A tecnologia ao serviço de bem-estar animal

Por Ana Margarida Pereira, médica veterinária e colaboradora do grupo Ciências de Animais de Laboratório, IBMC.

A monitorização do estado de saúde dos animais de interesse pecuário tem um impacto no bem-estar animal e na saúde publica. Em relação ao primeiro, está em causa uma das cinco liberdades, apontadas pelo Farm Animal Welfare Council (FAWC), que afirma que, os animais deverão ser mantidos em condições que lhes permitam estar livre de dor, lesões e/ou doença, através de procedimentos de prevenção e diagnóstico seguidos de tratamento célere. O impacto na saude publica por seu lado, envolve a prevenção da transmissão de zoonoses, bem como a garantia da qualidade das carnes ou outros subprodutos para consumo humano.

De acordo com a legislação vigente, Decreto-Lei n.º 157/2008, a inspeção dos animais deve ser efetuada diáriamente. No entanto, a elevada densidade de frangos coloca dificuldades à inspeção. A rotina de inspeção deve seguir os Welfare Quality® Assessment Protocols, que se encontram disponiveis online. A dor é associada a lesões gerais que, causam claudicação, ou mais especificas como dermatites nos membros e/ou queimaduras na região do jarrete. A mortalidade dos bandos, bem como o numero de animais abatidos em consequência de lesões graves anteriormente descritas, são utilizados como indicadores de doença.

Frango com claudicação grave. (Fotografia: Charlotte Berg, Universidade Sueca de Ciências Veterinárias).

Por forma a melhorar a monitorização do bem-estar de frangos de carne, investigadores da Universidade de Oxford, estão a desenvolver um projeto financiado pela Biotechnology and Biological Sciences Research Council (BBSRC), intitulado ‘’Automated assessment of broiler chicken welfare using optical flow patterns in relation to behaviour, disease risk, environment and production’’. A proposta passa por complementar a inspeção diária com de videos, capturados por camaras estrategicamente montadas nos pavilhões. Estas registam os movimentos do bando, produzindo um optical flow cujo padrão é analisado em tempo-real. A análise é feita com base em estatistica descritiva, nomeadamente média e curtose. Assim, o método usado, não incide sobre a existência ou ausência de movimentos, mas sim sobre a hetero/homogenidade dos mesmos. O principio baseia-se no conhecimento de que, um bando saudável, com uma marcha normal caracteriza-se por um optical flow homogéneo, contrariamente ao que acontece em bandos afetados com claudicação que, por se movimentarem mais devagar, originam um optical flow heterogéneo, com velocidades de movimentos muito disparos. Artigos publicados pela investigadora principal, MS Dawkins, e seus colegas, em 2009, 2012 e 2013 apresentam uma relação entre a média e a curtose do optical flow e problemas de bem-estar relacionados com a marcha. O desafio consiste agora, em relacionar a existência de doença do foro intestinal (frequentemente diagnosticadas em exame post mortem) com o optical flow. Os investigadores acreditam ser possível encontrar esta relação uma vez que, secundáriamente à infeção e dadas as caracteristicas dos sinais clinicos (diarreia profusa, fraqueza) existe predisposição para lesões nos membros com marcha e comportamento consequentemente alterados.

Apesar das perspectivas serem favoráveis, a validação do sistema requer ainda o desenvolvimento de equipamento mais fiável e da realização de testes no terreno. No entanto, esta tecnologia e a forma como irá objetiva, continua e automáticamente monitorizar o bando, poderá contribuir para o envio de alerta atempado de mau-estar e consequente tomada de atitude.

Não é uma espécie nova de mamífero. Mas é bem-vinda a Portugal.

Tenho visto algumas notícias reportando a descoberta de uma nova espécie de mamífero portuguesa, algo que a confirmar-se mereceria muito mais atenção, já que é um evento raro, a nível mundial. Acontece que o que os investigadores do CITAB e CIBIO fizeram foi encontrar pela primeira vez em Portugal uma variedade de uma espécie já conhecida, o “rato-das-neves”, ou Chionomys nivalis, no Parque Natural de Montesinho, tendo dado entrada da mesma registo de espécies existentes em Portugal. 
Foto de Gonçalo Rosa. A estória do encontro é contada no site Wilder
A descrição dos espécimes encontrados e que confirmam a pertença à espécie, bem como a separação desta população da espanhola, pode ser encontrada no artigo publicado esta semana no Italian Journal of Zoology.  A distribuição deste micro-mamífero é extensa, mas bastante fragmentada, pelo que esta descoberta vem alargar a sua abrangência territorial conhecida.

O local onde foram encontados (a) uma fêmea juvenil (b) e um macho adulto.
Fotos tiradas pelos investigadores com câmaras de infra-vermelhos. (Fonte)

Face ao recente artigo sobre a eutanásia de uma ave rara durante uma expedição científica, não posso deixar de louvar a equipa do Laboratório de Ecologia Aplicada da UTAD por ter devolvido os espécimes recolhidos à Natureza, não obstante esta espécie não estar, ao nível global, ameaçada. Nas palavras da investigadora Hélia Vale-Gonçalves:

“Capturámos dois animais, um macho adulto e uma fêmea juvenil. Fizemos medições, pesagens, tirámos amostras de tecido e observámos a coloração do pêlo. Os animais foram libertados no mesmo local,  junto às armadilhas.”

