Primeiros linces nascidos em cativeiro em Portugal


A notícia do nascimento de duas crias de Lince-ibérico (Lynx pardinus) no Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI), em Silves supreendeu todos, mesmo aqueles envolvidos no projecto de reintrodução desta espécie emblemática no nosso País. De facto, decorreram apenas cinco meses desde que os progenitores, Azahar e Drago, foram introduzidos no CNRLI, e a extrema facilidade com que os dois indivíduos se adaptaram às novas condições (e um ao outro) augura um futuro mais risonho para a espécie.

Não deixa de ser curioso, no entanto, que a campanha de recuperação do Lince Ibérico – o mamífero mais ameaçado da Europa e o felino mais ameaçado do mundo – não seja mais do que uma medida de compensação ambiental imposta por Bruxelas pela construção da Barragem de Odelouca, na Serra de Monchique, no Algarve. Já anteriormente, nos finais dos anos setenta, houve uma campanha nacional para salvar o lince da extinção que se saldou num rotundo fracasso.


A campanha da Liga Portuguesa para a Protecção da Natureza visava, como ilustra o poster, combater a industria da celulose e o crescimento da monocultura do pinheiro-bravo e do eucalipto em detrimento da vegetação autóctone. A campanha, ao fazer perigar o desenvolvimento económico, criou uma barreira intransponível entre os interesses humanos e os interesses da natureza (e os do lince em particular). A prioridade foi, claro está, para os interesses humanos mais imediatos pese embora as consequências nefastas a médio-longo prazo do monocultivo vegetal: maior vulnerabilidade aos fogos florestais, desertificação dos solos e diminuição de biodiversidade.

Muito caminho está ainda por percorrer para que o lince volte a fazer parte da fauna nacional. Tão importantes como a reprodução em cativeiro, são a recuperação das populações de coelho-bravo e a requalificação de habitats.

Uma barbatana no mar, outra na sopa

Recordam-se daquela montra no aeroporto com espécimes exóticos (não, não aquela com espuma de barbear e outros líquidos ilegais pós-2006!) que não podem ser introduzidos em Portugal? Que não podem, de facto, ser vendidos ou comprados em lado nenhum do planeta, pelo menos não oficialmente. O mecanismo que estabelece estas regras denomina-se CITES (Convention on the Trade in Endangered Species), foi estabelecido em 1975 e que acabou de concluir a sua mais recente reunião em Doha, no Qatar.

Pela primeira vez esteve em causa uma interdição envolvendo espécies de grande interesse para a pesca comercial – atum-rabilho (bluefin tuna, Thunnus thynnus) e várias espécies de tubarão. O primeiro é procurado sobretudo no Japão, os segundos na China. A estes dois países juntaram-se uma série de outros para vetar a interdição segundo relata New Scientist, passando assim a responsabilidade de gestão para as entidades de regulamentação da pesca comercial.

Enquanto este desfecho é visto como uma derrota por parte dos conservacionistas, é interessante observar que o consumo de barbatanas de tubarão não passa sem discussão na grande economia que é a China. Um motor importante deste debate tem sido Yao Ming, admirado estrela de basket e dono do clube com o nome apropriado de Shanghai Sharks. Veja neste videoclip, lançado em Dezembro do ano passado, o que supostamente acontece quando a estrela se recusa a consumir um dos pratos mais prestigiados da sua cultura natal.

Galinhas de quatro patas? Porque não?

A crescente demanda pela produção de carne está a expandir rapidamente a actividade pecuária. Como resultado da selecção genética directa, o ritmo de crescimento e conversão de alimento em músculo nos frangos de engorda são mais elevados do que para qualquer outro animal. Contudo, o crescimento acelerado destes animais resulta em fraqueza relativa dos membros posteriores, tendo por consequência um notório impacto no bem-estar dos animais e dificuldades de locomoção durante a última semana de vida. Em comparação com os frangos, os porcos são menos eficientes na conversão de alimento em carne e grandes instalações de produção destes animais são frequentemente apontadas como grandes poluentes dos cursos de água superficiais e subterrâneos.
Após um post-doc no Canada, “W”, um jovem investigador agora recentemente radicado numa universidade sueca sugeriu aplicar o seu conhecimento em biologia do desenvolvimento de modo a explorar a possibilidade de criar uma empresa spin-off para desenvolvimento de frangos geneticamente modificados de modo a que apresentem quatro membros posteriores (“pernas”) para dar resposta aos conhecidos problemas de mal-estar e poluição. Estes frangos teriam uma maior base de sustentação para o torso desproporcionado, apresentando ainda o dobro da parte mais apetecível e vendida do frango, as pernas.

