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Darwin e a experimentação em animais – Parte II
Outro extracto das notas de Sir Thomas Farrer evidenciam como Darwin expressava vivamente essa posição também nas suas conversas:
“The last time I had any conversation with him was at my house in Bryanston Square, just before one of his last seizures. He was then deeply interested in the vivisection question; and what he said made a deep impression on me. He was a man eminently fond of animals and tender to them; he would not knowingly have inflicted pain on a living creature; but he entertained the strongest opinion that to prohibit experiments on living animals, would be to put a stop to the knowledge of and the remedies for pain and disease.”
too often, or anaesthetics have not been used when they could have been,
the cure must be in the improvement of humanitarian feelings.”
Para esquerda ou para a direita?
Pode ser que somos a única espécie de animal politico, mas não somos os únicos com tendências para direita ou para a esquerda – no que diz respeito a preferência física de uma pata sobre a outra ou um lado sobre o outro. Quando no laboratório treinamos um ratinho de executar uma tarefa com lateralidade, precisamos primeiro determinar se este ratinho tem uma preferência natural. Neste caso, para ter a certeza que estamos a medir a aprendizagem da tarefa em questão, escolhemos treina-lo a executa-la no lado contrário ao preferido. Mas lateralidade no mundo animal é mais do que ser canhoto ou não – saiba mais na ultima edição da New Scientist.
A mesma revista conta também a noticia da observação do comportamento de chimpanzés fêmeas depois da morte do bebé, e como estas resistem em se separar da cria mesmo evidentemente morta. A observação de um grupo de chimpanzés no distrito de Bossou em Guiné feita por uma equipa incluindo a investigadora portuguesa Cláudia Sousa da Universidade Nova de Lisboa, foi originalmente publicada na revista Current Biology.
Ratos desportistas
Ratos a jogar basketball?
Como é evidente, estes animais não estão propriamente a jogar basketball, mas antes a reproduzir um comportamento que sabem lhes trará uma recompensa (neste caso uma pequena porção de alimento de paladar agradável).
Não quero, contudo, dizer com isto que estes animais não são providos de inteligência e que agem como autómatos que controlamos a nosso bel-prazer. Bem pelo contrário, uma vez que, quer em condições naturais quer laboratoriais, os ratos tem mostrado um engenho impressionante, sendo capazes de desempenhar comportamentos muito mais complexos que passar uma bola num arco.
Eu já tive oportunidade de ver ratos em habitats super-enriquecidos e vou mesmo ao ponto de dizer que não só são hábeis na resolução de problemas, como também evidenciam “personalidades” distintas. Estas reflectem-se no modo por vezes diferenciado de como abordam desafios, e não só em características mais gerais como agressividade ou comportamento exploratório.
Posto isto, o que mais me admira não é a capacidade dos ratos para “jogar” basketball (algo muito básico para as suas potencialidades), mas o facto de dois ratos que suponho não se conhecerem se encontrarem e:
a) disputarem um recurso único
b) estarem num ambiente novo, muito iluminado e barulhento
c) poderem estar a recuperar do stress da viagem (ou mesmo “jet lag”)
e não aparentarem sinais óbvios de stress ou agressividade para com o outro. Do que conheço destes animais, isto só se explica se os competidores (humanos) tiveram em consideração estas variáveis e as procuraram colmatar de alguma forma. Se fosse eu (e não seria, pois não sujeitaria os animais a isto em nome do “entretenimento” e, mesmo que o fizesse, não seria de basket mas antes de futebol), tê-los-ia levado vários dias antes, habituá-los-ia previamente ao espaço e às condições adversas e apresentaria previamente os animais em competição, procurando habituá-los à presença um do outro. Ah, e escolheria fêmeas, o que amenizaría a questão do estabelecimento de hierarquia pela submissão do outro (ainda que o não suprimisse).
Nós e os Outros

No artigo Nós e os Outros publicado no Diário de Notícias do passado dia 17 de Abril, o Padre Anselmo Borges – teólogo, filósofo e docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – recupera o argumento da Cultura para diferenciar humanos de animais não humanos. Reproduzo aqui o trecho inicial da crónica (que aos animais diz respeito) mas recomendo a sua leitura integral. Vários argumentos têm sido ensaiados na literatura para justificar a diferença de valor entre humanos e não humanos nomeadamente racionalidade, linguagem, inteligência, consciência reflexiva, pensamento abstracto, liberdade, autonomia, o conceito emocional de paixão, etc, etc. De todos eles, tendo a identificar-me mais com a questão cultural. Se hoje sabemos que outras espécies animais são capazes de transmitir entre indivíduos métodos aprendidos através da experiência repetida – e que vão para além do determinismo genético – não deixo de partilhar a ideia de que o ser humano é um ser cultural e não apenas um ser capaz de transmitir cultura. É através da capacidade infinita de aculturação que o ser humano se constrói como indivíduo e como espécie. É a transmissão de cultura, como característica evolutiva bem desenvolvida, que permite ao ser humano seguir continuamente por caminhos novos e diferentes.