Ciência com consciência, portanto.

Nota: Podem ser encontrados bons artigos na imprensa sobre esta descoberta e o seu significado, no jornal Público e no site Wilder.

PeTA leva TAP a recusar transportar animais para investigação biomédica.

[Nota: uma versão deste post foi publicado como artigo no jornal Público, a 4 de Fevereiro de 2016)]

Esta semana a TAP-Air Portugal retweetou este tweet da PeTA:

O mesmo faz menção à notícia que a TAP vai deixar de transportar troféus de caça, barbatanas de tubarão e outras partes de animais em risco, bem como animais para uso em investigação, após um compromisso assinado com a PeTA-US. A própria TAP, contudo, não faz menção a este acordo com a sociedade activista pelos direitos dos animais nos seus canais de comunicação. 
Protesto em Vancouver, em 2012
(Fonte: Nature)
A PeTA tem focado os seus esforços na oposição ao transporte de primatas, sob o argumento (falso) que estes são retirados de habitats naturais ou criados em condições deploráveis. Contudo, o sucesso extraordinário destas iniciativas levou à ambição de estender este boicote ao transporte de invertebrados (como moscas) nas suas exigências às companhias transportadoras.

Protesto contra a United Airlines
As elevadas exigências ao nível de bem-estar destes animais faz com que o transporte por via aérea seja o ideal, por ser o mais rápido e menos stressante. É, contudo, logisticamente complexo, razão pela qual poucas companhias reúnem as condições para o fazer. Sendo poucas, são mais vulneráveis a tácticas de intimidação por parte da PeTA, por falta de solidariedade (ou receio de represálias) das demais. Não sabemos, contudo, se foi o receio de serem um alvo das acções de activistas, ou por razões de imagem pública (improvável, já que não foi divulgado) que levou a este acordo.
O medo é uma arma muito poderosa, e o receio de perder passageiros levou a que várias companhias que transportavam animais para estudos biomédicos tenham cedido a pressões da parte de um pequeno número de indivíduos, que não representam, de todo, o sentimento geral do público. Pior ainda é que o tenham feito sem terem consultado as instituições médico-científicas com que trabalhavam, ou associações de doentes. Tenho vivamente gravada a revolta de uma mãe de uma menina com síndrome de Rett e presidente da respectiva associação de doentes, que emocionada perguntou  numa conferência em Roma “com que direito podem estes pequenos e marginais grupos se interpor aos direitos dos demais, à descoberta de uma cura para a minha filha?”. E ainda que a questão não seja linear, é difícil sermos insensíveis a este tipo de apelo.

Seja qual for a razão que levou a este acordo, o que isto significa é que se pode interpretar que a TAP considera a caça de animais ameaçados moralmente equivalente ao transporte de animais criados propositadamente para uso em investigação biomédica, isto é, para dar resposta a doenças que causam sofrimento e morte de milhões de humanos e outros animais.

Falta de discernimento?

Associar causas quase consensuais (como o combate ao tráfico ilegal de animais) à experimentação animal é uma estratégia recorrente da PeTA e de outros grupos animalistas, tentando com que o público considere ambas igualmente meritórias de censura. Outra estratégia comum aqui também presente é explorar o facto do público se opor mais fortemente ao uso de primatas e animais de companhia do que ao uso de roedores. Por essa razão, e ainda que nenhuma espécie de primata ou animal de companhia seja usada em Portugal em investigação (e em toda a Europa representem juntas uma percentagem ínfima do total de animais usados, com total proibição do uso de grandes primatas), são estas as espécies usadas em propaganda política contra o uso de animais, no nosso país.

O bem-estar dos primatas usados em investigação é cada vez mais uma prioridade
(Fotos do  California National Primate Research Center)

Apesar de serem usados em pequeno número, os primatas são fundamentais para a compreensão de doenças que afectam quer humanos, quer os próprios primatas na natureza, como o HIV (e vírus semelhantes) ou o Ébola, e para o desenvolvimento e teste de vacinas e terapias para as mesmas. E apesar das limitações ao transporte destes, ou de outros animais usados em ciência, poderem até certo ponto ser colmatadas por criação in situ, em muitas circunstâncias é logisticamente proibitivo, e em qualquer caso levará a um aumento considerável do número de animais em laboratórios e ao custo destes estudos. Em todo o caso, parece que o acordo a que a TAP anuiu inclui todas as espécies animais, desde que o seu destino seja o uso em ciência, alheios aos nível de cuidados prestados, que vai frequentemente além do que beneficiam os animais de companhia que transportam.