Fonte da imagem: USAToday

Esta técnica parece resultar bem em Drosophila e resultados preliminares da aplicação desta tecnologia em frangos são promissores. De facto, galinhas com quatro patas ocorrem por vezes até espontâneamente, e “W” neste momento procura apoio financeiro para desenvolver técnicas qe permitam controlar esta mutação de modo a produzir sistematicamente destes animais, respeitando os mais elevados níveis de saúde e bem-estar.

Evidentemente, há questões a ponderar, desde o ponto de vista do veterinário até ao do consumidor final. Mas hoje em dia quem sabe de onde vêm realmente os “nuggets” das cadeias de fast-food?

Anfíbios: Uma Pata na Água, outra na Terra

Os anfíbios são animais desconhecidos e geralmente mal-amados. Para contrariar esta visão, propõe-se a exploração, de forma lúdica e interactiva, das características mais espantosas destes animais ameaçados. Nesta exposição, encontrar-se-ão rãs, salamandras, sapos e tritões de Portugal em aquaterrários que recriam os seus habitats naturais, juntamente com imagens de alguns dos melhores fotógrafos de natureza ibéricos, que permitirão observar a sua beleza e impressionante diversidade de cores, formas e comportamentos.

Saiba mais.

O que é um animal?

Recentemente fui abordada com a seguinte questão: se a manipulação das condições ambientais de micróbios constituía “experiências que impliquem o sofrimento físico ou psicológico de animais vivos, pela prática de actos de abuso, crueldade ou morte” (regra imposta no Concurso Nacional para Jovens Cientistas e Investigadores).

Fora a ambiguidade do que constitui “abuso, crueldade ou morte”, isto levanta a questão que usei como cabeçalho deste post. É verdade que os organismos vivos que não são plantas pertencem ao reino Animal. Mas será que consideramos todos os membros do Reino Animal, animais?

No caso em questão, propús como base o uso da legislação que regulamenta a experimentação animal. Nesta legislação estão incluídos todos os animais vertebrados mas (de momento) nenhum dos invertebrados. Quem pensou a lei (ou melhor, a directiva comunitária subjacente) provavelmente pensou que era entre os vertebrados e os invertebrados que devíamos traçar a fronteira tendo em conta, por um lado, a ‘complexidade sensorial’ dos organismos em questão e, por outro, os aspectos práticos de controlo e fiscalização.

Mas isso não corresponde necessariamente à percepção de senso comum do que é um animal. Penso que a maior parte das pessoas considera um polvo (que provavelmente virá a ser coberto pela futura directiva de experimentação animal) bem como um caracol e uma mosca (que continua a não ser considerada nesta legislação, apesar do papel importante que as moscas-de-fruta têm na investigação) como sendo animais. E que pouca gente considera um micróbio, seja de que género for, um animal.

O que é para si um animal (não-humano)? Onde coloca a fronteira?

Animais de Rua + Canil Municipal de Loures

Apesar do folclore televisivo, aqui está um bom exemplo de cooperação entre Canis Municipais e Associações Zoófilas. A Médica Veterinária do Município de Loures procedeu ao arresto de uma centena de cães, após um longo processo legal. A Associação Animais de Rua soube do caso e tomou a iniciativa de encontrar uma solução para a esterilização e adopção desses mesmos animais. A associação zoófila funciona, neste caso, como o veículo intermediário entre o canil municipal, outras associações e a sociedade, em vez de se sobrepor ao trabalho do Médico Veterinário Municipal (MVM). O que muitas vezes acontece é serem as associações a tomar nas suas mãos a missão de apreender animais vadios ou “maltratados” e a encontrar as suas próprias vias de adopção à revelia de qualquer controlo médico-veterinário.
A Associação Animais de Rua é um caso à parte no panorama nacional das associações zoófilas pelo facto de ter uma linha de rumo muito objectiva e definida: capturar, esterilizar e devolver animais errantes. Como não possui instalações próprias esta associação funciona em parceria com outras entidades ou associações, procurando sinergias.

