Levar a sério o problema dos animais de companhia

Os eventos recentes envolvendo a morte de dezenas de animais em dois abrigos ilegais de Santo Tirso culminaram num autêntico furação político, com a suspensão do médico veterinário municipal, a demissão do Director-Geral da Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e a passagem da tutela dos animais de companhia do Ministério da Agricultura para o Ministério do Ambiente e da Ação Climática.

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Como sempre acontece quando estão envolvidos animais, o debate tem sido extremado; por um lado o PAN, através do seu porta-voz e o PS, pela mão do próprio Primeiro-Ministro António Costa; e por outro, as associações profissionais do setor animal, nomeadamente a Associação Nacional de Médicos Veterinários de Municípios (ANVETEM) e a Ordem dos Médicos Veterinários (OMV).

Num clima de grande crispação e incerteza, dois pontos importa reter. O primeiro é que, aqui chegados, todos somos responsáveis pela presente situação: cidadãos detentores de animais de companhia, profissionais do ramo animal, associações zoófilas, municípios, autoridades veterinárias locais e nacionais, deputados, governos e seus ministérios. Isso torna-nos a todos, ao invés de culpados, co-responsáveis por encontrar uma estratégia que sirva o melhor interesse dos animais. Para tal, vale a pena começar por identificar em retrospetiva o que de positivo se tem feito neste contexto, pese embora as lacunas ainda existentes.

Nos últimos anos, a frequência de campanhas de adoção e esterilização de animais de companhia aumentou drasticamente em todo o país, muito por conta da estreita colaboração entre médicos veterinários municipais e associações zoófilas. São bons exemplos o Programa CED (captura, esterilização e devolução) da Câmara Municipal de Braga ou o @ProjetoFiel do Canil/Gatil Municipal de Évora. Em 2019, foi criado o Sistema de Identificação de Animais de Companhia (SIAC), fundindo as duas bases de dados então existentes e transferindo para os médicos veterinários a responsabilidade pela identificação e registo animal. Este mecanismo, em conjunto com o novo modelo de Boletim Sanitário de Cães e Gatos (uma iniciativa conjunta da DGAV e da OMV), dificultou em muito o mercado ilegal de animais e a desresponsabilização do abandono. Outros aspetos positivos relacionam-se com estratégias que contribuíram para facilitar o acesso aos cuidados de saúde animal. São exemplos a dedução no IRS das despesas médico-veterinárias, proposta pelo PAN em 2016, ou o Programa Nacional de Apoio à Saúde Veterinária para Animais de Companhia em Risco, uma iniciativa da OMV que permite às autoridades locais (Municípios e Juntas de Freguesia) atribuir cheques veterinários aos detentores carenciados, por elas identificados, para utilização em cuidados de saúde primários.

O segundo ponto que importa lembrar é que todos concordamos que os animais são seres sensíveis, cujos interesses urge defender. Divergimos, é certo, na melhor forma de o fazer. Tem razão André Silva quando afirma que os municípios têm falhado na sua obrigações de disporem de Centros de Recolha Oficiais de Animais (CROA), não só em número, mas também em qualidade de bem-estar animal, e que não pode o legislador andar a reboque de uma sociedade mal preparada para lidar com a detenção responsável de animais de companhia. Mas também tem razão a ANVETEM quando defende que aos médicos veterinários municipais deve ser dada autonomia técnica para garantir a gestão populacional dos CROAs e que lhes deve ser conferido o poder de autoridade sanitária veterinária concelhia, ao abrigo do Decreto-Lei nº 116/98.

A sociedade precisa de desenvolver uma estratégia multidisciplinar que permita trabalhar no melhoramento da sua relação com os animais de companhia. Não é com fraturas, aproveitamentos políticos e omissão de pareceres técnicos consubstanciados que se alcança uma solução otimizada para proteger os interesses dos animais. A nossa posição é clara: a abertura desenfreada de centros de recolha – oficiais ou privados – como solução para tirar os animais da rua mais não é que a perpetuação de depósitos que estão longe de lhes providenciar adequada qualidade de vida. É necessário antes investir as verbas disponíveis em outras abordagens. Da mesma forma, as associações zoófilas e os CROAs não deveriam limitar-se a receber e manter animais nos seus canis, ou a fazer as muito úteis campanhas de adoção/esterilização. Em alguns casos, é preferível não ceder animais para adoção do que vê-los mais tarde neglicenciados, mal-tratados ou sujeitos a re-abandono. Deveria ser sempre exigido uma forma de monitorização e registo do percurso dos animais após a adoção, bem como do destino das verbas implicadas. Esta estratégia não só dissuadiria a posse irresponsável de animais, como responsabilizaria as autarquias pela adequada gestão de fundos.

