Sobre boa e má fotografia: uma história de cães

Esta mensagem surgiu de uma associaҫão de temas dispersos que se uniram numa ideia comum. Desde que me mudei para a Irlanda, mais ou menos ao mesmo tempo que a minha subscriҫão do jornal Público expirou, que me mantenho permanentemente ligado a três jornais: o The Guardian, o El País e, mais recentemente, o Observador. Um novo mundo de interconectividade, por vezes fonte de distracção mas também geradora de inspiraҫão e criatividade.
E foi nestas deambulaҫões que soube do trabalho da fotógrafa alemã Julia Christe. Julia criou uma série fotográfica sobre cães voadores a que chamou Freestyle. Ao que parece, os cães são lançados pelos próprios donos para um colchão enquanto Julia capta o ‘instante decisivo’ (expressão cunhada pelo fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson).

Mas não é preciso ser-se cinólogo para se perceber que os cães não estão a achar a mínima piada à brincadeira. Basta olhar-lhes bem nos olhos. Noutros animais, ao contrário dos humanos, não é normal ver-se a esclera, isto é, a parte branca do olho. É sabido que a exposição da esclera é indicadora de estados mentais negativos (stress, dor, sofrimento) em cães, vacas e outros animais. Quanto mais branco se vir, pior o estado mental. Isto está em oposição com o que se passa na espécie humana, onde a brancura ocular está associada a saúde, beleza e aptidão reprodutiva.
Por outras palavras, o Husky fotografado não está a curtir o salto, como parece indicar a inscrição que acompanha a fotografia no The Guardian: “Much falling. So levity. Wow! An adorable husky drops.” Ele está antes apavorado. Se houvesse uma expressão canina de terror, seria esta. Estes retractos não são só condenáveis. São também má arte porque desprovidos de conteúdo e penso que isso me deixa igualmente incomodado. Já agora, vejam a série Studie Faces e façam um exercício semelhante.
Em total oposição a este frívolo exercício estão as cino-foto-reportagens da fotógrafa britânica Julie McGuire. Ao contrário da sua homónima alemã, Julie fotografa cães com um propósito que vai para além da graça de retractar animais. Em Hounds of Hope Julie conta-nos a história da Penang Animal Welfare Society, associação zoófila malaia criada por uma aposentada alemã (Barbara Janssen) que foi viver para a Malásia para socorrer animais abandonados. Actualmente toma conta de mais de 250 cães num exercício que parece ter tanto de louvável como de condenável.

A fotografia aqui reproduzida é especialmente impactante e está entre as vencedoras do World Press Photo 2014. As razões são evidentes, mas ainda assim faço aqui um exercício de interpretação. A fotografia mostra-nos uma divisão do que foi antes uma casa, agora transformada em canil. Ela é abruptamente cortada em duas metades iguais por uma viga (de madeira?) que quase nos obriga a dar um passo atrás. A metade direita é feita de movimento, com vários animais em poses contorcidas e aleatórias. A metade esquerda, é toda ela tensão, com os animais hirtos e focados num mesmo ponto. Por fim, os tons sépia (quase monocromáticos) parecem conferir solenidade ao tema. E perguntamo-nos: como pode alguém trocar o conforto de uma reforma na Europa rica por uma entrega total, caótica e desinteressada aos animais no sudoeste asiático?

"E se os animais do Biotério entrassem em greve?"

Esta é uma das muitas questões colocadas na peça “Biodegradáveis“, em palco no Teatro Carlos Alberto no Porto até dia 16 de Novembro. Esta peça original é da responsabilidade da companhia Visões Úteis.

Segundo a companhia, não se pretende retratar o quotidiano do investigador, mas antes “reflectir sobre as expectativas e alguns dos estereótipos que o grande público parece partilhar em torno do que é a prática do cientista.” Segundo os criadores, pretende-se ainda celebrar algumas características que acreditam serem comuns a artistas e cientistas: “a persistência, o sacrifício, a paixão, a constante dúvida e o permanente desejo de perceber e ajudar a melhorar o humano.”