Má sorte nascer com pelos e ter um dono "alérgico"

DN On-line, 16-Março-2010, Ver Vídeo

“Cresceu muito, roeu os sapatos, o filho tem asma, o marido não gostou…” As razões são muitas para se entregar o animal de estimação no Canil/Gatil Municipal de Lisboa. Afastando-me, para já, da discussão sobre a legitimidade moral de algumas destas asserções, gostava de sublinhar dois aspectos, referidos na peça, e que para mim são fundamentais para se compreender a problemática dos animais errantes/abandonados: o primeiro é a imagem do Canil Municipal como sendo o fim da linha, uma espécie de ante-câmara da morte; o segundo é a animosidade latente entre associações zoófilas e canis municipais.
1) O Canil como o fim da linha.
A imagem pública dos Canis Municipais não é a melhor; para a maior parte das pessoas os canis são o último destino daqueles animais que, se não reclamados, serão eutanasiados ao fim de uma semana. É uma imagem que não faz justiça ao trabalho desenvolvido pelos Médicos Veterinários Municipais (MVM), cuja associação ANVETEM eu convido a conhecer. Na verdade, o MVM é o profissional que melhor serviço pode prestar aos animais errantes/abandonados, quer na salvaguadra da sua saúde e bem estar quer em encontrar possibilidades de adopção.
2) A conflitualidade entre Associações Zoófilas e Canis Municipais.
Ao contrário dos anteriores, os canis/gatis das associações zoóficas são por muitos considerados as alternativas mais humanas para os animais errantes. Sem querer generalizar, não é essa a minha experiência. Como referido na peça, as melhores intenções das pessoas envolvidas no activismo pró-animal nem sempre são bem dirigidas e podem culminar em acções que limitam o expectro de acção ao animal que pretendem proteger esquecendo as consequências para os outros animais (como a transmissão de doenças) ou mesmo para a saúde pública. Não nego a importância das associações zoófilas mas defendo que o seu trabalho deve ser articulado em conjunto com o dos serviços oficiais para garantir três dimensões: saúde animal, bem estar animal e saúde pública.

A ética de um bom bife – Parte II

Com base nos aspectos ambientais e médicos do consumo de carne, num artigo na revista médica Lancet em 2007, um conjunto de especialistas mundiais recomenda um consumo médio de 90 g de carne por dia, ou seja pouco mais do que metade do actual consumo diário em Portugal. Calcula-se com esta medida obter grandes benefícios de saúde em países industrializados, onde uma redução do consumo de carne implicará uma redução da incidência de doenças cardiovasculares, obesidade e vários tipos de cancro. Permitiria ainda outro benefício médico: a possibilidade de, sem um acréscimo dos problemas ambientais globais, aumentar o consumo de produtos animais nos países em vias de desenvolvimento, onde o presente baixo nível de consumo de proteína constitui um risco para a saúde.

Reduzir o consumo de produtos de origem animal não implica tornar-se vegetariano. Pode implicar comer um pouco menos de carne por refeição, ou incluir algumas refeições vegetarianas na rotina alimentar. Ou porque não dar mais destaque aos pratos tradicionais, criados numa altura em que carne, por razões económicas, tinha que ser um ingrediente minoritário, e a fonte principal de proteínas ser vegetal: uma feijoada, umas tripas-à-moda-do-Porto ou uma sopa de pedra.

