Petição para abolir a caça à Rola-Brava

 A QUERCUS lançou uma petição para proibir a caça à rola-brava (Streptopelia turtur). Se não concorda com a caça não lhe será difícil assiná-la. Mas mesmo que seja caçador, ou de alguma forma adepto da caça, esta petição é também para si. De facto, a rola-brava já foi no passado uma das aves mais abundantes da nossa avifauna, e daí ser chamada também de rola-comum. Mas qualquer caçador saberá que hoje em dia caçar uma rola é uma raridade e poucos serão aqueles que o farão sem se questionarem sobre o futuro da espécie.
Esta petição, da autoria da maior associação nacional de conservação da natureza, está longe ser perfeita; seria mais razoável pedir uma suspensão da caça por um período de, p.e., uma década em vez da liminar proibição. Os poderes políticos, por norma, não gostam que as coisas lhes sejam impostas, mas antes sugeridas. Não vem acompanhada por dados científicos sobre a ocorrência da espécie no nosso país, dados esses que existem e que, além disso, oferecem possíveis soluções para prevenir o seu declínio. Também não se compreende a alusão às aves aquáticas e ao uso do chumbo no mesmo documento, numa espécie de “já agora”. A meu ver, cada tema deve ser tratado separadamente e com devida profundidade, o que não é o caso.
Ainda assim, por uma gestão cinegética sustentável, é importante suspender a caça à rola-brava e por isso assino esta petição.

Carne de Galinha – o maior problema de saúde pública na Europa?

A epidemia de infecҫões por Campilobacter pilori na Europa, levou o jornal de referência The Guardian a fazer uma investigaҫão secreta à industria avícola no Reino Unido, o maior consumidor europeu de carne de galinha. Estima-se que só neste país 280 mil pessoas sejam infectadas por Campilobacter, uma bactéria que para além de transtornos gastro-intestinais, é capaz de atacar o sistema nervoso e causar lesões neurológicas irreversíveis e até mesmo a morte. 

De forma a prevenir este tipo de infecҫões, que na sua maioria são contraídas através da manipulaҫão de carne de galinha crua, a Food Standards Agency alerta os consumidores para não lavarem a carne. Ao invés, a carne deve ser cozinhada directamente, eliminando assim quaisquer contaminantes que lá possam existir.

Isto traz-nos de volta ao tema do verdadeiro preҫo da comida barata, nomeadamente da proteína animal. O paradigma da produҫão avícola é o preҫo. Quando uma galinha inteira é vendida a 3€, e quando sabemos que a maior parte do lucro fica no retalho e não no produtor ou na transformaҫão, que são quem realmente influenciam a qualidade e seguranҫa do alimento, o desafio que se põe é como infuenciar positivamente uma indústria que não tem margem de manobra.

Sexo, experiências e ratos! – Parte 2

Há um tempo atrás falámos do impacto que a preferência por um determinado sexo na escolha de modelos animais pode ter na capacidade de poder reproduzir estes estudos e até extrapolá-los para estudos clínicos. 
Mas o sexo de outros animais envolvidos em investigação pode também ter uma forte influência no resultado das experiências: o dos animais humanos!

Um estudo publicado na Nature Methods (PDF disponível aqui) demonstrou que o odor de cientistas do sexo masculino, bem como o de outros mamíferos machos, faz aumentar os níveis de stress de animais de laboratório – ratos e murganhos – seja qual for o seu sexo, ainda que de modo menos marcado nas fêmeas. 
Ainda que surpreendente, o estudo foi feito de modo rigoroso e extensivo, recorrendo quer à análise comportamental quer à medição de níveis de corticosterona (hormona cujos níveis são indicativos do nível de stress a que um animal está sujeito), sendo os resultados apresentados bastante fidedignos. Algumas das experiências tiveram mesmo alguns elementos divertidos, como a adição de modelos de papelão de Paris Hilton e William Shatner.  Também recorreram a voluntários seniores e pré-adolescentes (o primeiro presumivelmente com valores de testosterona em declínio e o segundo ainda longe dos níveis da idade adulta) e obtiveram resultados intermédios entre os observados para homens e mulheres.  
Este efeito é visível esteja ou não presente o indivíduo responsável pelo odor, pelo que pode ser reproduzido através de uma camisola usada por um homem, ou por uma almofada onde um gato macho costume dormir, mas não  se forem de fêmeas, se deixados juntos dos animais. Independentemente da espécie do animal macho responsável pelo odor – ou pelo menos dos testados: como cobaias, gatos e cães e murganhos e ratos estranhos –  o efeito é observável.

