Pós-graduação Bem-Estar Animal – ISPA

Estão abertas as inscrições para a terceira edição do Curso de Pós-graduação de Comportamento e Bem-Estar Animal no ISPA (Lisboa). Este curso destina-se a todos aqueles que, directa ou indirectamente, lidam com animais na sua actividade profissional e se preocupam com os efeitos das suas acções sobre esses mesmos animais. A formação permite ao aluno desenvolver competências específicas para a sua área de actuação. Daí as edições anteriores terem contado com a participação de profissionais tão diversos como biólogos, sociólogos, psicólogos, médicos veterinários, enfermeiros veterinários, cinotécnicos, etc.

Aceitam-se inscrições até dia 4 de Janeiro de 2013.
Para mais informações visite o site do curso e a brochura do mesmo.

Desmistificar a agressividade canina

O último mês de Agosto foi pródigo em notícias (aqui e aqui) de acidentes com cães de raças consideradas perigosas e que resultaram em mortes ou lesões graves em pessoas. A agressividade canina é um daqueles temas que mais padece de raciocínios erróneos ou mistificados. Por isso é que a opinião da colega e amiga Mónica Roriz (MR), na página web da revista profissional Veterinária Atual, é tão importante. Num artigo chamado Os Potenciais Perigosos, MR procura desmistificar o binónio agressividade – perigosidade associado a certas raças de cães, com especial incidência no papel do médico veterinário. Um dos aspectos que MR refere diz respeito ao procedimento, considerado de boa prática clínica, de isolar o cachorro durante o período de primovacinação, que normalmente ocorre entre o mês e meio e os quatro meses de vida. No entanto, este é também o período crítico de sociabilização do animal, que em grande medida determinará o seu comportamento futuro, altura em que o cachorro deve ser exposto ao maior número possível de estímulos. Os dois pontos de vista têm sido tomados como inconciliáveis, com os médicos veterinários a privilegiarem a protecção da saúde do animal (e do seu bem-estar físico) em detrimento do seu comportamento (mais relacionado com o seu bem-estar mental). As razões para esse facto permanecem por esclarecer mas atrever-me-ia a apontar a existência de lacunas consideráveis no ensino universitário do comportamento animal. Uma boa forma de colmatar essas lacunas é através da formação pós-graduada, existindo já ofertas de cursos on-line especificamente direccionados para médicos veterinários. A não perder também o Congresso da PSIANIMAL que decorre este mês em Lisboa, sendo o primeiro fim de semana inteiramente dedicado à agressividade canina e felina. A forma como MR descreve o fatídico caso do dogue argentino faz-nos pensar que mais (e melhor) poderia ter sido feito no acompanhamento (e aconselhamento) daquela família.

Animal Mosaic – outra forma de comunicar o Bem-estar Animal

Sob a égide da Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA, na sigla inglesa), ANIMAL MOSAIC é o mais recente site dedicado ao Bem-estar Animal. O site propõe ser uma plataforma de debate e fonte de informação sobre o mundo animal e da forma como as questões de bem-estar se relacionam com outras preocupações globais.
Das muitas fontes de informação disponíveis, é de destacar a versão renovada da ferramenta Concepts of Animal Welfare, que anteriormente só estava disponível em CD-ROM.  Esta pode ser uma boa maneira de se iniciar no multifacetado mundo (científico e filosófico) do Bem-estar Animal. Outra ferramenta importante é o Sentience Mosaic, que se vem assim juntar ao já existente Animal Sentience da Compassion in World Farming, outro site de uma ONG dedicado à consciência animal. O Sentience Mosaic providencia um Fórum de discussão sobre temas de senciência, consciência e cognição animais (e já com algumas entradas).

Ambas as ferramentas, no entanto, devem ser usadas com um alerta: as visões nelas expressas não reflectem todo a panóplia de opiniões existente no universo do Bem-estar Animal. Elas são o reflexo das estratégias e campanhas levadas a cabo pela WSPA. Na qualidade de organização líder mundial em protecção animal, a WSPA veicula uma mensagem marcadamente antropomórfica do comportamento animal, como aliás se pode perceber pelo vídeo, e que não é partilhada por todos os cientistas e filósofos.

Educar para mudar?