Em suma, sou o primeiro a admitir que o uso de animais em ciência é cientifica e eticamente complexo, mas considerá-lo equivalente ao tráfico de barbatanas de tubarão ou de presas de elefante é de uma profunda desonestidade intelectual. Nada a que não esteja habituado

"Cientista fotografou pela primeira vez ave que não era vista há mais de 50 anos. E depois matou-a."

É mais ou menos nestes moldes que tem sido contado o episódio protagonizado por Christopher Filardi, ornitólogo do Centro de Biodiversidade e Conservação do Museu Americano de História Natural, numa expedição às Ilhas Salomão, um incidente que contudo requer uma análise mais atenta. 
Casal de A. bougainvillei
Fonte: Wikipedia Commons

A ave em questão é um Actenoides bougainvillei, chamada Mbarikuku para os indígenas e Moustached Kingfisher em inglês (em português será qualquer coisa como “Martim Pescador de Bigode” ou “Guarda-rios de Bigode”), sendo endémica da ilha de Guadalcanal e estando classificada pelo IUCN como “vulnerável”.
Esta foi a primeira vez que um exemplar vivo de um macho foi fotografado, tanto que a imagem que neste momento ainda ilustra a sua entrada na Wikipedia é um desenho de 1905 de um casal de uma variedade próxima, pertencente à mesma espécie, mas de uma outra ilha. É o próprio Filardi, aliás, que o descreve como uma “ave fantasma”, no seu blog de campo, onde as circunstâncias da sua descoberta e captura – proeza que tentava alcançar há 20 anos – são relatadas.  

A origem da polémica centra-se no facto de, após a captura, os cientistas terem eutanasiado a ave (não sei através de que método) para a integrarem na colecção do museu. Segundo os mesmos, isto permite que o estudo da espécie se prolongue e aprofunde além do número limitado de dias da expedição, permitindo recolher informações sobre o seu genoma, anatomia, dieta, fisiologia, plumagem ou a exposição a substâncias tóxicas.

Esta decisão parece baseada numa perspectiva de “respeito pela natureza” onde o valor de um animal não-humano, como indivíduo, se dilui face ao da sua espécie e ecossistema, uma perspectiva que é transparente  nas declarações do cientista.

Filardi, momentos antes de eutanasiar a ave para a adicionar
à colecção de espécimes do Museu Americano de História Natural

O “guarda-rios de bigode” em questão. 
Mark Bekoff (que esteve em Portugal aquando do primeiro congresso em alternativas da SPEdH), declarou a este respeito que “Killing in the name of conservation’ or ‘in the name of education’ or ‘in the name of whatever’ simply needs to stop“, uma opinião profundamente influenciada pela sua conhecida perspectiva afeita aos direitos dos animais, stricto sensu, e que se centra no valor e dignidade invioláveis e inalienáveis de cada animal, como indivíduo. Mas Bekoff é conhecido pelas suas opiniões mais radicais, pelo que esta não constitui surpresa.

Esta prática tem, no entanto, detractores mais insuspeitos no seio da comunidade científica, como patente neste artigo de opinião na revista Science. Já Filardi, na sua resposta às críticas de que foi alvo, assegura que a decisão tomada no local não foi tomada de ânimo leve, e que teve por base o número de indivíduos que conseguiram estimar (~4000 indivíduos, um número que consideram robusto para uma ave insular), através de um método que, a julgar pelos comentários à sua resposta, não é consensual.

A questão, assim, impõe-se: esta prática não poderá constituir, em si, uma ameaça à preservação da espécie? Para lhe dar resposta pedimos a opinião do Prof. João Alexandre Cabral, biólogo/ecólogo, professor associado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), coordenador científico do Laboratório de Ecologia Aplicada da UTAD e investigador no CITAB, e que aqui partilhamos:

“Partilho da perplexidade da generalidade das opiniões expressas a propósito desta controvérsia, particularmente no que respeita a este bizarro e extemporâneo ímpeto coleccionista, que nos faz regressar aos paradigmas de um passado “Vitoriano”. À primeira vista, parece ser um acto completamente injustificado e negligente, que encerra uma potencial ameaça para o estado de conservação (desconhecido) das populações  de Guarda-Rios de Bigode. Considerando que quase nada se sabe sobre os requisitos ecológicos desta espécie, do seu efectivo e condição dos seus indivíduos, bem como sobre o nível de ameaça aplicável às respectivas populações, então estamos perante um indesculpável acto de irresponsabilidade, incompatível com uma investigação que se presume ética e respeitável.”

Eu tendo a concordar. 

"Experimental Design Assistant" – Melhorar a fidedignidade dos estudos com animais!

Numa tertúlia sobre ética e experimentação animal na qual participei como convidado há uma semana,  juntamente com Luísa Bastos (SPEdH e IBMC-INEB), houve um ponto em que concordámos: há muitos estudos em animais de má qualidade, e que não produzem dados fidedignos, por falhas fundamentais no seu desenho experimental e uma incorrecta análise e interpretação estatística dos resultados. 
“When mice mislead” (Fonte: Science)

Isto tem sido particularmente notório no teste de eficácia de drogas experimentais, levando a que um grande número de ensaios clínicos seja baseado num corpo de ‘evidência’ distorcido, onde o efeito terapêutico é sobre-estimado. Assim, os ensaios em humanos – que habitualmente seguem padrões de exigência bastante superiores – não reproduzem os promissores resultados previamente obtidos em animais, muito provavelmente porque estes eram falsos-positivos logo à partida. 