A frente educação é lenta, mas irreversível. O malogrado caso de Santo Tirso nunca teria gerado a mesma indignação popular nem consequências políticas há 10 anos atrás, simplesmente porque as pessoas estão agora muito mais sensíveis a este tema. No entanto, muitas destas reações foram mais fruto da emoção do que da razão, sendo que a desinformação que se seguiu clama por uma estratégia educativa concertada. Desde Setembro de 2018, a Direção-Geral de Educação tem vindo a preparar, em conjunto com a DGAV, a OMV, o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e o Jardim Zoológico de Lisboa, um referencial para o Bem-Estar Animal no âmbito da disciplina de Educação para a Cidadania, e que constitui uma oportunidade educativa sobre estas matérias desde o ensino pré-escolar até ao secundário. Mas a educação para a convivência responsável com animais de companhia não pode esperar tanto tempo. Compete aos municípios, como parte integrante das suas obrigações, sensibilizar ativamente os seus munícipes sobre a detenção responsável e agir em conformidade em casos de manifesta violação, como era o caso dos abrigos de Santo Tirso.

Por sua vez, a legislação tem o poder de impulsionar uma rápida mudança de atitudes. É um instrumento que reflete princípios, mas que deve ter em conta as consequências da sua efetiva aplicação. A legislação feita em Portugal raramente analisa a priori o impacto da sua aplicação, podendo com isso levantar mais problemas do que os que pretende resolver. Neste caso, precisamos de um sólido enquadramento legal que proteja os interesses dos animais de companhia, o que passa pela sua manutenção em condições de saúde e satisfação das necessidades fisiológicas, comportamentais e mentais. Como fazê-lo em canis sobrelotados e a receber continuamente mais animais? A polarização da discussão em torno da eutanásia torna-a artificialmente um instrumento da resolução do problema. A eutanásia não é, nem pode ser, a solução principal. No entanto, excluí-la liminarmente vota centenas de animais à mais miserável das vidas, a sofrimento permanente e sem qualquer hipótese de recuperação e adoção. É, na prática, uma crueldade.

Por fim, são necessários técnicos e organismos competentes capazes de passar à prática estas medidas, usando os fundos disponíveis de forma responsável e verificável. A pluridisciplinaridade é geralmente útil, mas não percebemos como é que se vai melhorar a situação retirando este assunto do controlo das autoridades veterinárias, onde a articulação entre autoridade veterinária nacional (DGAV), médicos-veterinários municipais e profissionais do sector privado é tão drasticamente necessária. Concluímos exortando os decisores políticos a dotarem os organismos competentes, como a DGAV, de técnicos e meios capazes de fazerem frente às actuais limitações, criando políticas pró-ativas de aplicação das normas em vigor, em vez de andar simplesmente a reboque da legislação europeia. O problema não se vai resolver nunca com discursos inflamados ou manobras políticas superficiais de mudança de competências.

Texto escrito em co-autoria com Leonor Galhardo, Bióloga e Consultora em Bem-Estar Animal, e publicado originalmente no Jornal Público.

Qual é o risco do seu cão sofrer um golpe de calor?

Todos sabemos o quão perigoso é deixar um cão no interior do carro ao sol ou com as janelas fechadas. Embora os cães possuam glândulas sudoríparas na pele, elas não servem para fazer termorregulação como no caso dos humanos (excepto nas suas patas, que também suam). Para perder calor, o cão recorre a duas estratégias básicas: vasodilatação periférica e aumento da frequência respiratória (i.e. arfar). Se o ar for demasiado quente e húmido, este mecanismo não funciona eficazmente e o animal entra em hipertermia, que pode resultar em falência multi-orgânica, choque e morte.

Veja infografia sobre golpe de calor em Vets Now.