A peça aborda temas sérios – como o cancro e o testamento vital – recorrendo à comédia, sendo de destacar o papel que cientistas do IPATIMUP da Universidade do Porto e o 3Bs da Universidade do Minho tiveram como consultores para esta peça. 
Crédito da foto: Susana Neves. Fonte
Os actores partilham o palco com diversos animais, nomeadamente peixes e gerbos, que presumo serem proxys para os peixe-zebra e murganhos e ratos utilizados como modelos em investigação biomédica. Não sei o suficiente porque ainda não assisti à peça, mas interrogo-me porque razão não utilizaram estas mesmas espécies. 
Já agora, que destino terão estes animais utilizados como décor? É o seu uso justificado para este propósito? Não me opondo, a priori, com este tipo de utilização – desde que responsável – preocupa-me que não haja nenhuma informação disponível acerca da manutenção e futuro destes animais, o que não deixa de ser irónico face à apertada regulamentação do uso dos animais de laboratório que se procura aqui representar. 
Crédito da foto: Susana Neves. Fonte
Já que se abordam nesta peça questões de foro ético, ficará ironicamente a ética animal de lado, aqui? Se tiver oportunidade de ver a peça, voltarei a este tema no Animalogos

"I don’t like you" – Jane Goodall e John Oliver

Numa curta entrevista com o brilhante John Oliver – o apresentador e humorista britânico que é hoje um fenómeno de popularidade nos Estados Unidos –  Jane Goodall revela o seu bom-humor (e paciência), sendo o mesmo utilizado como veículo para divulgar as principais descobertas da primatóloga ao longo da sua vida dedicada ao estudo dos chimpanzés. 

O que eu gosto mais desta entrevista é que, ao passo que a maioria das peças televisivas “sérias” tendem a romantizar a vida e trabalho desta investigadora, aqui não só isso não acontece, como é dada oportunidade a Goodall de de não se levar demasiado a sério, ao mesmo tempo que são abordadas questões sensíveis ao nível da investigação destes primatas, como a atribuição de nomes aos indivíduos, ao invés de números de referência. 

Goodall também não se coíbe de designar os seus comportamentos com a mesma terminologia com que nós, humanos, descrevemos os nossos comportamentos. Assim, para Goodall, comportamentos sociais como dar abraços, beijos e as mãos não são  “parecidos” ou “análogos” aos dos humanos, mas a mesma coisa, de facto. 

Eu não sou nada de antropomorfismos, mas acho que no caso de animais tão biologicamente próximos, estamos de facto perante comportamentos homólogos, salvas as devidas distâncias. 

Uma peça despretensiosa, interessante, didática e cativante como a comunicação de ciência deverá ser. Uns cinco minutos bem passados.

Conversas inspiradoras

What is life? é o nome de um ciclo de dialogos interdisciplinares entre investigadores e docentes de diversas faculdades, a ter lugar no ICBAS, Universidade do Porto durante os próximos meses. Os organizadores Maria Strecht Almeida e José Augusto Pereira propõem conversas a partir do livro What is life do Erwin Schrödinger. A programação já está anunciada para a primeira sessão, dia 28 de Outubro e a segunda sessão, dia 11 de Novembro.

A imagem aqui ao lado é uma das muitas manifestações interessantes da vida, não só para quem se interessa por animais em geral mas também que estuda aspectos particulares de evolução e desenvolvimento. Não é o vulgar ratinho que parece, é um mamífero de uma classe taxonomica que não temos na Europa: os marsupiais. A razão deste opossum Monodelphia domestica de estar neste poste é a conferência que houve ontem também no ICBAS em que a Professora Yolanda Cruz da Oberlin College, Ohio, EUA partilhou com alunos e outros interessados alguns aspectos do seu trabalho com o marsupial Monodelphis domestica. Na pequena introdução no video clip aqui, descreve como e porque trabalha com estes mamíferos, originarios da America do Sul.
https://youtube.googleapis.com/v/JFhpaUJbsSM&source=uds

Foi uma conversa inspiradora também para quem ensina e investiga, pelo entusiasmo e pela abordagem inovadora que mostra. No Oberlin College, apenas há undergraduates, ou seja alunos do equivalente do 1º ciclo de ensino superior. Portanto, sem envolvimento de alunos de mestrado ou doutoramento, toda a investigação no laboratório da Yolanda Cruz é feita em forma de pequenos projetos de alunos do 1º ciclo de biologia e bioquimica.

Métodos de treino e modificação comportamental de cães: Eficácia e impacto no Bem-estar

Ana Catarina


Um texto de Ana Catarina Vieira de Castro, Bióloga  e Postdoc no grupo de Ciências de Animais de Laboratório do IBMC. A Catarina estudou o comportamento de pombos para o seu doutoramento (trabalho que lhe valeu um prémio) e é treinadora de cães certificada.  

