Pig Business – O Filme


Os filmes em formato de documentário têm-se tornado cada vez mais um veículo previlegiado pelos grupos activistas para denunciar sistemas de produção animal intensivos e globalizantes. “Pig Business” (Director: Tracy Worcester, UK, 2009) é um produto desta estratégia que denuncia os investimentos feitos pela empresa norte-americana Smithfield na Polónia de forma a conquistar o mercado europeu de carne de porco. O filme – com legendagem de português do Brasil – está disponível na íntegra no You Tube.

Sem querer de forma alguma desvalorizar a relevância do tema, penso que a narrativa é por vezes demasiado linear e parece deixar de fora aspectos importantes na compreensão da dinâmica global de alimentos de origem animal. O filme recorre, em especial, à vox populi como forma de legitimar a demonização de todas as empresas de suinicultura que, de alguma forma, procuram o lucro, enjaulam animais, poluem o ambiente, propagam doenças, violam directivas europeias e esmagam os pequenos produtores. Da mesma forma, quando a realizadora quis mostrar um exemplo do pequeno produtor (30:05), não foi capaz de escapar ao esteriotipo da exploração familiar que vive em harmonia com a natureza a criar meia dúzia de animais e cuja triste condição se deve tão somente à incapacidade em competir com os preços praticados pelas grandes indústrias. Aí o filme parece atirar sobre todas as formas de globalização de forma indiscriminada, o que lhe rouba credibilidade sem acrescentar substância. A entrevista com um responsável da Smithfield (43:18) – que deveria ser um ponto alto da investigação da autora – cai no ridículo quando ela começa por comparar as fezes de 10 milhões de porcos com as de 100 milhões de pessoas.

Interessante foi a exibição de imagens de jaulas de reprodutoras numa suinicultura intensiva portuguesa (49:20) e que inaugura a questão do bem-estar animal, que ainda assim merece um tratamento superficial (qual a diferença das etiquetas “freedom food“, “free range“, “organic” ou “outdoor“? Podemos – ou devemos – colocá-las a todas dentro do mesmo saco?). Só no final (53:45), a autora procura contextualizar a política alimentar europeia mas limita-se a fazer uma entrevista de rua a um parlamentar anti-sistema sem a equilibrar com uma voz de dentro do sistema europeu que, mal ou bem, dita as regras.

Qual a sua opinião sobre este filme? E sobre a suinicultura intensiva?

Em que século?

Este post tem pouco a ver com animais mas preciso de expressar a minha perplexidade. Desde sexta-feira passada, a caixa de correio do grupo de investigação tem vindo a encher com publicidade de uma empresa de material de laboratório. Endereçado individualmente a cada um dos membros do grupo, num envelope de A4 e enviado pelo correio. Chegou hoje o decimo-quinto despacho. O valor total só de porte até data é de 9 euros e 72 cêntimos. Mais os custos dos envelopes e da impressão das folhas de publicidade. E isto só a contar os custos directos para a empresa – não os custos de gastos de recursos suportados por todos nós ou pelo planeta, como preferirem.

Pode ser que seja retro, pode ser que a melhor maneira de se diferenciar em 2011 é de enviar publicidade em papel. Mas a única mensagem da empresa que me chega a mim é “retrógrado”.

Contemplo a possibilidade de devolver o quilo de papel à empresa. Na realidade, a despachar tudo directamente no papelão perco uma oportunidade de me juntar à empresa no estímulo a economia nacional. Até porque uma vez que ninguém no grupo gasta o tipo de material anunciado não há outra maneira de contribuir. 

No entanto, deixo aqui uma sugestão: a próxima vez enviem-nos o dinheiro directamente. Comprometo-me a gasta-lo bem e em produtos nacionais.

A Evolução de Darwin no Porto

A Exposição “A Evolução de Darwin” está agora no Porto!

Desde o passado dia 1 de Fevereiro que a renovada Casa Andresen, situada no Jardim Botânico do Porto, acolhe a exposição criada para celebrar os 200 anos do nascimento de Darwin e os 150 anos da Teoria da Evolução das Espécies. A exposição vem também celebrar o centenário da Universidade do Porto e o Ano Internacional da Biodiversidade (2010) já que a Casa Andresen acolherá, a partir de 2012, a Galeria da Biodiversidade.

