mais de 100 bois, vacas e vitelos (170 animais, incluindo cavalos, segundo o Correio da Manhã) estão a morrer lentamente à fome, abandonados à sua sorte pelo seu produtor. 
O produtor junto a um animal em cadavérico, prestes a morrer. (Fonte:Jornal de Notícias)
O problema é de difícil resolução mas conta-se em poucas linhas. José Vieira, produtor agropecuário com historial de problemas com a justiça e de tratamento negligente dos animais ao seu cuidado,  está proibido de comercializar os animais, que se encontram sob sequestro pela Direcção Geral de Alimentação e Veterinária por ter detectado brucelose na exploração. A situação tem vindo a arrastar-se desde então, tendo o produtor, sem subsídios nem quaisquer outros meios de prover aos animais, deixando estes à sua sorte, num local onde o pasto tem vindo a rarear. A recente chamada de atenção para o problema resultou de um crescente número de mortes, desde Agosto, por estado avançado de inanição.  
Fonte: SIC
Mas já antes o abandono destes animais tinha tido consequências dramáticas, como a morte pelo fogo ou o seu abate a tiro pela divisão SEPNA, da GNR. 
Versão impressa da notícia de 20/07/2012
Estes e outros problemas com as autoridades têm vindo a ocorrer pelos menos desde 2003. Não obstante, o produtor vitimiza-se e culpa o Estado pela situação, apesar de ter recebido múltiplos avisos e até ajudas para regularizar a sua situação (ver o vídeo). A ser assim, a questão coloca-se: como pode ter sido permitido a este produtor continuar a ter uma exploração?  
É necessário apurar responsabilidades, mas urge neste momento, face à emergência de valer a estes animais, elaborar um plano urgente para os ajudar. A solução mais costumeira é o abate (humano) dos animais para prevenir que a situação se arraste e assim poupá-los a mais sofrimento. Há, contudo, outras opções, como defende o PAN, mas que poderão ser inviáveis dados o elevado custo de manutenção dos animais (300 € diários, segundo José Vieira). 
Serve este caso ainda para salientar a importância de prevenir estas situações, através de uma supervisão eficiente e intervenção rápida por parte das autoridades, que permita agir atempadamente quando é evidente que um produtor não tem capacidade para suprir as mais básicas necessidades dos animais, poupando-os a sofrimento evitável.

A tecnologia ao serviço de bem-estar animal

Por Ana Margarida Pereira, médica veterinária e colaboradora do grupo Ciências de Animais de Laboratório, IBMC.

A monitorização do estado de saúde dos animais de interesse pecuário tem um impacto no bem-estar animal e na saúde publica. Em relação ao primeiro, está em causa uma das cinco liberdades, apontadas pelo Farm Animal Welfare Council (FAWC), que afirma que, os animais deverão ser mantidos em condições que lhes permitam estar livre de dor, lesões e/ou doença, através de procedimentos de prevenção e diagnóstico seguidos de tratamento célere. O impacto na saude publica por seu lado, envolve a prevenção da transmissão de zoonoses, bem como a garantia da qualidade das carnes ou outros subprodutos para consumo humano.

De acordo com a legislação vigente, Decreto-Lei n.º 157/2008, a inspeção dos animais deve ser efetuada diáriamente. No entanto, a elevada densidade de frangos coloca dificuldades à inspeção. A rotina de inspeção deve seguir os Welfare Quality® Assessment Protocols, que se encontram disponiveis online. A dor é associada a lesões gerais que, causam claudicação, ou mais especificas como dermatites nos membros e/ou queimaduras na região do jarrete. A mortalidade dos bandos, bem como o numero de animais abatidos em consequência de lesões graves anteriormente descritas, são utilizados como indicadores de doença.

Frango com claudicação grave. (Fotografia: Charlotte Berg, Universidade Sueca de Ciências Veterinárias).