O resultado? Milhões (ou mesmo milhares de milhões) de euros desperdiçados e milhares de animais usados sem real benefício científico e biomédico, para não falar das centenas de pacientes (e  famílias) envolvidos em ensaios clínicos de drogas cuja eficácia, na verdade, nem em ratinhos tinha sido devidamente comprovada. 
Evidentemente, esta questão coloca questões da maior importância científica, médica, ética e até financeira, e poderá pôr em causa a “licença social” dada aos cientistas para usarem animais em investigação biomédica.
O ALS Therapy Development Institute re-testou, seguindo elevados padrões
metodológicos, mais de 50 drogas aparentemente promissoras em animais
mas que tinham falhado em ensaios clínicos. A conclusão foi que, afinal, o
seu efeito terapêutico tinha sido originalmente muito exagerado (Fonte: Nature)
Tendo o(s) problema(s) que levam a que muitos dos resultados científicos publicados não sejam reprodutíveis sido devidamente identificados, cabe à comunidade científica resolvê-los da melhor maneira, envolvendo investigadores, institutos de investigação, revistas científicas, agências de financiamento e reguladores, entre outros 
Uma nova ferramenta para auxiliar os investigadores a desenhar as suas experiências de modo a obter resultados sólidos, fidedignos e reprodutíveis vem da parte da comunidade dos 3Rs, nomeadamente do NC3Rs: O Experimental Design Assistant (EDA)
Esta ferramenta é disponibilizada gratuitamente on-line, e desempenha as seguintes funções:
– Construção de uma representação visual (em diagrama) das experiências
Feedback e conselhos sobre o desenho experimental proposto
– Suporte para randomização, “análise-cega” e cálculo estatístico do tamanho da amostra necessário
– Informação prática para melhorar o desenho experimental
– Maior transparência sobre o desenho experimental, permitindo a partilha e discussão do plano com colegas e colaboradores. 

Pode esquematizar desta (ou de outra forma) o seu estudo,
e o EDA vai dar sugestões para o melhorar. 
Michael Festing escreveu há um par de anos que ninguém nasce sabendo delinear e analisar experiências científicas. Contudo, com o crescente número de recursos e ferramentas à disposição dos investigadores para colmatar essa falha, é cada vez mais difícil haver desculpas. 

Faz parte da mudança


No momento, a palavra “mudança” faz-me pensar mais nas caixas no meu gabinete do que em hábitos alimentares, e foi de facto a arrumação associada a iminente mudança de lugar (IBMC está a trocar o Polo de Campo Alegre para o Polo de Asprela e as novas instalações do novo i3S) que me fez pegar novamente no folheto “Faz parte da mudança”, produzido pela Associação Vegetariana Portuguesa.

Entregaram-me o folheto em maio, quando a AVP estava a distribui-lo em diversos polos universitários em Portugal. O folheto utiliza celebridades vegetarianos, estórias com animais, problemas de bem-estar na pecuária, aquacultura e pesca, aspetos ambientais e observações nutricionais para argumentar em prol de uma alimentação vegetariana. Claro que a informação apresentada é escolhida em função do objetivo da campanha, mas os factos apresentados são corretos, e não há um exagero na escolha de imagens para ilustrar práticas desagradáveis na produção de animais.

É preciso falar e alertar, mesmo que muitos já saibam e concordem que o atual consumo de carne no mundo industrializado e o crescimento do consumo nas economias emergentes é insustentável. Mas entre consumir menos carne e tornar-se vegetariano há um passo enorme, e um passo que se calhar nem sequer é necessário.

Eis a minha única reserva sobre esta campanha. Poucos portugueses estarão dispostos a excluir completamente carne da sua alimentação, mas muitos poderão vir a reduzir o seu consumo. Infelizmente, a campanha parece muito mais dirigido para o (muito mais pequeno) primeiro do que para o segundo grupo.

Obesidade de estimação


Por  Helena Correia, Patrícia Esteves e Tiago Neves, alunos da Pós-Graduação de Bem-Estar e Comportamento Animal do ISPA. 
Gato doméstico obeso. Fotografia: Malin Öhlund

Cães e gatos gordos, sim, a obesidade também já chegou aos nossos animais de estimação, considerada pela Organização Mundial de Saúde como a “Epidemia do Século XXI”. São muitos os paralelos no nosso quotidiano entre os seres humanos e os animais não humanos, com consequências igualmente negativas. Só em Portugal estima-se, que dos 1,8 milhões de caninos e 1 milhão de felinos que vivem nos nossos lares (Visão, Agosto 2014), 40% dos cães e 30% dos gatos estejam obesos

O cão ou gato com excesso de peso vai ser um animal com menos vontade de brincar, com cansaço excessivo e dificuldade ao movimentarem-se e com elevado risco de desenvolver doenças típicas da obesidade, como os diabetes (tipo II), as habituais doenças cardiovasculares e o cancro. Também irá ser devastador para as articulações, o sistema respiratório e renal. Ou seja, estes nossos amigos vão perder qualidade de vida e também viver muito menos tempo. 