Decorrem também um sem número de actividades paralelas. Acompanhe as novidades na página do Facebook da exposição.

Passerelle – Joana Vasconcelos

Joana Vasconcelos
Passerelle (2005)
Cães em faiança, ferro metalizado e cromado, motor, quadro de comando e protecção, pedal e PVC
230 x 366 x 205 cm
Colecção da Artista
Exposição “Sem Rede”
Museu Berardo, 01/03 – 18/05/2010

Não é possível ficar-se indiferente à obra da artista plástica Joana Vasconcelos (n. 1971, Paris). As sua peças são feitas para nos desafiar, recorrendo a três mecanismos principais: a sobre-dimensão, a transmutação do contexto funcional dos materiais utilizados e o convite à interacção directa com o público.

Em Passerelle (2005), somos convidados – através de um pedal à nossa disposição – a desencadear um mecanismo giratório que suspende cães em faiança presos pelo pescoço por grossas coleiras de couro. Ao aceitar fazê-lo estamos a contribuir para o processo criativo – e ao mesmo tempo destrutivo – que justifica a própria obra. Quando, em Maio último, visitei a exposição “Sem Rede” no Museu Berardo eram já mais os cacos que jaziam no chão do que os animais suspensos na engrenagem. Só havia dois cães inteiros; todos os outros se apresentavam mais ou menos quebrados.

Passerelle abre-se a interpretações várias, nomeadamente no que diz respeito à nossa relação com os animais e ao uso que deles fazemos. A homologia existente entre o mecanismo giratório e a linha de abate de um matadouro é evidente. Não se tratam, no entanto, de galinhas mas de antes de imagens esteriotipadas de cães de raças populares como o Dálmata, o Collie ou o Boxer. São portanto ícones, que representam mais do que as suas raças e mais do que a espécie canina da mesma forma que uma modelo numa passerelle é a representação iconográfica da beleza feminina.

O facto de caber ao visitante a opção de fazer desencadear o mecanismo remete-nos para a responsabilidade inerente às decisões quotidianas que envolvem o uso de animais. Os cacos que se vão amontoando na base da peça impelem o público a confrontrar-se com as consequências das suas acções. Podemos não ter o hábito de comer cães, é certo, mas não deixamos de lhes produzir dano de inúmeras formas.

Talvez nada disto tenha motivado a artista. Mas a riqueza de uma obra de arte está na multiplicidade de interpretações que permite.

Animals in Europe

Eurogroup for Animal Welfare junta o esforço das ONGs de protecção animal ao nível europeu. A mais recente edição da sua newsletter Animals in Europe acabou de sair.

Em destaque está o relatório do European Food Safety Agency (EFSA) sobre transporte de animais e a declaração europeia sobre alternativas à castração cirúrgica de porcos.

Uso de animais no ensino – Parte 4

(Ver Parte 1, Parte 2, Parte 3)

Na sequência da publicação de um artigo meu no número de Janeiro da revista profissional Veterinária Actual, retomo aqui o tema do uso de animais no ensino de Medicina Veterinária. Esta discussão teve origem na notícia sobre “Cães vivos usados como cobaias na Universidade de Évora” e que foi desenvolvida – e muito discutida – em comentários posteriores (as mensagens anteriores podem ser encontradas em Parte 1, Parte 2 e Parte 3).

Deixo então a última parte, referente ao enquadramento deontológico, tal como foi publicada:

Face à impossibilidade de haver ensino veterinário sem o manuseamento de animais vivos, como devemos pautar a nossa conduta profissional de modo a deslindar o nó górdio em que nos encontramos? A solução passa por recorrermo-nos de recursos e métodos alternativos, como sejam:

a) Gerar casos clínicos reais através do Hospital escolar, da clínica móvel e de protocolos com criadores/produtores privados.

b) Utilizar os animais dos próprios alunos, após mútuo acordo, nomeadamente para procedimentos semiológicos e diagnósticos.

c) Colaborar com associações zoófilas e organismos oficiais, especialmente em campanhas de esterilização e de profilaxia.

d) Investir em modelos artificiais (manequins e simuladores).

e) Fomentar o extramural active learning em CAMV privados.

f) Aproveitar cadáveres provenientes dos Centros de Recolha Oficiais.

g) Criar um código de boas práticas pelo qual os educadores se possam orientar.