Por forma a melhorar a monitorização do bem-estar de frangos de carne, investigadores da Universidade de Oxford, estão a desenvolver um projeto financiado pela Biotechnology and Biological Sciences Research Council (BBSRC), intitulado ‘’Automated assessment of broiler chicken welfare using optical flow patterns in relation to behaviour, disease risk, environment and production’’. A proposta passa por complementar a inspeção diária com de videos, capturados por camaras estrategicamente montadas nos pavilhões. Estas registam os movimentos do bando, produzindo um optical flow cujo padrão é analisado em tempo-real. A análise é feita com base em estatistica descritiva, nomeadamente média e curtose. Assim, o método usado, não incide sobre a existência ou ausência de movimentos, mas sim sobre a hetero/homogenidade dos mesmos. O principio baseia-se no conhecimento de que, um bando saudável, com uma marcha normal caracteriza-se por um optical flow homogéneo, contrariamente ao que acontece em bandos afetados com claudicação que, por se movimentarem mais devagar, originam um optical flow heterogéneo, com velocidades de movimentos muito disparos. Artigos publicados pela investigadora principal, MS Dawkins, e seus colegas, em 2009, 2012 e 2013 apresentam uma relação entre a média e a curtose do optical flow e problemas de bem-estar relacionados com a marcha. O desafio consiste agora, em relacionar a existência de doença do foro intestinal (frequentemente diagnosticadas em exame post mortem) com o optical flow. Os investigadores acreditam ser possível encontrar esta relação uma vez que, secundáriamente à infeção e dadas as caracteristicas dos sinais clinicos (diarreia profusa, fraqueza) existe predisposição para lesões nos membros com marcha e comportamento consequentemente alterados.

Apesar das perspectivas serem favoráveis, a validação do sistema requer ainda o desenvolvimento de equipamento mais fiável e da realização de testes no terreno. No entanto, esta tecnologia e a forma como irá objetiva, continua e automáticamente monitorizar o bando, poderá contribuir para o envio de alerta atempado de mau-estar e consequente tomada de atitude.

Imagina um bife (de vaca)… sem vaca ?

Por Rita Luz e Rita Santos, alunas da Pós-graduação em Comportamento e Bem-Estar Animal, ISPA.

“We shall escape the absurdity of growing a whole chicken in order to eat the breast or wing, by growing these parts separately under a suitable medium.”
Winston Churchill

As primeiras fibras musculares produzidas em laboratório a partir de células animais foram obra do Dr. Russell Ross, no início dos anos 1970. Embora estes trabalhos pioneiros tenham sido realizados no contexto da medicina cardiovascular, estava aberta a caixa de pandora para que a hipótese de se produzir carne em laboratório se tornasse uma realidade.

A ideia de carne artificial consiste em multiplicar-se células musculares em laboratório, sem implicar a morte do animal. Para tal usam-se células percursoras (células estaminais adultas), retiradas de forma indolor de um animal vivo através de biópsia, e colocadas num meio de cultura onde deverão proliferar e crescer. É necessário que as células musculares se liguem a uma malha que as suporte e permita que se exercitem. Esta malha de suporte deverá poder permanecer no produto final e ser consumida. Por último, é necessário um bioreactor onde a carne será realmente cultivada (isto é, multiplicar-se).
Apesar de todo este processo ser possível sem manipulação genética, esta poderá ser usada para adaptar a carne a necessidades nutritivas especiais, como por exemplo, para controlo de colesterol. No entanto, ainda não são conhecidas as verdadeiras consequências desta manipulação para a saúde humana. Teoricamente, esta tecnologia permitiria responder de forma eficaz à crescente necessidade de fornecimento de carne já que, segundo o relatório ONU sobre a evoluҫão demográfica mundial, a produção animal deverá mais do que duplicar até 2050 para sustentar uma populaҫão próxima dos 10 biliões de pessoas.
Esta temática envolve inúmeros grupos de interesse – animais, indústria agropecuária, associaҫões zoófilas, consumidores, indústria farmacêutica, entre outros – que assumem posições muitas vezes opostas. Por um lado, temos a indústria pecuária e todos os que dela dependem. Para estes, o método de produção de carne sem recurso a animais vivos representa, no limite, o desaparecimento da sua subsistência e dos próprios animais. Entre os argumentos que questionam a produção de carne artificial, temos que esta “representa a vitória da ruptura: ruptura com a pecuária, com a relação homem-animal, com a ruralidade. (…)limita-se a apresentar uma solução (a médio prazo, diga-se), mas ignorando a importância que os animais têm na nossa vida (e na do planeta).
Por outro lado, para os defensores dos direitos dos animais – para quem todos os seres “sujeitos de uma vida” possuem valor intrínseco e não podem ser usados como meios para atingir um fim – a ideia de se poder produzir carne sem sofrimento animal é, aparentemente, algo que está perto do ideal. Tanto é que a PETA lançou em 2008 o desafio ‘in-vitro’ chicken contest’, com um prémio de $1M (um milhão de dólares) para a equipa que conseguisse reproduzir carne de galinha em laboratório. Cerca de 30 laboratórios aceitaram o desafio e terão começado a trabalhar nesta investigação. No entanto, outros activistas como o Professor Gary Francione, são da opinião de que a carne artificial, mesmo que não envolvendo sofrimento animal, serve mais para legitimar o consumo de carne e o uso de animais como fonte de alimento.