Casos de referência são o Meow e o Rusty cuja atenção mediática e ação por parte das autoridades e associações de animais abriram um precedente para a questão do bem-estar animal em casos de obesidade. Estávamos habituados a ouvir casos em que as autoridades agiram para salvar animais de fome, mas os donos do Meow e do Rusty veram o seu animal ser aprendido por ter peso a mais. 

Quando vamos avaliar as causas, temos de obrigatoriamente olhar para a relação homem-animal. Embora há influência de fatores fisiológicos, genéticos e patológicos (por exemplo, a esterilização e a castração diminuía o ritmo metabólico, há raças com mais predisposição para se tornarem obesos e doenças como hipertiroidismo afeta diretamente o metabolismo), os  “Meow” e “Rusty” vão ser um reflexo dos cuidados que recebem. 

É aqui que hábitos e falta de informação surgem nesta história. Sem necessiariamente de se aperceber, os donos acabam por não preencher as necessidades de estímulos e exercício, impossibilitando o gasto da energia que é recebida pela dieta. Ou não se tem ideia real da quantidade de comida que o animal recebe ou necessita para ter uma dieta saudável e balanceada. E existe sempre “aquele bocadinho extra de comida minha de que ele gosta tanto”, o chamado “too much love”, um hábito que pode ter consequências ainda piores quando o que é oferecido não é um alimento adequados para os animais. 
 

A nova legislação que entrou em vigor em Portugal pune e condena os maus-tratos aos animais, seja por privação de meios essências à sua sobrevivência, como comida e água, ou por agressão ou abandono. São responsáveis, todos aqueles que “sem motivo legítimo, infligirem dor, sofrimento ou quaisquer outros maus-tratos a um animal de companhia”. No entanto, não deverão ser também responsabilizados todos aqueles que comprometem a saúde e bem-estar dos animais, através da sua negligência, seja por não dar suficiente, seja por dar demais?

Mas não se altera hábitos só através (ameaça de) punição. Sendo o problema sobretudo falta de informação (por exemplo, na Inglaterra um terço dos donos de animais de estimação não sabem medir o peso do seu animal), entra aqui a necessidade de medidas ativas de informação junto dos donos. Estas medidas não devem apenas encorajar os donos a fazer bem, devem ainda incluir ferramentas concretas. A Association for Pet Obesity Prevention fornece um tradutor de peso que permite calcular o que um determinado peso representa em termos o excesso de peso em percentagem, e um esquema para monitorizar diariamente alimentação e exercício do animal.

Workshop "Sensibilidade e Bom-senso" – Comunicar investigação com animais ao público

Os centros de investigação há muito compreenderam a importância de fazer chegar informação científica ao público. Para além da consequência mais directa de promover o conhecimento e compreensão de factos e conceitos científicos por parte do público, há um conjunto de outros benefícios, como sendo uma maior abertura à inovação, uma compreensão mais abrangente da necessidade de investir em ciência, maior capacidade de intervir de modo informado e participativo em importantes decisões pessoais (de saúde, por exemplo) e nacionais ou, como neste caso, maior receptividade ao uso de animais para fins científicos. 
Assim, a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova irá realizar um workshop para ajudar cientistas, jornalistas e comunicadores de ciência a comunicar os resultados de investigação biomédica realizada em animais. 
Um workshops dirigido a cientistas, jornalistas e comunicadores de ciência.
Mais informação aqui
Mas é legítimo questionar: devemos advogar e promover uma maior aceitabilidade do uso de animais em ciência? Não está a substituição do uso de animais explicitamente definida como um objectivo da União Europeia, patente no investimento nesta área e na própria legislação
A esse respeito, convém clarificar que o objectivo não é fazer uma campanha para advogar o uso de animais, mas antes promover a compreensão que o uso de animais em investigação fundamental e aplicada é ainda, infelizmente, uma necessidade, face ao número de doenças que ainda são causa de sofrimento quer de humanos, quer de outros animais. 
Sabe-se que a grande maioria da população faz uma avaliação positiva da experimentação animal, se tiver uma percepção que o a mesma é devidamente justificada, com respeito pelo bem-estar animal e devidamente legislada. E assim importa dar a conhecer as razões pelas quais os animais são utilizados, como são utilizados e como isto é regulado e supervisionado, tema que eu e a Anna Olsson (e dois outros investigadores) já levámos às páginas do jornal Público
Face à importância de continuar a granjear a confiança e apoio do público na investigação biomédica, vem este workshop contribuir para ajudar os investigadores que usam animais no seu trabalho a falarem do mesmo na primeira pessoa, de modo transparente, acessível, eficaz e empático. 