No meio da minha leitura dos textos vindos do trabalho de didática em bem-estar animal, encontrei na última edição da revista Animal Welfare uma recensão do livro Education for Animal Welfare. O balanço custo (99,95€) – benefício (88 paginas e uma critica bastante reservada) não me faz correr a comprar o livro, mas a crítica de autoria de Siobhan Abeyesinghe levanta varias questões importantes que aproveito para trazer para cá:
“The issue, as with many environmental and health concerns, is not how to reach those who are already sympathetic, but how to reach those who are not. The risk of using very emotive and castigating language to raise awareness in the first place is in actually alienating rather than engaging the audience whose attitudes and knowledge we wish to alter. Likewise, I found the implication that simply raising awareness alone would necessarily change human attitudes and thus improve animal protection somewhat naïve. In terms of aiding the prospective educator, I consider an opportunity to address the education and learning process itself was missed. For example, what should education aim to act upon? Knowledge alone may not necessarily be implemented if it is counter to beliefs or not perceived to be of personal relevance; positive and caring attitudes may actually be detrimental to welfare without appropriate knowledge – pet obesity is an example of ‘killing with kindness’; animal welfare-promoting behaviour may not be implemented if a person does not perceive it to be their responsibility; they perceive it to risk censure or they do not consider their behaviour will make a difference. So, is it necessary to alter knowledge, attitude, behaviour or combinations of these factors? How do we achieve this and how do we address barriers to their implementation?”

Ponha o Ovo na Consciência

Texto da autoria de Cláudia Valente, Inês Bergmann e Inês Órfão
Alunas da Pós-graduação em Bem-estar Animal, ISPA

Apesar da recente e noticiada alteração da lei, os consumidores portugueses parecem permanecer alheios às condições de produção de ovos em Portugal. Logicamente, e tendo em conta os tempos de crise que se vivem, o preço parece ser o principal factor na escolha dos ovos comprados, havendo uma preferência por aqueles provenientes de produção intensiva (ovos biológicos podem custar 3 vezes mais).

No entanto, as galinhas poedeiras criadas em regime intensivo habitam em gaiolas de uma dimensão reduzida e em que cada indivíduo ocupa uma área igual a uma folha A4. Deste modo, as aves estão impedidas de realizar comportamentos naturais básicos como procurar comida, fazer ninho ou cama, e estabelecer uma hierarquia essencial na estabilidade do grupo. Em oposição, comportamentos anormais como arrancar penas são frequentes e por vezes “prevenidos” com acções que provocam dor, como o corte do bico. Problemas de saúde como osteoporose são também frequentes. É também de referir que já existem diversos estudos que comprovam que modo como as galinhas são poedeiras são criadas tem uma influência real na qualidade dos seus ovos, e para muitos consumidores este factor pode mesmo ser o decisivo.

Um destes estudos, realizado pelo Eurogrupo (1998) verificou que noutros países europeus, os consumidores estavam dispostos a pagar mais por ovos de galinhas que não fossem criadas em gaiolas, mas que o desconhecimento acerca de como podiam fazer essa escolha, nomeadamente através da leitura dos códigos presentes nos ovos, dificultava essa decisão.


Por estas razões, a nossa visão é que cabe ao consumidor comunicar ao produtor, através das suas compras, o tipo de produto que quer (preço, qualidade e condições de produção), e é nesse sentido que surge então a necessidade de criar uma campanha com um título que desperte a curiosidade, como “Ponha o Ovo na Consciência ”, que informe os consumidores sobre as diversas condições de produção existentes, vantagens e desvantagens das mesmas para as galinhas, consequências no produto final, significado de códigos presentes nos ovos e que dê a conhecer mais sobre o comportamento natural destes animais.

Esta iniciativa teria interesse não só para os consumidores, que passariam a saber mais sobre o produto antes de o escolherem, para os produtores, uma vez que as exigências europeias no que toca ao bem-estar dos animais de produção serão cada vez maiores e para as galinhas, que necessitam urgentemente de alterações nas condições em que habitam, mas também para a sociedade portuguesa em geral, uma vez que o modo como os animais são tratados e a importância que lhes é dada reflete o pensamento ético de uma nação.

Comunicar bem-estar animal

Vamos dar início a uma pequena série sobre este tema, em que vamos publicar os trabalhos desenvolvidos pelos alunos da Pós-Graduação em Comportamento e Bem-Estar Animal do ISPA. Mas antes de começar a publicar estes textos, queria partilhar uma comunicação muito diferente, que nos chegou pelas mãos de uma colaboradora que esteve no congresso Minding Animals.

Agradecemos a Orsolya Varga pela foto e Monique Janssens pelo próprio poster. Quem preferir ver a comunicação em formato de texto pode encontrar o resumo (em inglês) no primeiro comentário abaixo.