Mesmo dentro do grupo de potenciais consumidores, a posição não é unânime, sendo levantadas diversas questões de ordem ética (e não só), que parecem colocar em causa esta tecnologia. Por exemplo, é de salientar o facto de os animais continuarem a ser usados, mesmo que apenas numa fase inicial do processo. Temos ainda o investimento necessário (o custo de produção do primeiro hambúrguer foi de 250 mil euros) e o factor ‘Blhark’ (ou ‘Yuk’, em inglês, segundo a filósofa Mary Midgley) que está relacionado com as nossas respostas emocionais ao aspecto pouco apelativo do resultado final deste processo (será um bife artificial, um bife?).
Posto isto, e tendo em conta a diversidade de pontos de vista que esta temática impõe, propomos a reflexão sobre as seguintes questões: será que do ponto de vista ecológico e de sustentabilidade do planeta, a solução não estará antes na redução substancial do consumo? Será que, do ponto de vista ético, é aceitável que se produza carne artificial para alimentar a crescente procura de proteína animal, quando esta apenas será acessível a uma pequena fracção da população? Será que é aceitável que se invista milhões em cultura de carne para consumo, quando outras prioridades são evidentes (p.e. produção de órgãos para fins médicos)? Qual será a consequência para os animais, quando deixarmos de necessitar deles? Parece-nos, for fim, que a questão fundamental não incide tanto sobre a forma como produzimos a carne, mas antes no consumo desequilibrado e excessivo que a nossa sociedade continua a promover.

Quer apadrinhar uma vaca?

Se ninguém consome carne ou outros produtos de origem animal, deixa de haver aqueles animais que conhecemos como animais de produção – vacas, porcos, galinhas. Ou haverá quem queira pagar para os manter sem receber nada mais em retorno do que a satisfação de manter os animais vivos?
Em 2011, um grupo de locais numa aldeia perto de Colonia em Alemanha lançaram uma fundação para salvar 11 vacas leiteiras e 14 vitelas quando o agricultor decidiu abandonar a produção de leite e se preparava para mandar os animais ao abate.  

 
A fundação Kuhrettung Rhein-Berg oferece a possibilidade de apadrinhar uma vaca por um contributo mínimo de 10 euros por mês. 15 dos animais já têm o seu sustento garantido.

World Meat Free Day

Dia 15 de Junho é World Meat Free Day. Ao contrário do que pode parecer, não é um dia para os vegetarianos. Antes pelo contrário, é uma iniciativa que apela a todos que comem carne a refletir e a experimentar a possibilidade de não o fazer por um dia. Não para se tornarem vegetarianos, mas para darem um passo para um nível de consumo de carne que não ponha em causa o equilíbrio ambiental, o bem-estar dos animais e a sua própria saúde.

Seria preferível sermos todos vegetarianos ou até vegans? Não há uma resposta ética ou científica consensual, vai depender por um lado do peso que é atribuído aos diferentes interesses em causa, por outro lado de como se entende que estes interesses são respeitados em situações diferentes. O mundo seria radicalmente diferente se toda a gente deixasse de consumir produtos de origem animal, e não é completamente claro se será um mundo melhor. Esta dilema ético é muito bem abordado pelo Tony Milligan no livro Beyond animal rights: food, pets and ethics, e cito do meu análise do livro publicada aqui há um par de anos:

Dos cinco capítulos dedicados ao consumo de carne, o primeiro de todos, “The Depth of Meat-Eating”, oferece um olhar geral e serve de introdução ao tópico. No capítulo 2, “An Unwritten Contract”, explora a ideia de que a agro-pecuária e o consumo de carne oferecem um bom “contrato” aos animais, como grupo, na medida em que lhes permitiu que prosperassem, em número. Por um lado, é um fraco negócio para os animais que pagam pela protecção e alimento com a sua morte precoce, e que por vezes é precedida por uma vida que não vale a pena ser vivida. Por outro lado, em condições que proporcionam uma vida que valha a pena ser vivida, o argumento de que de outro modo estes animais não teriam sequer existido é muito forte. Isto deixa-nos com uma situação “in which rival considerations can be balanced up against each other but no single consideration obviously trumps the others. On the one hand, the opportunity of life argument does real work (…) to give some justification for ethically informed meat-eating. It is the means by which animals come into existence and enjoy some approximation to a good, if short, life. (…) Ethical vegetarianism, on the other hand, might better save the interests of already existing creatures” (página 40)
(…)
O capítulo 4, “Diet and Sustainability”, foca-se nos aspectos ambientais das diferentes aspectos que envolvem as diferentes opções alimentares. Milligan considera que a produção de carne actual deixa uma pegada ecológica inaceitável, mas também que há terreno que só pode contribuir para a alimentação humana atraves de produção de carne e leite de animais de pastoreio. Tendo em consideração todos os factores (tanto quanto a complexidade do problema o possibilita), Milligan admite que uma dieta contendo pequenas quantidades de carne de origem local e produzida com respeito pelo ambiente, poderá ser tão ou mais sustentável que uma dieta vegetariana. Mas de imediato observa não ser esta a dieta típica de um consumidor de carne, e que “(t)here is just as much danger that the sheer possibility of an eco-friendly carnivorous diet may be used as a stalking horse to provide dubious justification for widespread carnivorous practices that are not nearly as eco-friendly as their practitioners may assume” (página 84). O valor ecológico do consumo limitado de carne, é a razão pela qual o veganismo, como opção universal, poderá ser “The Impossible Scenario” (Capítulo 5), mas que um vegetarianismo universal, que permita alguma produção animal, poderá ser mais exequível.
Mas se perguntamos se seria preferível nós comermos menos carne (sendo ‘nós’ cidadãos de Europa e América de Norte), a resposta será quase consensualmente “sim”. Do ponto de vista científico, há ganhos para o ambiente e há ganhos para a saúde humana. Poderá ainda haver ganhos para os animais, pelo menos se uma redução de quantidade é combinada com um investimento na qualidade. Perdas? Sim, para quem ganha dinheiro com o atual consumo de carne. Em fevereiro deste ano, o principal painel de aconselhamento nutricional nos EUA recomendou que os americanos deviam comer menos carne. A reação da associação de comerciantes de carne North American Meat Institute foi imediata e muito critica.

E a perda gustatória? O seu peso ético se calhar é menor do que as considerações ambientais, de saúde e até económicas. Mas o que gostamos é provavelmente um dos fatores mais importantes quando escolhemos o que vamos comer. Eis a importância do World Meat Free Day: uma oportunidade para experimentarmos comer algo diferente e potencialmente gostoso!

Gostaria de ser cozido vivo? O dilema moral de um prato de caracóis.

Caracóis cozidos são uma iguaria muito apreciada em Portugal nesta altura do ano. Nesse sentido, o grupo activista Acҫão Directa lanҫou uma campanha em defesa dos caracóis, alertando para a dimensão moral do facto de estes moluscos serem cozidos vivos. Segundo a dita associaҫão “estes animais sentem e por tal sofrem nas circunstâncias em que são instrumentalizados apenas para satisfazer o palato de quem os procura como petisco”. A reacҫão das redes sociais – quase sempre ígnea, hiperbólica e intolerante – não se fez esperar, considerando a iniciativa para lá de ridícula e obrigando mesmo a associaҫão a reagir às críticas de que tem sido alvo.