Mas qual a frequência do golpe de calor em cães? Foi esta pergunta que investigadores de Nottingham Trent University e do Royal Veterinary College de Londres procuraram responder, num estudo publicado na revista Nature Scientific Reports. Os investigadores recorreram à base de dados VetCompass, que reúne informação de animais atendidos em clínicas veterinárias por todo o Reino Unido, para identificar casos de golpe de calor nesse país. Embora tenha sido encontrada uma baixa incidência (0.04%, num total de 395 casos confirmados de golpe de calor durante o ano de 2016), a taxa de letalidade é  elevada: 14% dos animais atendidos morreram. A esmagadora maioria dos casos ocorreu entre os meses de Maio e Agosto. Sem surpresas, cães braquicéfalos (i.e. de nariz achatado) e pesando mais de 50 kgs têm risco significativamente aumentado de sofrer golpe de calor.

Três recomendações genéricas podem ser retiradas deste estudo: à medida que o planeta aquece (um processo inexorável, mesmo que parássemos hoje mesmo de libertar carbono para a atmosfera)  necessitamos de esforços adicionais para educar os detentores a saber vigiar e identificar sinais de hipertermia nos seus animais, por forma a evitar golpes de calor nos meses mais quentes do ano. Por outro lado, é necessário criar animais com uma conformação cardiorespiratória adequada, o que implica alterar o estalão de raças populares como Pug, Bulldog, Dogue Francês, Dogue de Bordeaux, Cavalier King Charles Spaniel e de outras raças braquicéfalas. Por fim, é fundamental manter uma condição corporal adequada porque o excesso de peso, para além de provocar problemas metabólicos, incluindo diabetes, é um factor de risco acrescido para golpe de calor em cães.

A ascensão e queda do bem-estar animal em Portugal

Leonor Galhardo

O meu primeiro emprego em bem-estar animal foi no que é hoje a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). Tinha acabado a minha formação na área e estava desejosa de a pôr em prática. Entrei para a recém-criada Divisão de Bem-Estar Animal, liderada pela Drª Selene Veiga, a quem ouvi defender posições avançadas sobre bem-estar animal – o que na altura não era vulgar entre veterinários, mais focados no uso instrumental dos animais, sobretudo para consumo de carne. Ela falava com consideração moral e prática não só de animais de pecuária, mas também de laboratório, de companhia e até de animais selvagens. Foi com estes últimos que me pôs a trabalhar, em face da minha formação de base.  Com ela aprendi que nem sempre é justo rotular os veterinários pela imagem que alguns, mesmo que na altura muitos, criam da profissão e aprendi também o valor da colaboração e da multidisciplinaridade. Há mais de 20 anos atrás.

Pelas mãos daquela experiente veterinária e das que se seguiram, a divisão ganhou forma, expandiu-se nos tópicos com que trabalhou, ajudou a aplicar e fiscalizar um grande pacote de leis que nos chegaram da União Europeia. Criaram-se estratégias de formação de técnicos, produtores e tratadores. Os funcionários da divisão desdobraram-se em deslocações pelo país para mapearem a situação das pecuárias, dos canis, dos parques zoológicos e dos laboratórios que usavam animais. Falhou muita coisa, com certeza que sim: por fragilidades técnicas, humanas, de conceitos e de recursos. Ao longo do tempo, diversas políticas e carências mantiveram lacunas que num sistema administrativo mais eficiente e modernizado poderiam ter sido ultrapassadas. O que é certo é que, naquele tempo, o bem-estar animal ganhou uma morada, um conceito prático e respeito. Ganhou um conjunto de técnicos que se conseguiram fazer ouvir até hoje junto de interlocutores difíceis e que nenhum político a discorrer sobre animais realmente conhece na prática.

Hoje chegámos a um ponto em que, segundo a Ministra da Agricultura, a atual DGAV tem que se dedicar à alimentação, isto é, aos animais de pecuária. O Ministério do Ambiente que se dedique aos outros – isto junto com as políticas de ambiente, ordenamento do território, cidades, transportes, mobilidade, clima, conservação da natureza, energia, geologia e florestas, e tantos outros temas muito pouco afins com animais de companhia. O PAN, por quem tenho respeito e concordância quanto a vários pontos de vista filosóficos relativos à proteção animal, entendeu focar-se na DGAV como bode expiatório da tragédia dos canis de Santo Tirso. O Governo respondeu precipitadamente na mesma linha e encenou uma mudança de estratégia, sem qualquer consideração pelos reais problemas que bloqueiam uma ação mais efetiva por parte da DGAV e outras entidades, como as Câmaras Municipais. Esperemos que aquilo que começou por ser uma indignação generalizada contra os maus-tratos a animais não venha a ficar para a história como a situação que fez o atual Governo desfazer o único departamento oficial dedicado a bem-estar animal e que mais contribuiu para o melhorar em Portugal.