II Congresso PSIAnimal

O programa final para o segundo congresso PSIAnimal, a decorrer em Lisboa em Setembro, está agora disponível. Com duas partes temáticas, o congresso conta com participação de investigadores portugueses e internacionais. 
No tema Animais de Companhia – Cão e Gato, 22 e 23 de Setembro, as palestrantes convidadas internacionais são as médicas veterinárias especialistas em medicina de comportamento de animais de companhia Sarah Heath e Tiny de Keuster
No tema Animais de Produção e Equinos, 29 e 30 de Setembro, os palestrantes convidados internacionais são os investigadores Patrick Pageat, presidente do European College of Veterinary Behavioural Medicine – Companion Animals e Isabelle Veissier, membro da comissão organizadora do projeto Welfare-Quality e do WelfareQuality Network.

O que é uma estereotipia?

Um equívoco comum nas discussões sobre bem-estar animal é considerar uma ‘estereotipia’ como sinónimo de “comportamento anormal”. Os dois termos são relacionados, mas não são diretamente substituíveis. Na realidade, os comportamentos estereotipados são antes um tipo particular de comportamento anormal. Tal como o nome sugere, resultam da repetição regular de um mesmo comportamento, inúmeras vezes e por longos períodos de tempo.

Quem já viu um tigre ou um urso polar no jardim zoológico teve, com grande probabilidade, a possibilidade de assistir a pacing estereotipado. Estes comportamentos tendem a ser muito notórios e costuma ser evidente, mesmo para o observador menos experiente, que algo de errado se passa com o animal.



Animais selvagens de espécies que na natureza possuem grandes territórios, quando confinados a pequenos espaços em jardins zoológicos e circos – ou enjaulados como animais de estimação – são particularmente propensos a desenvolverem comportamentos estereotipados. Mas este tipo de comportamentos ocorre em todos os tipos de animais mantidos em cativeiro. Pensa-se que se desenvolvam a partir de comportamentos normais que os animais estão muito motivados a realizar na natureza, mas que num ambiente restritivo são impedidos de manifestar de maneira normal. 

Se a restrição comportamental afeta a alimentação e/ou a procura de alimentos, é mais provável que os animais desenvolvam estereotipias orais, como as porcas e o cavalo nos vídeos abaixo.



 
Se os animais antes estão motivados para explorar e para se movimentar, provavelmente irão desenvolver estereotipias locomotoras. O tigre acima é um exemplo disso, outra é weaving em cavalos.


Já agora, desligue o som no seu computador enquanto vê os vídeos, a menos que queira ser exposto a mais equívocos sobre comportamentos estereotipados. Estes comportamentos não são contagiosos e os animais não os aprendem uns dos outros, como muitos proprietários de cavalos e treinadores pensam. Se vários animais no mesmo ambiente mostram estereotipias semelhantes, a explicação é que eles reagem de uma forma semelhante ao ambiente inadequado.

As estereotipias são comportamentos intrigantes. Muita pesquisa tem sido direccionada para a compreensão de como se desenvolvem, mas também para dois outros aspectos importantes que vou discutir a seguir: porque é que as estereotipias persistem e o que significam para os animais.

Na maioria dos vídeos neste post, vemos os animais a executar estereotipias enquanto alojados em ambientes altamente restritivos, com uma excepção: o cavalo que exibe cribbing. Apesar de estar num paddock com amplo espaço e em companhia de outros cavalos continua a exibir este comportamento anormal. Este é um exemplo de que estereotipias podem persistir uma vez estabelecidas num animal – de modo que colocar o animal num ambiente mais adequado nem sempre é suficiente para se livrar do comportamento problemático.

As estereotipias são um indicador importante do bem-estar animal, uma vez que se pode concluir dum ambiente em que muitos animais desenvolvem estereotipias que o mesmo não é apropriado para estes animais. Mas em tal ambiente, as estereotipias podem ser uma espécie de auto-ajuda para os animais que as realizam. Há evidência de investigação que a execução de comportamentos estereotipados pode reduzir stress. Por isso, impedir um animal de realizar estes comportamentos (como é muitas vezes tentada em cavalos) é definitivamente o caminho errado para resolver o problema.


Porque é importante medir a dor em murganhos? – Entrevista a Matthew Leach

No seguimento do nosso último post, apresentamos uma entrevista ao primeiro autor do recente artigo The Assessment of Post-Vasectomy Pain in Mice Using Behaviour and the Mouse Grimace Scale, Matthew Leach, da Universidade de Newcastle (tradução por Nuno Franco). 

Matthew Leach, 2012


Anna Olsson – Olá Matt. Antes de mais parabéns pelo teu artigo recentemente publicado na PLoS One. Neste artigo vocês comparam diferentes métodos de avaliar a dor em murganhos.  Podias por favor descrever brevemente como este trabalho foi realizado?