O alerta lanҫado pela Acҫão Directa nada tem de ridículo. A evidência de estudos comportamentais é inteiramente consistente com a ideia de que alguns invertebrados, principalmente crustáceos (como as lagostas) e moluscos (como caracóis), experienciam dor. No entanto, é de salentar que eu uso o verbo experienciar, em vez do verbo sentir, porque a diferenҫa entre os dois não é apenas semântica. Na verdade, não basta dizer que um animal experimenta dor para que essa dor seja relevante em termos morais. Para que a dor conte moralmente o animal deve senti-la como experiência subjetiva aversiva (i.e. sofrimento), algo que não é de todo evidente no caso do caracol. Para além disso, a questão do sofrimento deve ser analisada em perspectiva e não de forma isolada. Ao contrário do Nuno Franco, não me afirmo como ‘bem-estarista’. Penso que a vida é muito mais do que sentimentos hedonistas de dor e prazer. Valores como o a dimensão ambiental, a responsabilidade social ou a motivaҫão do agente moral (ou seu carácter) são porventura elementos tão ou mais importantes no juízo ético.
Noutras ocasiões já me afirmei como omnívoro e no meu menú constam também os caracóis (ou constavam, pois na Irlanda não os encontro). A helicicultura (i.e. cultivo de caracóis) é uma forma de produҫão animal extremamente eficiente, consumindo muito menos recursos naturais (e.g. terra arável, materias primas) do que aqueles necessários por outras formas de agropecuária industrial. Os caracóis consumidos em Portugal são na sua maioria provenientes de Marrocos. Considerando a sua proximidade (Marrocos esta mais perto de Portugal do que Franҫa, outro país produtor de escargots), o benefício social para as populaҫões locais e a possibilidade de substituir outras formas de consumo proteico – que provavelmente causam maiores problemas de bem-estar, de sustentabilidade ambiental e social – são todas razões de peso para não me rever na campanha da Acҫão Directa.

Além do mais, os caracóis são uma excelente fonte alternativa de proteína. Um prato de caracóis pode facilmente substituir um bife, com muitos outros benefícios nutricionais. Segundo a revista Visão, além do alto teor proteico (13 a 15%) e baixo teor lipídico (0,3 a 0,8%), os caracóis são ricos em ácidos gordos polinsaturados e sais minerais, sobretudo magnésio, cálcio, ferro, cobre e zinco. Quem sabe de caracóis sabe o difícil que é cozinhá-los bem. Para garantir sabor, salubridade e higiene é necessário preservar a frescura do produto e é por isso é que os caracóis devem ser cozinhados vivos. Não existem métodos eficazes de occisão de moluscos e o abate de caracóis apresenta desafios acrescidos em virtude do elevado número de animais envolvidos, das suas reduzidas dimensões, da sua anatomia e resiliência.
Apesar de simpatizar com os motivos desta campanha, ela não conta com o meu apoio, porque não procura soluҫões ou sequer um debate sobre o tema. A procura de alternativas ao uso de caracóis vivos (nomeadamente através de métodos eficazes de abate) parece-me muito mais construtiva do que uma campanha contra o seu consumo.

The Ethics of Eating – Curso Livre

Começa hoje o curso livre da Universidade de Cornell, nos EUA, sobre a ética da alimentação, The Ethics of Eating. Os MOOCs (Massive Open Online Courses) são cursos online, gratuitos e disponíveis para quem quiser. Coursera e EDX são duas das maiores plataformas de MOOCs. As melhores universidades do mundo estão a investir  neste tipo de formação à distância, em que não é incomum ver cursos com dezenas de milhar de alunos. De forma a gerir tamanha multidão, estes cursos recorrem muitas vezes a peer assessment, avaliação por pares, em que os alunos avaliam trabalhos e comentários de outros alunos, cabendo aos docentes um papel de moderadores (além de geradores de conteúdos, é claro).
Inscrevi-me neste curso assim que soube dele e devo dizer que tenho grandes expectativas. Sei de experiência própria que não é fácil acompanhar um MOOC do início ao fim e manter o entusiasmo e dedicação. Um MOOC dura normalmente entre 4 e 6 semanas e exige, pelo menos, umas 4 horas de trabalho por semana. Este curso dura 6 semanas, sendo que a segunda e a terceira semanas são dedicadas aos animais, em especial à agropecuária industrial. Mas ainda o curso não começou e já dei de caras, através da sua página do facebook com um site muito estimulante: scoop.it/t/ethics-of-eating, que colige informação da imprensa internacional sobre ética na alimentação. Através dele fiquei a saber, por exemplo, de uma iniciativa espanhola de produzir Foie Gras ‘ético’, isto é sem alimentação forçada.