Ao passo que os autores se centraram no efeito analgésico do stress, este pode ter um efeito profundo em vários parâmetros fisiológicos, e na própria resposta às diversas variáveis que possamos  estudar. isto pode ter um impacto significativo em anos de estudo em animais, o que foi verificado quando estes investigadores estudos foram avaliar retrospectivamente os seus dados, cruzando-os com a informação acerca do sexo do investigador responsável pela observação dos animais. 
Estes resultados indicam que, no mínimo dos mínimos, se deverá evitar trocar os responsáveis pela recolha de dados dos animais por outros de sexo oposto, para evitar que tal se torne um factor de variabilidade não desejada nos resultados. Para além disso, para efeitos de interpretação dos resultados publicados e sua replicação, o sexo dos experimentadores deverá ser contemplado como uma potencial variável, e deverá ser devidamente descrito na secção e materiais e métodos.
Já pessoalmente, e sem qualquer intenção de ser sexista, acho que passarei a pedir a colegas do sexo feminino que façam todo e qualquer trabalho experimental com animais que eventualmente me possa vir a calhar. Tudo em prol da ciência, claro…

WSPA passa a ser World Animal Protection

Tem mais do que 50 anos e agora um novo nome: 
World Animal Protection está presente em tudo o mundo. O seu trabalho vai desde ações concretas no terreno para proteger animais que vivem em contacto com seres humanos (como por exemplo populações de cães asilvestrados) até uma campanha junto às Nações Unidas para uma Declaração Universal de Bem-Estar Animal (não a confundir com a muito divulgada mas completamente inoficial Declaração Universal dos Direitos dos Animais).

O valor da preocupação ética


Sendo que a preocupação humana com os seres humanos é maior do que a preocupação humana com outros animais, se calhar não é de surpreender que quem se preocupa profissionalmente com seres humanos recebe maior remuneração do que quem se preocupa profissionalmente com outros animais. Mas as recentes decisões sobre remuneração de peritos nos processos de revisão ética de investigação clinica versus a investigação com animais são flagrantes.

Acabou de ser publicado o Despacho n.º 8548-P/2014 que regula a remuneração dos membros da Comissão de Ética para a Investigação Clínica (CEIC). Esta é a única comissão de ética para investigação com seres humanos que opera ao nível nacional. Avalia todos os ensaios clínicos e os estudos com intervenção de dispositivos médicos, enquanto outros estudos que envolvem sujeitos humanos estão sob a responsabilidade de comissões de ética locais. Acabou de ser publicado o despacho que estabelece a remuneração dos membros da CEIC, do qual cito:

Assim, ao abrigo do n.º 4 do artigo 35.º da Lei n.º 21/2014, de 16 de abril, determina -se o seguinte: 

1 — Os membros da Comissão de Ética para a Investigação Clínica (CEIC) têm direito, por cada reunião da CEIC ou da comissão executiva, 
a senhas de presença nos termos seguintes: 
a) Presidente da CEIC — € 180; 
b) Vice -presidente da CEIC — € 160; 
c) Restantes membros da comissão executiva — € 130. 
2 — Os restantes membros da CEIC que não façam parte da comissão executiva têm direito por cada reunião em que participem ao abono de senhas de presença no valor correspondente a € 90. 

3 — Das taxas cobradas nos termos do artigo 48.º da Lei n.º 21/2014,de 16 de abril, e para efeitos da emissão do parecer previsto na referida lei, 40 % das quantias cobradas são afetos, a título de remuneração, aos membros e peritos a quem forem distribuídos os processos.

O mais próximo da CEIC para a área de experimentação animal será a Comissão Nacional para a Proteção dos Animais Utilizados para Fins Científicos, estabelecida pelo Decreto-Lei nº 113/2013. Um ano depois da publicação desta lei, a comissão ainda não existe, mas o documento que a estabelece já definiu que aos seus membros “não é devido o pagamento de qualquer prestação, independentemente da respetiva natureza, designadamente a título de remuneração, subsídio ou senha de presença.” 

Esta questão não é apenas simbolica, pois existe um real trabalho que tem que ser feito pelos membros das diferentes comissões. Qual a disponibilidade para realizar este trabalho espera-se quando já antes de criar a comissão se declara que o trabalho não vale um tostão?

Técnica revolucionária para estudos de comportamento animal?

Uma das maiores dificuldades para o estudo de comportamento animal é a recolha de dados. Qualquer etólogo tem uma mão-cheia de histórias sobre as dificuldades por que passou. Tanto os livros da Jane Goodall como os documentários de National Geographic relatam bem os desafios que é trabalhar com animais selvagens no meio deles.