Leonor Galhardo – Bióloga, consultora de bem-estar animal

(uma versão deste artigo foi originalmente publicada no Jornal Expresso online)

Substituir, reduzir e refinar o uso de animais em ciência. Mas não por esta ordem?

Nota: Tenho andado um pouco desconectado do Animalogos, em parte por culpa também da maior facilidade e alcance da nossa página de Facebook. Mas a criação do blog Animalogues (um “primo” deste) pela Anna Olsson veio lembrar-me que este formato tem algumas vantagens relativamente às páginas nas redes sociais, cujas publicações são mais efémeras e frequentemente com menos substância. Vou procurar escrever mais sobre descobertas científicas mais recentes relativas ao comportamento, cognição, bem-estar e ética animal. 
A reflexão que vos trago hoje vem a propósito do artigo recentemente publicado na PLOS ONE “Researchers’ attitudes to the 3Rs – an upturned hierarchy?”, do qual eu, a Anna Olsson e o Peter Sandøe somos autores. 
É sabido que o uso de animais em investigação biomédica é geralmente justificado pelos potenciais benefícios para a saúde dos seres humanos e de outros animais, ou do meio ambiente. No entanto, é também esperado que os cientistas sigam o princípio dos 3Rs (Replace, Reduce, Refine) e procurem, tanto quanto possível, “substituir, reduzir e refinar” o uso de animais para fins científicos ou educacionais. 
O uso de animais em Ciência ainda é imprescindível.  Mas devem ser
desenvolvidos meios e estratégias para a sua substituição, redução e refinamento.
Uma das formas de promover os 3Rs é a a formação em ciência de animais de laboratório, que na União Europeia é essencial e obrigatória para todos aqueles que pretendem usar animais para fins científicos. O nosso objectivo foi assim de avaliar o nível de conhecimento e sensibilização dos investigadores para os 3Rs, antes e depois de frequentarem cursos em ciências de animais de laboratório. Para isso realizámos um inquérito on-line com participantes dos cursos realizados em oito cidades situadas em quatro países europeus: Portugal (Porto e Braga), Alemanha (Munique e Heidelberg), Suíça (Basileia, Lausanne, Zurique) e Dinamarca (Copenhaga). As perguntas foram elaboradas de modo a avaliar atitudes gerais relativas ao uso de animais em investigação biomédica, alternativas de substituição, potenciais conflitos entre os objectivos de redução e refinamento e análises de dano-benefício. Ao primeiro inquérito responderam 310 investigadores e ao segundo inquérito 200, mas apenas 127 foram tidos como válidos. 
Sucintamente, nós descobrimos que:
  • Embora os cursos aumentem o nível de conhecimento sobre os 3Rs, não tiveram nenhum efeito observável no nível de confiança que a experimentação animal pode ser totalmente substituída por métodos não-animais (que à partida era já baixo). 
  • A maioria dos investigadores reconhece haver questões éticas relacionadas com seu trabalho e discute-as com seus pares. 
  • O nível de bem-estar animal, e especialmente a prevenção da dor, foi considerado como a questão ética mais premente, bem como mais importante do que o número de animais usados ​​ou o próprio uso de animais, em si. 

A hierarquia originalmente proposta por Russell e Burch, a o modo como os
3Rs surgem hierarquizados, na nossa amostra de investigadores. 
Todos os dados que recolhemos apontam para uma “inversão” da hierarquia de  prioridades, relativamente à originalmente proposta nos anos 1950s pelos arquitectos dos 3Rs, William Russell e Rex Burch. Ao passo que estes priorizavam a substituição do uso de animais, e apenas quando esgotada essa possibilidade propunham que se considerasse a redução e refinamento, os investigadores actualmente priorizam o Refinamento sobre a Redução e esta sobre a Substituição. 
Neste artigo abstemo-nos de fazer uma avaliação moral desta “hierarquia invertida”. De qualquer forma, qualquer reflexão a este respeito deverá contemplar que o uso de animais para fins biomédicos é ainda imprescindível e que o desenvolvimento de meios e estratégias para a sua substituição é morosa, dado que os mesmos devem ser ser devidamente avaliados e validados. Nesse contexto, e face à urgência de avançar o conhecimento científico e médico, poderá fazer sentido priorizar o bem-estar dos animais que actualmente (e no futuro próximo) utilizados, pois é uma questão mais premente e e mais fácil implementação.