O papel do Médico Veterinário na Tourada à Portuguesa

Cinco anos passados, trago à luz um artigo, publicado em 2010 na Veterinária Atual, onde exponho a minha visão sobre o papel da classe médica veterinária na Tourada à Portuguesa. À excepção da legislação (o Decreto Regulamentar n.º 62/91 de 29 de Novembro deu lugar ao Decreto-Lei n.º 89/2014 de 11 de Junho) o artigo é uma cópia fiel do orginal.

Pablo Picasso (1881-1973)
Corrida de Toiros: A Morte do Toureiro (1933)
Óleo sobre madeira, 31,2 x 40,3 cm
Musée Picasso, Paris
Ver descrição aqui.

Resumo

A corrida de touros tem surgido, nos últimos anos, como um tema fracturante na sociedade portuguesa. Se os activistas dos direitos dos animais defendem que o touro deve ser poupado ao sofrimento da lide, os aficionados contestam que é essa mesma lide que permite a sobrevivência do touro bravo (ou seja, da sua raça). A classe médico-veterinária está, por inerência das suas responsabilidades, envolvida na actividade tauromáquica e nunca tomou – que seja do meu conhecimento – nenhuma posição concertada na mediação deste confito. No entanto, se permanecermos alheados da discussão pública, arriscamo-nos a ser ultrapassados pelos acontecimentos e a ver o papel da nossa classe diminuido ou mesmo descredibilizado. Este artigo pretende enquadrar o papel do Médico Veterinário na Tourada à Portuguesa e dessa forma contribuir para uma reflexão mais aprofundada sobre esta matéria.

Introdução

A questão da legitimidade moral do espectáculo tauromático (vulgo corrida de touros ou tourada) não é nova. Ela remonta às origens da própria actividade (ERCS 2008) e corresponde a um choque sociológico enraizado onde colidem duas formas distintas de entender a ética animal. E se a visão dos activistas é, por vezes, reducionista pois concentra toda a actividade tauromáquica no sofrimento do touro na arena, a verdade é que defender o status quo porque a tourada é uma tradição secular (ou porque evita a extinção do touro bravo) corresponde a uma igual simplificação de raciocínio. Certo é que, na defesa do touro bravo, não basta esgrimir argumentos de um e doutro lado da barricada na esperança que o adversário soçobre. Enquanto a discussão sobre as touradas estiver tão polarizada em grupos de interesse – e manipulada pelos media – não é crível que o principal interessado na contenda, o touro, saia beneficiado. É, pois, necessário procurar um debate sério capaz de reunir consensos, e aqui deixo uma primeira contribuição.

A tourada contextualizada

Desde o mediático caso de Barrancos no virar do século (Capucha 2002), que o movimento anti-touradas tem merecido especial notoriedade entre a opinião pública nacional sem que isso signifique necessariamente que a corrida de touros esteja a perder popularidade. As estatísticas são, neste sentido, contraditórias (Público 2009). No entanto, não podem os aficionados ignorar o fenómeno social do activismo pró-animal como o fizeram no passado. Uma sociedade democrática assenta as suas premissas básicas num pluralismo de opiniões que é preciso compreender. A profissão veterinária é ela própria um bom exemplo: de masculina e rural passou em duas décadas para tendencialmente feminina e urbana, o que traz consigo uma riqueza de opiniões que importa ouvir. O pequeno, mas significativo, número de autarquias que proíbe os espectáculos tauromáquicos nos espaços por si tutelados, é bem a imagem de que a festa brava se encontra numa encruzilhada: ou continua surda aos gritos de revolta e assiste imóvel ao crescente mediatismo dos argumentos das organizações zoófilas (mesmo que, por vezes, desprovidos de profundidade) ou oferece o dorso ao ferro e promove a reformulação de algumas das práticas que constituem a lide.

Todos nós sabemos que a actividade tauromáquica é muito mais do que a lide. É um modo de vida que, dentro do mesmo raciocínio plural, merece ser respeitado. Mas, mesmo que tenhamos em consideração os anos de vida livre de que o touro goza, a defesa da tourada torna-se frágil quando analisada em termos de bem-estar animal. Embora a tourada goze de protecção jurídica (Decreto-Lei n.º 89/2014 de 11 de Junho), o “óbvio sofrimento dos touros” (Pereira 2003) não pode ser ignorado. O regime de excepção previsto pela lei nacional (artigo 1.º, n.º 3, alínea b), da Lei 92/95 de 2 de Setembro) legaliza o uso de instrumentos perfurantes nas touradas mas não legitima todo o tipo de asserções. Afirmar, em directo na televisão nacional, que o touro na arena não sofre (João Palha Ribeiro Telles, SIC, Aqui & Agora, 23 de Abril de 2009) é uma forma pouco séria de discutir a dimensão ética da corrida. O sofrimento existe, faz parte da faena e só assumindo este facto inelutável pode a indústria tauromáquica encarar de frente aqueles que tão agressivamente a acometem.