Reduzindo assim o consumo de carne, e sendo a carne um alimento caro, o consumidor vai gastar menos dinheiro. Este dinheiro podia ser investido na carne que de facto se vai consumir. Paradoxo? De maneira nenhuma, se consideramos o terceiro aspecto ético do consumo de produtos de origem animal: os próprios animais e o seu bem-estar. Com a pressão económica levando à intensificação da produção, restringe-se a liberdade de movimento e a possibilidade dos animais viverem segundo a sua natureza. Se nós como consumidores podemos pagar um pouco mais pelos menos quilogramas de carne que compramos, podemos antes optar pelos produtos com Denominação de Origem Protegida (DOP), de sistemas de produção locais e de raças autóctones, ou carne da produção biológica. Assim apoiaremos um modo de produção com regras que consideram não só o bem-estar animal mas também a nossa herança cultural e a biodiversidade e paisagem rural onde estes animais pastam.

Mas independentemente da origem da carne, o presente nível de consumo num país industrializado como Portugal não é sustentável. Ou seja, temos um consume de carne que faz mal a nós, aos outros animais e ao planeta. Temos aqui uma discussão que é urgente enfrentar, para que quem tem ética não tenha que passar fome!

A ética de um bom bife – Parte I

Haverá escolha mais quotidiana do que aquela que fazemos quando decidimos o que vamos comer? É uma questão de gosto, tempo, dinheiro – mas não só. Como muitas daquelas escolhas que são feitas por todos nós e todos os dias, as consequências vão bem além do nosso prato. Podem ir desde uma exploração agrícola em Portugal até à floresta tropical no Brasil, envolvendo no percurso questões de saúde pública e de alterações climáticas. Exagero? Pode parecer, mas é o que a ciência nos conta e a ética nos faz reflectir. E numa época tradicional de abstinência, faz sentido questionarmo-nos mais profundamente sobre que valores radicam as nossas escolhas alimentares e quais as suas consequências.

Começando pela questão ambiental – e no aspecto mais falado no momento, as alterações climáticas – a produção animal para consumo humano é um contributo significativo de emissões de gases estufa. Embora um valor controverso, um relatório das Nações Unidas aponta que até 18 % da produção mundial de gases estufa poderá ter origem na produção animal. Devem-se principalmente aos excrementos mas estão também associadas ao uso de matéria-prima oriunda de países tropicais para alimentação de animais. Isto constitui não só um risco para a floresta tropical, ao ser convertida em campos de soja, mas também implica o transporte por longas distâncias de enormes volumes entre os países onde se cultiva a matéria-prima da ração e aqueles onde se criam os animais. A produção animal tem outros efeitos ambientais mais próximos e mais visíveis em tempo real e ao olho nu: a gestão de efluentes com potencial de contaminar águas. Ambas as questões se devem ao facto de os animais serem conversores pouco eficientes de matéria-prima de alimentos em produtos para consumo humano. Um animal precisa de nutrientes não só para produzir a carne que consumimos mas também para alimentar o resto do corpo, e usa energia não só para crescer mas também para se movimentar e manter a temperatura. Tem que comer muito – e beber: para produzir um quilograma de carne, um bovino ingere em média 15000 litros de água. Em grande parte esta água é eliminada como urina e fezes, transportando consigo os nutrientes que não são aproveitados pelo animal. São estes nutrientes que, quando não correctamente tratados e integrados no ecossistema agrícola, podem dar origem às contaminações de água que conhecemos em áreas onde a concentração de pecuária é grande e o tratamento de efluentes precário.

Isto dito, não é o ser humano omnívoro sem razão nutricional. Carne, leite e ovos constituem para nós uma boa fonte de nutrientes importantes, sobretudo proteínas e minerais. É possível alimentar-se bem sem carne, mas é mais difícil. Por outro lado, uma alimentação equilibrada não implica comer tanta carne como comemos. O português consome em média 3 vezes mais proteínas de origem animal do que precisa, e com isto ingere 3 vezes mais gordura que o recomendado pelos nutricionistas. Enquanto a proteína em excesso é um desperdício, a gordura animal em excesso é um risco para a saúde. Está associada ao aumento de risco de desenvolver doenças cardiovasculares, a principal causa de morte em Portugal tal como no resto dos países industrializados.

Ver também A ética de um bom bife -Parte II.