Contudo, esta (aparente) desvalorização do objectivo de substituir o uso de animais está em conflito com as expectativas do público e dos reguladores. Isto implica, primeiramente, que a urgência de melhorar o bem-estar dos animais de laboratório não deva impedir a continuação do investimento no desenvolvimento de métodos alternativos (sobretudo ao nível dos testes regulamentares de substâncias). Significa ainda que deve haver um esforço em comunicar de forma transparente o porquê e como são usados animais em ciência, para uma maior compreensão do público das nossas actuais prioridades, objectivos (e limitações) e compromisso com o bem-estar animal e os 3Rs. 

Comissão Nacional para a Protecção dos Animais Utilizados para Fins Científicos

Comissão Nacional para a Protecção dos Animais Utilizados para Fins Científicos (CPAFC) assinala o Dia Mundial do Animal do Laboratório com o lançamento do seu website.

A CPAFC tem como missão de promover a prática dos 3Rs e aconselhar os outros importantes atores no setor, ao nível central a autoridade comptente Direção Geral de Alimentação e Veterinária e ao nível institucional os Orgãos Responsáveis Pelo Bem-Estar dos Animais (ORBEA). A constituição no terreno da CPAFC tem sido ansiosamente aguardada por muitos que trabalham com a questão dos animais de laboratório. Ficaremos atentos ao começo da sua atividade.

Tens frio? Então encolhe a cauda!

Um dos maiores desafios para quem estuda comportamento e bem-estar animal é o facto de que a nossa perspetiva é sempre a de uma espécie diferente daquele que estamos a estudar.  Sendo seres humanos, inevitavelmente percebemos o mundo do ponto de vista de um mamífero bípede com pouca pelagem e sem cauda.

Por isso, fiquei primeiro não só surpreendida como de facto algo incrédula quando li que os ratinhos crescem caudas mais compridas se tiverem mais material de cama nas suas caixas.

Mas faz sentido se consideramos a biologia do ratinho, que com o corpo peludo e a cauda sem pelos assegura uma boa parte da sua termo-regulação pela cauda. Quanto maior a cauda, e quanto mais exposto a temperaturas baixas, mais calor o animal perde. Os ratinhos com mais material de cama (neste caso granulado de madeira) consegue um micro-ambiente mais adequado às suas necessidades térmicas e não precisam de adaptar a sua anatomia às temperaturas mais baixas.

Para nós os desgraçados sem cauda, só resta agasalhar-se!

"Será que dá pums"?

“As cobras dão pums?”
Foto de Ethan Kocak (Fonte)
Parece uma pergunta que o Bart Simpson faria numa aula de Biologia, e foi de facto esta pergunta de um adolescente ao seu irmão biólogo que desencadeou um rebuliço entre a comunidade científica no Twitter com a hashtag #doesitfart.
E dessa discussão saiu o livro “Does it fart?“, de Nick Caruso e Dani Rabaiotti (com contribuições de cientistas e criadores da Twitterosfera) e ilustrações de Ethan Kocac.
Neste livro encontra respostas científicas para questões tão importantes como:
– Que animais dão pums?
– Porque é que as ameijoas arrotam mas não dão pums?
– Porque é que os das hienas cheiram particularmente mal?
– O que é um pum, afinal?
Neste livro encontrará tudo aquilo que sempre quis saber (ou não) sobre a flatulência animal e é  prenda perfeita para aquela pessoas que gostam de biologia, animais, têm sentido de humor e tem a mania que sabem tudo.
Acho que é um livro ideal para mim!

II Simpósio Nacional de Órgãos Responsáveis pelo Bem-Estar Animal

É já no próximo dia 13 de Novembro que se realizará no Centro Champalimaud para o Desconhecido Fundação o II Simpósio Nacional de ORBEA, Órgãos Responsáveis pelo Bem-estar dos Animais usados para fins educacionais ou científicos. 