Os métodos utilizados no treino e modificação comportamental de cães estão longe de ser lineares e consensuais entre treinadores e veterinários comportamentalistas. Há duas abordagens ou “escolas” principais com diferenças vincadas nas metodologias utilizadas. De um lado temos as chamadas metodologias tradicionais ou aversivas, que assentam sobretudo na utilização de força física, castigo e intimidação. Do outro lado temos as chamadas metodologias positivas ou force-free, que assentam sobretudo no uso do reforço positivo.


Recentemente várias associações veterinárias, associações de bem-estar e proteção animal e algumas associações de treinadores têm-se posicionado contra o uso das metodologias aversivas (ver, por exemplo, aqui aqui). Um dos principais argumentos utilizados prende-se com o impacto negativo que estes métodos podem ter no bem-estar dos cães. Algum suporte para estas preocupações pode ser encontrado em estudos laboratoriais realizados na área da psicologia da aprendizagem ao longo do século XX (utilizando diferentes animais como pombos, ratos ou cães), que demonstraram alguns dos potenciais efeitos colaterais da punição, como estados emocionais generalizados de medo e ansiedade, supressão generalizada de comportamentos e agressividade (ver, por exemplo, aqui e aqui).


No entanto, em alguns casos são feitas afirmações que carecem de comprovação científica ou que algumas vezes vão mesmo contra o conhecimento científico actual. Por exemplo, a Pet Professional Guild, uma associação norte americana de treinadores force-free, afirma na sua declaração de posição sobre treino de cães que existem evidências científicas extensas e irrefutáveis de que o treino aversivo de cães 1) provoca repercussões comportamentais negativas e 2) é menos eficaz do que o treino positivo.



Embora possamos encontrar nos estudos da psicologia acima referidos algum suporte para a afirmação relativa aos potenciais efeitos deletérios dos métodos aversivos, o caso é muito diferente para a afirmação sobre a eficácia dos mesmos. Não parece haver actualmente literatura em que nos possamos basear para aceitar afirmações sobre a maior eficácia do reforço positivo em relação à punição. E basta recorrermos a um manual de introdução à psicologia da aprendizagem para encontrarmos referências relativas à extrema eficácia de determinados procedimentos aversivos.

O caso torna-se ainda mais complicado quando falamos de evidências no caso específico do treino de cães. Ao contrário daquilo que é afirmado na declaração, os estudos científicos realizados sobre métodos de treino de cães são escassos e não é possível retirar deles as evidências (irrefutáveis) acima referidas.
No entanto, o mês passado foi publicado na revista Plos One um estudo que, na minha opinião, trouxe algumas indicações e algum avanço nesta matéria.


O estudo, desenvolvido por um grupo de investigadores da Universidade de Lincoln (Reino Unido), comparou a eficácia e as implicações no bem-estar de treino com coleiras de choque (Grupo A), treino com métodos aversivos mas sem coleiras de choque (Grupo B) e treino com métodos positivos (Grupo C).
Os três grupos de cães foram treinados durante 5 dias e as sessões de treino foram filmadas para posterior análise comportamental. Os resultados revelaram uma tendência geral para os animais do Grupo A mostrarem uma frequência maior de comportamentos indicadores de stress e/ou desconforto do que os animais do Grupo B e estes, por sua vez, maior do que os do Grupo C.

Os autores concluem que o uso de coleiras de choque resulta numa situação de stress para os cães, mesmo quando realizada de acordo com as melhores práticas (os treinadores que participaram no estudo eram todos treinadores experientes e foram nomeados pela ECMA – Electronic Collar Manufacturers Association e pela APDT – Association of Pet Dog Trainers), e que portanto apresenta um risco para o bem-estar dos cães. Apesar de este estudo se focar sobretudo no uso das coleiras de choque, também é possível concluir a partir dos dados obtidos que mesmo o treino com métodos aversivos sem coleiras de choque envolveu stress para os animais, embora menos quando comparado com o treino com coleiras de choque.

Os autores também concluem que a eficácia dos três tipos de treino é equivalente. Questionários feitos aos donos após o treino revelaram que os mesmos estavam satisfeitos com os resultados do treino e que esta percepção foi equivalente para os três grupos. A maior limitação do estudo parece residir neste ponto. Não é claro porque os investigadores optaram por usar a percepção dos donos como medida de eficácia, uma vez que esta não é uma medida objectiva. O estudo teria ganho mais força se a eficácia tivesse sido avaliada pelos próprios experimentadores, por exemplo, através da análise de vídeos.