Apesar do bem-estar do touro ser comprometido desde a sua selecção para a lide até até ao abate, isso não significa que não possam ser introduzidas melhorias. Tendo em conta que a tourada não visa torturar o animal, é do interesse dos próprios aficionados que seja dado um primeiro passo no sentido de minorar a ansiedade e a dor a que o touro é sujeito no dia da lide. O problema é que, no momento presente, os detractores da indústria tauromáquica actuam como agentes agressores mais interessados em extinguir o seu modo de vida do que em discutir o que pode ser feito em matéria de consensos. Neste aspecto em particular, deve a classe medico-veterinária tomar a liderança na prossução de medidas concretas e pró-activas que beneficiem todos os intervenientes na corrida, particularmente o touro.

O papel do Médico Veterinário

O Médico Veterinário constitui o único interveniente nas actividades tauromáquicas que, gozando de absoluta independência de actuação e obedecendo a códigos de conduta moral, procura conciliar o respeito pelos interesses humanos com a defesa da saúde e bem-estar animais. Esta posição, de uma aparente ambivalência, expõe mais facilmente o Médico Veterinário ao criticismo público. Por isso é que, quer sejamos aficionados ou apologistas dos direitos dos animais – ou mesmo na ausência de opinião formada – não podemos ignorar o fenómeno social das touradas. Como profissionais de saúde animal devemos actuar à margem da polémica, procurando reunir a melhor evidência científica e assim contribuir para a construção de uma opinião pública informada e uma prática tauromáquica mais coerente com os valores da sociedade em geral. E por onde começar? Seguem-se algumas sugestões, que não pretendem ser mais do que pontos de reflexão para uma posterior discussão:

  1.  Promover uma maior transparência da Corrida:O Médico Veterinário assume um papel central nos espectáculos tauromáquicos, onde lhe compete assessorar o director da corrida, conforme o previsto pelo supracitado Decreto-Lei n.º 89/2014. O seu juízo é soberano e não podem restar dúvidas nem sobre a sua conduta nem sobre a motivação das suas decisões. Como muitos dos ataques sofridos pela tourada são fruto da ignorância sobre os métodos utilizados nos bastidores da arena, urge promover uma maior transparência das práticas que fazem parte da corrida como o transporte, a desponta e a embolação. Adicionalmente, o Médico Veterinário pode contribuir para a introdução de medidas que permitam minorar o desconforto das reses (ver adiante).
  2. Investir em projectos de investigação em touros de lide: Os colegas investigadores – em especial nas áreas do comportamento e do bem-estar animal – têm nas corridas de touros um manancial de informação enorme e que está ainda por explorar. Aliás, muito está para fazer em quase todas as áreas das ciências veterinárias no que diz respeito ao touro bravo. Para se avançar neste sentido é necessário abrir a tourada a estudos científicos rigorosos e daí ser fundamental a colaboração com os colegas responsáveis pelas corridas. Existe, por exemplo, a crença, comum entre os aficionados, de que o touro tem de sentir dor para investir. Não será que o touro investe apesar de sentir dor e que aí reside a suposta bravura que os ganadeiros procuram alcançar?
  3. Introduzir o conceito de 3 R’s nas Corridas: O conceito dos 3’Rs (Reduction, Refinement, Replacement). foi introduzido no uso de animais de laboratório em investigação biomédica há mais de 50 anos (Russell & Burch 1959) e pode ser adaptado para o contexto da tourada. Estudos que visem refinar (Refinement) os métodos de desponta e embolação; de recolha, transporte e alojamento; do tempo que dista entre a lide e o abate. A procura de alternativas (Replacement) menos traumáticas às tradicionais bandarilhas e à prova da tenta. E a redução (Reduction) do número de animais lidados, do tempo da lide ou do número de ferros a que cada touro é sujeito. 
  4. Reforçar o papel dos Médicos Veterinários Taurinos: Aos colegas especialistas em touros de lide cabe a importante missão de comunicar a ciência à indústria ganadeira. Eles são a linha da frente no diálogo entre o conhecimento científico e a tradição popular e devem assumir um papel activo na educação dos ganadeiros e participar na desmistificação de algumas das crenças comuns entre os aficionados. Como confessa o colega e aficionado Joaquim Grave (2000), “o mundo dos touros é bastante fechado e enferma de alguns tabus”. A missão complica-se porque o jargão tauromáquico é pródigo em termos, como “humilhar do touro” ou “entrega ao sacrifício”, que podem suscitar interpretações erróneas ou desfasadas da ecologia do animal.
  5.  Promover a educação para os valores no ensino da Medicina Veterinária: O ensino pré-graduado em Medicina Veterinária deve previligiar não só a componente deontológica (códigos normativos) mas também o ensino da ética e do profissionalismo. É necessário fornecer aos alunos as ferramentas decisionais que lhes permitam compreender o pluralismo de opiniões da sociedade contemporânea e defender as suas próprias opções éticas. A abordagem a questões como qual deve ser o papel do Médico Veterinário na tourada ou qual a justificação moral para defender a sua atitude em relação aos touros de lide devem fazer parte da sua formação base.
  6.  Criar-se uma plataforma de discussão dentro da classe:  Este artigo constitui uma reflexão introdutória sobre os passos que a classe veterinária pode dar no sentido de se envolver de forma responsável na problemática social e ética das corridas de touros. Estou ciente que algumas das sugestões deixadas não colherão fácil aceitação, nem serão porventura as mais adequadas. Por isso seria útil que se criasse, no futuro próximo, uma plataforma de discussão no seio da nossa classe – em congressos, publicações escritas ou usando as tecnologias de informação – onde o papel do Médico Veterinário na tourada à Portuguesa seja debatido.