Matthew Leach – Neste estudo nós comparamos as mudanças nas expressões faciais de murganhos usando a Mouse Grimace Scale (MGS) [1] com outros métodos validados de avaliação de dor baseados no comportamento dos animais. Neste caso, os animais avaliados foram murganhos [ratinhos] macho sujeitos a vasectomiade rotina [2]. Para isso foram recolhidos vídeos do comportamento dos animais um dia antes e uma hora após a cirurgia, tendo sido usadas imagens estáticas retiradas dessas gravações para a avaliação com base na MGS.

Os animais foram divididos em três grupos, um tendo recebido solução salina [grupo controlo], outro meloxicam,e outro bupivacaína [3], administradas 30 minutos antes da cirurgia. Foi estabelecido que, se necessário, os animais receberiam ainda analgesia de intervenção, no pós-operatório



A.O. – Quais foram as principais conclusões?

M.L. – Fomos capazes de detectar e avaliar a dor após vasectomia em murganhos através da MGS, tendo-se registado entre os momentos pré e pós-cirurgia um aumento significativo na classificação com este método. Através da MGS, foi também possível aferir a eficácia do uso de analgésicos, que se reflectiu numa menor classificação MGS após a vasectomia nos grupos que a receberam.  Observamos ainda que a MGS foi tão eficaz na avaliação da dor pós-vasectomia e eficácia analgésica em murganhos como  métodos de avaliação comportamental validados.

    A.O. – Porque, e para quem, é isto é importante?

    M.L. – Nós pensamos que o desenvolvimento de melhores métodos para avaliação e alívio da dor em animais, e murganhos em particular, é crucial. Presentemente sabemos muito pouco sobre o modo como avaliar e aliviar a dor induzida por procedimentos rotineiramente realizados nestes animais. A identificação e redução da dor em animais usados em investigação não só é importante para o seu bem-estar, mas também para a validade dos dados recolhidos desses animais.

    A MGS parece oferecer um meio simples e rápido de avaliar dor pós-cirúrgica em murganhos, e que supera algumas das limitações associadas aos métodos actualmente utilizados com base em indicadores comportamentais


    Nós esperamos que este método seja utilizado por todos aqueles de alguma maneira responsáveis pela avaliação de dor em murganhos, sejam eles veterinários, técnicos, tratadores ou os próprios investigadores que usem murganhos nos seus estudos. 
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    [1] N.T. – A Mouse Grimace Scale é uma escala desenvolvida para interpretação e avaliação de “expressões faciais” em murganhos, e já apresentada neste blog

    [2] N.T. – A vasectomia de murganhos é usada para implantação de embriões em fêmeas. Após a cópula, e uma vez que os machos são estéreis, as fêmeas ficam num estado de “pseudo-gravidez” e assim prontas para receberem os embriões a implantar. O uso estes animais é eticamente relevante, pois significa que nenhum foi submetido a intervenções dolorosas como resultado directo deste estudo, mas antes foram usados animais que seriam, de qualquer maneira, intervencionados para um programa de modificação genética. 

    [3] Analgésicos frequentemente utilizados

    Vida sem dor, morte rapida

    Dois estudos recentemente publicados na revista PLoS ONE abordam o que provavelmente são as duas preocupações humanas mais básicas com bem-estar animal: assegurar que os animais não sintam dor enquanto vivem e que a morte seja rápida e indolor.

    O trabalho do Matt Leach insere-se na linha de investigação por excelência do grupo de biologia comparativa da Universidade de Newcastle, que há décadas desenvolve metodologia para medir dor em animais de laboratório.O estudo demostra que se consegue distinguir um animal que tem dor de um em ao qual foi distribuído um analgésico através de análise da expressão facial e através de análise manual de comportamento, mas que uma análise automatizada de comportamento não consegue fazer esta distinção. (Ou seja, não é só uma questão de ver a dor nos olhos do ratinho mas também de ter olhos para ver.). Falaremos mais sobre este estudo num post a vir.

    O segundo trabalho vem também de Newcastle, e é motivado pela preocupação com o possível sofrimento associado a eutanasia com CO2. Este gás é a escolha preferida para a eutanásia de animais em grupo, por ser fácil de administrar sem ser tóxico nem caro. Mas do ponto de vista de bem-estar animal a prática tem sido questionada: há indicações que a inalação de CO2 causa dor e desconforto antes que o animal perca a consciência. O estudo agora apresentado no PLOS ONE demostra que a administração de N2O em conjunto reduz o tempo até inconsciência, assim reduzindo o tempo em que os animais possam estar em sofrimento antes de perder a consciência.