Mas não é necessariamente fácil estudar o comportamento de animais em cativeiro. Muitas vezes o trabalho requer captura de imagens, pois por um lado a presença do observador pode influenciar os animais de uma forma indesejada, por outro lado animais que são pequenos, rápidos e/ou notívagos são muito difíceis de observar em direto. Ao começar uma carreira em estudos de comportamento animal, muitos de nós iniciamos também uma odisseia entre as tecnologias de filmagens e processamento de imagens. Durante anos, os nossos melhores aliados eram as empresas que fornecem equipamento de segurança, pois as necessidades de captar imagens em condições diversas de luz e 24/7 são partilhadas entre quem precisa de monitorizar as entradas de uma fábrica e quem procura ver o padrão de atividade numa vacaria.
Ao começar a trabalhar com roedores de laboratório deparei-me com novas dificuldades que desconhecia no meu trabalho com animais de pecuária. Como montar um sistema de filmagem que me permite ver um animal que vive numa gaiola do tamanho de uma caixa de sapato? A gaiola é transparente e permite gravações através da parede, mas se quero nesta gaiola fornecer um ambiente minimamente adaptado às necessidades do animal, ou seja material de ninho e abrigos, acabo por criar inúmeras oportunidades para o animal desaparecer da vista. As pequenas camaras feitas para gravar dentro de ninhos de pássaro parece um instrumento potencialmente interessante que ainda não tive oportunidade de experimentar. Permitiria a colocação da camara imediatamente acima dos animais, entre grades da gaiola. 

Um artigo recente na revista Nature Methods apresenta uma potencial solução para o segundo problema: Como identificar vários animais que vivem na mesma gaiola num vídeo, quando estes animais são quase iguais de tamanho e de coloração e quando qualquer marcação que é colocada na pelagem deles ou é potencialmente tóxica ou é rapidamente removida pelo animal?  Como podemos ver no video-clip, um grupo de investigadores espanhois desenvolverem uma abordagem em que o próprio sistema identifica os animais pelas suas caracteristicas individuais, sem a necessidade de marcação.

Creio que ainda teremos que esperar algum tempo até o sistema estiver no mercado. mas que parece interessante, parece.

11º Congresso da Sociedade Portuguesa de Etologia

SPE 2014 – 11º Congresso da Sociedade Portuguesa de Etologia
O 11º Congresso da Sociedade Portuguesa de Etologia (SPE) decorre no CIBIO-InBIO, em Vairão, Porto, dias 9 e 10 de Outubro.
Os congressos da SPE reúnem os cientistas e estudantes em Comportamento Animal activos em Portugal. Os convidados deste ano vêm das áreas de Genética do Comportamento, Neuroetologia, e Evolução do Comportamento.
Submissão de comunicações até 15 de Julho, na página da SPE: www.ispa.pt/spe

Magia para Cães

Com mais de 14 milhões de visualizações, os vídeos de Magia para Cães de Jose Ahonen, mágico e mentalista finlandês, são um enorme sucesso.
Claro que, pelos comentários, nem toda a gente parece concordar que se faça tamanha artimanha aos pobres canídeos, simplesmente para nos entreter. Mas de todas as coisas que nós humanos fazemos a cães (nomeadamente Exposições Caninas e Concursos de Beleza) esta parece ser a mais inocente (e divertida) de todas. Para mim o que me cativa nestes videos não é tanto a reacção dos cães mas mais a razão de ser dela. Porque se Ahonen se limitasse a esconder o biscoito por entre os dedos ou na manga, não seria fácil para os cães detectar o biscoito pelo odor? Mas os cães parecem não fazer ideia para onde o biscoito foi parar. Enganar um humano é fácil, pois muitas vezes vemos aquilo que esperamos ver. Mas enganar um cão parece-me ser mais difícil. Sugestões?

Falar com o público sobre experimentação animal

Sob o mesmo título, escrevi em Dezembro sobre o dilema que muitos utilizadores de animais de laboratório sentem no que diz respeito a transparência. É o tema de uma discussão que tem envolvido a comunidade de investigadores durante a ultima decada.

Os sinais que a prática de comunicação estão a mudar são vários. No mês passado, mais do que 70 instituições no Reino Unido assinaram a Concordat on Openness on Animal Research in the UK.  Com isso, as instituições comprometem-se a ser transparentes sobre porque, como e quando se utiliza animais em experiêncis, e a explicar os benefícios, danos e limitações da investigação.

Hoje, American Association for Laboratory Animal Science (AALAS) anuncia a colocação de um anúncio na versão digital e de papel do jornal USA Today. O anúncio remete para a campanha We Care, em que profissionais que trabalham com animais de laboratório explicam o seu trabalho e a sua motivação.

Maneio de equinos: Questionário internacional

Será mais comum manter cavalos estabulados na Suécia do que na Nova Zelândia? Com o que são alimentados os cavalos em França e na Holanda? Utilizam-se os mesmos equipamentos na Inglaterra como na Austrália? Será mais comum recorrer ao internet para aprender mais entre proprietários de cavalos nos Estados Unidos do que na Espanha?  

A Universidade de Sydney e International Society for Equitação Science ( ISES ) procuram responder a estas perguntas e desenvolveram um questionário on-line disponível em sete línguas para dar aos proprietários de cavalos em todo o mundo a oportunidade de contribuir com informações sobre como cuidam de seus cavalos.


O inquérito abrange alojamento e alimentação, comportamento, equipamento e as fontes de informação usados para aprender sobre maneio de cavalos.  

Demora cerca de 20 minutos a responder ao questionário que está disponível no