Apesar desta limitação, este estudo foi, na minha opinião, um primeiro passo de qualidade no estudo dos efeitos dos métodos de treino no bem-estar dos cães. No entanto, mais estudos experimentais, sistemáticos e comparativos são necessários até podermos falar de evidências fortes e/ou irrefutáveis. Estudos deste género poderão ser conduzidos em maior escala, envolvendo mais treinadores. São também necessários estudos que procurem avaliar os efeitos a longo prazo da eficácia e do impacto no bem-estar dos métodos de treino.

Gostava de terminar este texto com uma reflexão. Independentemente das respostas que a ciência possa vir a dar, a discussão desta matéria terá sempre, na minha opinião, uma componente ética. Até que ponto é eticamente justificável optar por ensinar um animal através de metodologias que envolvem desconforto, dor e/ou medo, mesmo que os impactos no bem-estar se revelem negligenciáveis? Caberá aqui uma análise dano-benefício? Mesmo que as metodologias aversivas permitam atingir resultados mais rapidamente, até que ponto é justificável optar por elas? E mesmo que as metodologias aversivas se mostrem mais eficazes em determinadas situações, será isto suficiente para apoiar o seu uso generalizado? Os métodos aversivos, quando utilizados na terapia comportamental humana (e aqui o seu uso é, naturalmente, também extremamente questionado), são-no em situações onde outros métodos falharam. Não há nenhum terapeuta humano que defenda o uso indiscriminado de estímulos aversivos como forma de controlo ou modificação comportamental. No entanto, é isso que acontece com os cães. Haverá alguma teoria ética em que esta prática não seja questionável? Até para um contractualista ela é, no mínimo, merecedora de consideração.

A epidemia de Ébola chegou ao nosso quintal – e aos nossos animais!

A crise de saúde pública em Espanha, desencadeada pelo contágio directo do Ébola – o primeiro conhecido fora de África – entre um paciente e uma auxiliar de enfermagem do Hospital Carlos III, nos arredores de Madrid, segue tão descontrolada como a propagação do próprio vírus. Por entre acusações de falta de coordenação da direcção do Hospital, equipamento desadequado, treino insuficiente, impacto das medidas de austeridade no sistema de saúde espanhol, nada nem ninguém parece ficar imune à propagação do vírus (ou pelo menos, às suas consequências).
A mais recente vítima colateral desta epidemia – que parece retirada do filme Contagion (Steven Soderbergh, 2011) – é o cão da enfermeira infectada. A pedido das autoridades sanitárias da Comunidad de Madrid, um juiz autorizou hoje o abate de Excalibur, um American Stanfordshire Terrier de 12 anos de idade. O marido da enfermeira – também ele internado para observação – lançou um apelo nas redes sociais para que Excálibur seja poupado, com o apoio do partido animalista PACMA e da associação AXLA (Amig@sXlosanimales). A campanha #SalvemosExcalibur conseguiu reunir umas cinquenta pessoas à porta de casa da enfermeira, onde o cão está sozinho, depois do internamento dos seus donos.

Embora o papel dos animais domésticos na propagação do Ébola seja desconhecido, sabe-se que cães podem ser portadores assintomáticos do vírus e representam potencial risco de contágio. No entanto, Eric Loy, um especialista na transmissão do Ébola, discorda com a solução encontrada pelas autoridades espanholas, já que cão representaria uma fonte importante de informação sobre o vírus e sobre a sua transmissão. Em vez do abate, o cão deveria ser isolado e usado como ferramenta estudo. Uma petição, propondo algo semelhante, foi entretanto criada.

Peter Piot, um dos investigadores que descobriram o vírus em 1976, nunca pensou que o Ébola pudesse causar grandes riscos epidemiológicos, dada a natureza episódica e localizada dos anteriores surtos da doença. Mas agora o responsável europeu da Organização Mundial da Saúde (OMS-WHO) já admite que incidentes como o de Espanha se venham a repetir noutros países europeus, dada a proximidade e as deslocações frequentes entre os dois continentes.

Um Tributo à Dra Sophia Yin

Foi com grande consternaҫão que recebi a notícia do falecimento, em circuntâncias trágicas, da médica veterinária e etóloga americana Sophia Yin. Sophia, de 48 anos, era uma especialista em comportamento canino de dimensão estelar e uma presenҫa assídua em conferências por todo o globo. Sophia alcanҫou fama pelos seus métodos de treino. Provavelmente o mais famoso é o Learn to Earn Program, que recorre ao uso do reforҫo positivo, o que o separa de métodos alternativos, como os do famigerado “Dog Whisperer” Cesar Milan, muito baseados na dominância e no reforҫo negativo.