Considerações finais

As competências e responsabilidades inerentes à nossa profissão fazem do Médico Veterinário um interlocutor privilegiado na procura de soluções práticas para o conflito social dos espectáculos tauromáquicos. Não devemos assistir de braços cruzados ao desenrolar dos acontecimentos, esperando que sejam outros a decidir por nós. Se nada fizermos, seremos avaliados pela nossa inércia. A actividade tauromáquica faz parte da paisagem cultural (rural e urbana) do nosso país e cabe à sociedade a última palavra, decidindo se de medidas como as que aqui foram propostas resulta uma festa mais humana – e que merece ser defendida – ou, pelo contrário, menos autêntica – e talvez inaceitável. Só discutindo pontos discordantes podemos, em concreto, ir ao encontro do único ponto que todos parecem defender: os interesses do touro de lide.

Referências
Capucha, Luís (2002) “Barrancos na ribalta, ou a metáfora de um país em mudança”, Sociologia – Problemas e Práticas, n.º 39, pp. 9-38
ERCS (2008) “Deliberação 13/CONT-TV/2008”, Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Lisboa, 3 de Setembro de 2008
Grave, Joaquim (2000) Bravo! Lisboa: Oficina do Livro
Pereira, António Maria (2006) “Ética e Touradas”, Crítica: Revista de Filosofia, Acesso por: http://criticanarede.com/html/ed130.html, em 11 Nov. 2009
Público (2009) “Destaque – Tauromaquia”, Jornal Público, nº 6975, 08/05/2009, pp. 2-3
Russell, W.M.S. & Burch, R.L. (1959) The principles of humane experimental technique. London: Methuen

Este texto foi publicado originalmente como:

M. Magalhães-Sant’Ana (2010) “Haverá lugar a consensos na Tourada à Portuguesa? O papel do Médico Veterinário”. Veterinária Atual – Revista Profissional de Medicina Veterinária, 25: 32-33.

"Rat Park" – Uma história ilustrada sobre ratos, drogas, ciência e sociedade

Um aspecto central para avaliar a aceitabilidade ética do uso de animais em ciência é a importância atribuída aos benefícios científicos ou médico que se espera daí poderem advir. 
Um exemplo da aplicação deste raciocínio foi o da proibição de testes de cosméticos em animais na União Europeia, uma vez que o consenso atingido – por legisladores, cidadãos, indústria, academia e grupos de protecção animal – foi que o fim não justificava os meios. Também pela mesma razão, a investigação em doenças humanas vistas como resultantes de “más escolhas” por parte dos pacientes – como as associadas ao tabagismo ou à obesidade –  é frequentemente alvo de crítica por alguns segmentos da sociedade, algo que contudo foi já posto em causa neste blog. 
Rat Park – Um estudo clássico que contribuiu para
mudar o modo como vemos a adição às drogas. 
Mas que dizer então da toxicodependência? O actual paradigma para lidar com este problema é o de o encarar como uma doença – ainda que com contornos particulares – reconhecendo contudo a influência de aspectos comportamentais, genéticos e sociais que não podem ser menosprezados. Mas o estigma persistente na sociedade civil, religiosa, política e até académica da toxicodependência como o resultado de uma escolha intrinsecamente ligada a estilos de vida censuráveis e à marginalidade, poderá levar a que muitos coloquem em causa a legitimidade moral e científica do seu estudo em animais.  
Na minha opinião, é precisamente a complexidade do problema que exige uma análise atenta e sobre diferentes perspectivas, que poderá incluir estudar isoladamente alguns aspectos da adição em animais. E é um estudo clássico nesta áreas, por Bruce Alexander e colegas, que aqui apresento, sob a forma de banda desenhada pela mão do artista Stuart McMillen. 
Gosto particularmente desta banda desenhada, que se coíbe de fazer quaisquer juízos morais sobre o uso de animais para estudar a dependência, ficando isso ao critério do leitor. É ainda um excelente exercício de comunicação de ciência que descreve eficazmente uma série de estudos, sem contudo se perder em aspectos técnicos, que destaca o potencial impacto médico e social das conclusões obtidas sem cair no erro de o sobrestimar e que consegue um bom equilíbrio no destaque dado a investigadores, animais, pacientes e à própria ciência e suas conclusões. 
Ao invés de procurar descrever esta estória aos leitores, convido-os antes a ler na íntegra a banda desenhada, que se encontra disponível em Português (sob o título Ratolândia).