Carne de Galinha – o maior problema de saúde pública na Europa?

A epidemia de infecҫões por Campilobacter pilori na Europa, levou o jornal de referência The Guardian a fazer uma investigaҫão secreta à industria avícola no Reino Unido, o maior consumidor europeu de carne de galinha. Estima-se que só neste país 280 mil pessoas sejam infectadas por Campilobacter, uma bactéria que para além de transtornos gastro-intestinais, é capaz de atacar o sistema nervoso e causar lesões neurológicas irreversíveis e até mesmo a morte. 

De forma a prevenir este tipo de infecҫões, que na sua maioria são contraídas através da manipulaҫão de carne de galinha crua, a Food Standards Agency alerta os consumidores para não lavarem a carne. Ao invés, a carne deve ser cozinhada directamente, eliminando assim quaisquer contaminantes que lá possam existir.

Isto traz-nos de volta ao tema do verdadeiro preҫo da comida barata, nomeadamente da proteína animal. O paradigma da produҫão avícola é o preҫo. Quando uma galinha inteira é vendida a 3€, e quando sabemos que a maior parte do lucro fica no retalho e não no produtor ou na transformaҫão, que são quem realmente influenciam a qualidade e seguranҫa do alimento, o desafio que se põe é como infuenciar positivamente uma indústria que não tem margem de manobra.

Author: Manuel Sant'Ana

Sou Médico Veterinário e Especialista Europeu em Bem-Estar Animal. Sou investigador em ética animal e profissional pela Faculdade de Medicina Veterinária da ULisboa e pela Ordem dos Médicos Veterinários.

2 thoughts on “Carne de Galinha – o maior problema de saúde pública na Europa?”

  1. Acrescento que a razão da recomendação de não lavar, é de que ao lavar corremos o risco de contaminar outros alimentos ou superfícios da cozinha, com salpicos de agua de lavar o frango/ a galinha. Mas podemos culpar a industrialização da pecuária? Cito do artigo \”Sources of Campylobacter Colonization in Broiler Chickens\”:http://aem.asm.org/content/69/8/4343.full#ref-2\” Flock positivity is generally higher (up to 100%) in organic and free-range flocks (43) compared to intensively reared flocks This presumably reflects the level of environmental exposure of such birds as well as the increased age of the birds at slaughter. \”\”Some common risk factors can, however, be identified. These include poor house maintenance (as indicated by large rodent populations and poor building repair), poor hygiene barriers and inadequate staff compliance (including insufficient use of boot dips and changing outer clothing), insufficient cleansing and disinfection between flocks (including the reuse of old litter), short empty periods, close location to other poultry sites or farm animals, flock thinning, and contaminated water supplies (especially poorly cleaned water pipes or polluted stored water).\”Ou seja, a percentagem de aves contaminadas é muito mais alta em sistemas em que os animais estão no ar livre e em contacto com terra e com fauna selvagem, e medidas de redução de contaminação inclui o uso de roupa e calçado protector para não trazer contaminação para dentro do pavilhão, bem como produção em sistemas all in-all out e com desinfeção entre grupos. Os factores de risco parece-me muito mais provaveis de estar presente numa produção de pequena escala, tipo caseira, e as medidas de redução de contaminação são as que associo a uma produção mais industrializada. No entanto, se queres dizer que uma industria mal gerida por ter muito pouca margem economica implica maior risco do que uma industria bem gerida, então sim, concordo.

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  2. Esse é um ponto fundamental. Recordo-me como, durante o curso de medicina veterinária, nos era ensinado, como uma verdade absoluta, que os sistemas de produҫão extensivos representavam o paraíso para o desenvolvimento de contaminantes ambientais, como colibacilos e estafilococus, e que nada se comparava à avicultura moderna. Ver um dos principais argumentos dos defensores da avicultura industrial (da qual eu beneficio como consumidor) assim deitado por terra faz-me pensar se, de facto, o preço justifica tudo.

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