Os seus vídeos, como aquele aqui reproduzido, terão ajudado milhares de pessoas a compreender os seus cães e a dar-lhes uma vida melhor. Os seus ensinamento apelam à comunicaҫão e à consistência como métodos de ensino, e fazem do treino de obediência uma actividade agradável para ambos, homem e animal.
A morte, por suicídio, da Dra Sophia Lin, traz de novo o tema da saúde mental à ordem do dia: de facto, os médicos veterinários têm três vezes mais probabilidade de pôr termo à vida do que o cidadão comum e o dobro de outros profissionais de saúde, como médicos. As razões são várias e é impossível apontar uma única causa, mas a consistência destes dados um pouco por todo o mundo (a Dinamarca é uma das poucas excepҫões) tem levado à criaҫão de programas de apoio à saúde mental dos profissionais veterinários (médicos e enfermeiros), como é o caso do VetLife britânico.

Estudos com animais em destaque nos Prémios (Ig)Nobel 2014

Os prémios Ig Nobel são a grande festa da ciência. Ao contrário do que muitos pensam, não são atribuídos a estudos mal feitos, ridículos ou de pouco interesse científico. Antes celebram o lado divertido da ciência, que frequentemente os próprios investigadores não se apercebem que pode existir nos seus estudos, até que alguém o aponta. 
No ano passado, referimos o destaque dado à ciência de comportamento animal, na forma do IgNobel atribuído a Tolkcamp e colegas pelo seu estudo, que demonstrou que a probabilidade de uma vaca se deitar não aumenta com o tempo que passa em pé.  Este ano, entre outros nobres laureados, os estudos em animais estiveram bem representados, com três estudos que, como é apanágio dos galardoados pelo comité IgNobel, primeiro nos fazem rir, mas depois nos fazem pensar. 
Fonte: Hart et al
O estudo que recebeu o Ignobel da Biologia envolveu milhares de observações realizadas pelo checo Vlastimil Hart e colegas, que demonstraram que, quando os cães fazem as suas necessidades, por vezes se alinham com o campo geomagnético da Terra. Apesar da metodologia usada ter sido hilariante, se pensarmos bem nisso, foi não obstante também rigorosa e adequada. 
Os autores introduziram assim um novo paradigma de estudo comportamental, definindo assim também uma nova metodologia. Acima, de todo, são as implicações da sua descoberta que se revestem do maior interesse: os cães  poderão ter grande sensibilidade magnética, à semelhança de algumas aves, algo que era desconhecido até agora. IgNobel da Biologia muito bem atribuído. 
Ao que parece, não é só o Grumpy Cat
que fica de mau humor…
O IgNóbel em Saúde Pública foi atribuído a Jaroslav Flegr e colegas, também da República Checa, pelo seu estudo em que procuraram aferir se o convívio com gatos tem implicações na saúde mental dos proprietários. Demonstraram que a toxoplasmose latente (que pode variar, de área para área, entre 20-80%) resultante do contacto com gatos poderá levar a alterações comportamentais em jovens mulheres, e aumentar o risco de esquizofrenia em homens. Os autores sugerem que as mulheres que convivem com gatos são mais inteligentes, tem maior sentimento de culpa, apreensão e insegurança e, possivelmente, uma maior propensão para se sentirem tensas, determinadas e agitadas. 
Uma das imagens bem-humoradas apresentadas pelos
autores na cerimónia de atribuição dos prémios, em Boston. 
Para terminar, o estudo galardoado com o IgNobel em Ciências do Ártico realizado pelas Norueguesas Eigil Reimers e Sindre Eftestøl, que observaram como renas do ártico reagem na presença de humanos disfarçados de ursos polares. Descobriram que, quando os humanos se encontravam vestidos de modo a assemelhar-se (à distância) com um urso polar, a distância de fuga das renas encurtava consideravelmente. Isto sugere a existência de uma relação presa-predador entre as duas espécies, o que tem implicações para a ecologia e conservação das mesmas. 
É de referir que, num altura em que estudos conduzidos em animais se revestem de tanta controvérsia, são galardoadas experiências inócuas para estes, o que implica que numa análise custo-benefício, não obstante à primeira vista ser difícil perceber a razão por detrás da sua realização, não levantarem questões éticas de maior.