Espero a contribuição de todos.

Temple Grandin – The woman who thinks like a cow

Recomendo a todos o filme do realizador Mick Jackson (2010) sobre Temple Grandin, autista e um dos maiores especialistas mundiais em bem-estar de animais de produção.

O filme ganhou 7 Grammys, incluindo o de melhor actriz para Claire Danes, pela sua convincente interpretação de Temple. A história de Temple tem o condão e nos emocionar e nos fazer pensar na forma como é importante olharmos os animais não através dos códigos humanos mas sim através da linguagem própria de cada espécie. É um desafio à abordagem antropomórfica, muitas vezes dominante, de lidar com os animais.

Vejam também o documentário da BBC: Temple Grandin – The Woman Who Thinks Like a Cow, que aborda a fundo o problema do autismo. Se só quiserem saber sobre o trabalho de Grandin com animais, passem directamente para a parte 4.

Vai uma sopa de barbatana de tubarão?

Exemplares de uma espécie de tubarão (pinta-roxa) à venda no mercado de Olhão.
(Repare na ausência de barbatanas)

A Comissão Europeia (CE) tem aberta uma consulta pública sobre a revisão da lei que regula a remoção de barbatanas de tubarão (finning) em águas europeias. A consulta é aberta a todos e decorre até ao próximo dia 21 de Fevereiro.

Um dos aspectos mais interessantes desta consulta é que, ao contrário do que aconteceu em 2003, a CE está determinada a banir em definitivo a prática do finning e não apenas a limitá-la. Para esta reviravolta legislativa muito contribuiu o papel interventivo das ONGA’s, nomeadamente da Shark Alliance e da portuguesa APECE.

As barbatanas de tubarão atingem valores muito elevados, nomeadamente nos mercados asiáticos, por serem o ingrediente principal da famosa sopa. No entanto a carne de tubarão tem menor valor económico e por isso torna-se menos rentável descarregar as carcaças na doca. Em vez disso, as barbatanas são removidas a bordo e os tubarões, ainda vivos, são devolvidos ao mar para virem a morrer de asfixia, hemorragia ou como petisco para outros peixes.

A anterior lei visava regulamentar a prática de finning, impondo limites e obrigando os pesqueiros a descarregar a totalidade do peso vivo dos tubarões. Para contornar uma legislação já de si confusa e difícil de controlar, muitos pescadores – e aqui estamos a falar de frotas industriais e não de pesca artesanal – em vez de desistirem da pesca ao tubarão direccionaram-na para os exemplares mais pequenos (e portanto mais leves e com menos volume) e também por isso mais rentáveis. Em vez de diminuir, a lei de 2003 estava a contribuir para o aumento da pressão da pesca sobre as populações de tubarões.

Registe-se que em sintonia com a Europa, o Senado dos EUA aprovou no mês passado uma moção semelhante, a Shark Conservation Act of 2010 que obriga os pesqueiros a transportarem os tubarões inteiros para terra.

Como podem ler, a participação nesta consulta pública é simples e rápida. Contribuam!!

animalogantes somos todos

Poucos dias antes do Natal, animalogos completou o seu primeiro ano de existência. Fruto de uma ideia que alimentava há anos, de criar um plataforma lusofona de bem-estar animal e ética animal. Tem sido um ano de crescente actividade, tanto da nossa parte como autores de posts, como da vossa parte como leitores e comentadores. Na realidade, somos todos animalogantes, e os vossos comentários contribuem em grande medida para a qualidade e o interesse deste blogue. 


Como podem ver, embora essencialmente portuguêsa, a comunidade de animalogantes é também internacional. Pouco mais sabemos sobre vocês, os leitores, do que isto. Quem são? Sobre o que gostariam de ler? O que procuram neste espaço de debate, o que faz falta?

Mais uma vez lanço o convite de além de ler e comentar, ainda escrever. Temos um espaço aberto para autores convidados – ver a coluna à direita. 

Passamos a contar com um autor convidado regular, Professor Peter Sandøe, Danish Centre for Bioethics and Risk Assessment, que abre o ano com uma pergunta que é sempre pertinente: Meat is murder?