Após o sucesso da primeira edição, (relatório aqui) que chegou a ser mencionada na Assembleia da República, responsáveis pelo bem-estar de animais de laboratório das universidades e laboratórios de investigação científica  reúnem-se novamente para discutir e conjuntamente definir e implementar os melhores princípios e práticas em experimentação animal. 
Estará representada a DGAV, a Autoridade Competente, que irá fazer um ponto da situação ao nível da implementação da Directiva 2010/63/EU que regula a experimentação animal, bem como delegados da FELASA (Federation of Laboratory Animal Science Associations), que orientarão um workshop em avaliação da severidade de procedimentos nos animais. 

In memoriam – Sir Patrick Bateson

Lamentavelmente, é o meu segundo obituário seguido no Animalogos, mas não poderia deixar de deixar a minha homenagem a Sir Patrick Bateson.  
Mas ao invés de listar todas as  importantes contribuições de Bateson para a ciência do comportamento animal (tendo ainda este ano publicado um livro sobre a relação entre adaptação do comportamento ao nível do indivíduo e evolução biológica da espécie), cujo resumo podem encontrar neste artigo do seu colaborador e amigo Paul Martin The Guardian, deixo-vos um testemunho pessoal da única vez que me encontrei com ele. 
Referência obrigatória para quem estuda ou
trabalha em comportamento e bem-estar animal 

Conheci-o em Varese, Itália, em 2011, quando ele foi convidado a dar um seminário num workshop sobre avaliação de sofrimento animal. Na verdade, conheci-o mesmo antes de chegar, pois chegado ao aeroporto ele constatou que eu me dirigia ao mesmo evento, e como tinha táxi pago pela organização ofereceu-me boleia, após se apresentar. 

Confesso que não o conhecia na altura, e he-de ter feito ‘figura de urso’ ao perguntar-lhe pelo caminho sobre o seu trabalho, mas na verdade ele estava mais interessado em ouvir do que falar, nomeadamente a respeito da crise que se vivia na altura, num Portugal intervencionado pela ‘Troika’.

Foi só no dia seguinte que uma amiga que também lá estava me disse que ele era o co-autor do famoso Measuring Behaviour, um livro que praticamente todos os alunos e profissionais de Etologia tinham já lido e seguido. De facto, todos pareciam gravitar em torno do ‘Prof. Sir Patrick Bateson’, que desassombradamente dizia call me Patrick. 

Tive a felicidade de poder falar com ele durante algumas horas, pela noite dentro, numa discussão bem regada sobre política, religião e, claro está, muita ciência (como aludi aqui na altura), os dois últimos resistentes dum jantar no hotel. Apesar da grande distância entre um aluno de doutoramento português e um cientista reverenciado e condecorado, falou comigo como um par, ouvindo, fazendo perguntas, mostrando genuíno interesse, mesmo que qualquer coisa que ele dissesse fosse inevitavelmente mais inteligente ou interessante, mercê de tudo o que fez, conheceu e viveu (a elogia de Martin dá alguns exemplos). Na manhã seguinte, e apesar dos seus 73 anos, estava em muito melhor forma que eu. 

Essa conversa é uma das melhores recordações que tenho da minha vida profissional. Sendo indesmentível o legado de Patrick Bateson para a ciência e a sociedade, o que eu recordo hoje é o homem, e da impressão que me deixou da sua inteligência, humor e carácter.

Segue a nossa investigação!

Já visitaram o nosso Alive Pup Project?  Não, não começamos uma missão de salvar cachorros. Mas estamos a investigar porque ratinhos de laboratório morrem nos primeiros dias após nascimento. E podem seguir o nosso trabalho no blog, criado por Sophie Brajon que é investigadora de pós – doutoramento no projeto.

Não prometemos um thriller de alta velocidade, como a investigação tantas vezes é retratada na televisão com aquela jargão de “e ao mesmo tempo uma equipa em San Francisco está a fazer uma descoberta surprendente”. Primeiro, a ciência raramente funciona assim. Segundo, mesmo quando funciona assim, demora tempo antes de se poder partilhar estas descobertas num espaço público. Só após um trabalho sólido de analise no laboratório e em seguida revisão por pares (outros cientistas) e publicação numa revista internacional, é que um novo dado está pronto para ser apresentado ao mundo.

Mas de vez em quando é possível de permitir um sneak-peak ao trabalho em curso. No mês passado, Sophie foi até Lisboa para falar do nosso trabalho no congresso da Sociedade Portuguesa de Etologia. Dai surgiu uma interessante discussão interdisciplinar, que ela conta aqui.