Mais afirmações do que informação sobre o biotério de Azambuja
Sábado passado, dia 24 de Abril, celebrou-se o Dia Internacional do Animal de Laboratório, pela segunda vez com uma marcha organizada pela Plataforma de Objecção contra o Biotério. Desde que, e graças a, o início deste movimento cívico temos um debate sobre experimentação animal que nunca antes houve em Portugal. Está na altura – indiscutivelmente é um assunto que se deve discutir.
No entanto, preocupa-me a abundância de afirmações e a escassez de informação neste assunto. Trata-se de um biotério comercial ou um biotério de apoio de investigação? De criação de que tipo de animais para que tipo de uso? Financiado com verba de que fundos?
Tendo seguido a informação na comunicação social sobre o assunto, continuo sabendo pouco mais do que foi dito no primeiro comunicado de imprensa apresentado pela Fundação Champalimaud em Novembro de 2008. E intriga-me tanto a criatividade de opiniões formadas com base em tão pouca informação por parte dos opositores como a falta de iniciativa de esclarecimento por parte da instituição proponente. A iniciativa da Plataforma foi essencial para iniciar o debate. Agora é importante que se esclareça os factos que deve formar a base para a discussão – não só a sobre este biotério em particular mas sobre o uso de animais e o potencial de introduzir alternativas em geral.
Temos uma oportunidade única de organizar um debate transparente e honesto em Portugal agora, uma vez que o cenário ainda é fresco e as opiniões (ainda?) não estão extremadas. Será que conseguimos agarrar esta oportunidade? Ou será utópico pensar que se possa discutir um assunto tão controverso com sinceridade e transparência?
As novas práticas (criminosas) dos movimentos extremistas anti-vivissecção
Recentemente, activistas pró-direitos dos animais nos Estados Unidos têm usado leis como o Freedom of Information Act (FOIA), bem como leis estatais – que determinam que dados sobre as experiências em animais conduzidas nas universidades e outros organismos públicos deverão ser fornecidas por estas a quem as solicitar – como base de fundamentação a ataques dirigidos a cientistas que conduzem experimentação animal no ramo da biomedicina. Estas leis, que promovem livre acesso à informação sobre investigação científica, trazem, em princípio, algo de bastante positivo, mas levantam algumas questões (não relativas a patentes e propriedade intelectual, cujos interesses salvaguarda), como por exemplo o facto de informação não revista no sistema de peer-review possa ser acedida, escrutinada e descontextuadamente tornada pública, por público não-cientista. A falta de formação específica na área e das convicções individuais (ou colectivas, de grupos extremistas) resultem em má interpretação ou uso deliberadamente abusivo dessa informação.
Uma das consequências mais preocupantes deste uso abusivo tem sido a mudança de alvo destes grupos terroristas, que passaram de atacar biotérios e instituições a concentrar os seus ataques a cientistas, e mesmo às suas famílias.
Em resposta a este problema, foi criada uma lista de linhas de acção a tomar por cientistas dos Estados Unidos sempre que requisitados a fornecer informação ao abrigo do FOIA, mas temo que, para a maior parte desses cientistas que trabalham com animais, a vontade de comunicar ao público informação relativa ao seu trabalho seja mínima, por medo dessas interpretações enviesadas e/ou de reacções injustificáveis.
Ainda na semana passada tive a oportunidade de falar num debate com cientistas que trabalham com animais no IGC sobre o facto das posições “anti” e “pró” experimentação animal se terem extremado a um ponto que tornava o diálogo muito difícil, e que deveria partir de nós fazer o que estivesse ao nosso alcance para, com assertividade, clareza, verdade e isenção, informar o público não científico do nosso trabalho e suas implicações. Mas se calhar assumo essa postura porque tenho a sorte de não trabalhar num país onde há grupos onde a ignorância, arrogância, irracionalidade e a violência são os principais factores de identidade e acção, como acontece nos EUA.
Experimentação animal: nova directiva em vista!
Quando escrevo artigos científicos, não é comum usar referências dos anos 80. O desenvolvimento no campo de investigação é grande, e normalmente já há tantas novas descobertas que um texto de 1986 é considerado desactualizado. Mas é deste ano que data a directiva que ainda regula a actividade de experimentação animal!
Finalmente temos em vista uma renovação desta legislação que é antiquada tanto em termos legais (efectivamente deixa de fora uma grande parte da investigação com animais, já que a então Comunidade Económica Europeia apenas podia legislar sobre actividades comerciais) como científicos. Como relata a revista científica Nature, a 7 de Abril alcançou-se um compromisso politico sobre um texto que estava em discussão desde há um bom par de anos.
Experimentação animal é, talvez, o assunto mais controverso no relacionamento humano com os outros animais, e é também o assunto que têm mais anos de debate, pelo menos no mundo moderno. Tudo isto tem sido bem visível no debate que antecedeu esta decisão. Por um lado, defensores dos (direitos dos) animais têm acusado cientistas e indústria de agir em interesse próprio e sobretudo económico. Por outro lado, cientistas têm acusado políticos de não dar ouvido à razão e activistas de pintar uma imagem errada de ciência. Como quem segue o link para o artigo de Nature pode ver no campo de comentários, o debate não acabou com a decisão sobre o texto da directiva.
Ainda não sabemos quando entrará em vigor, e para quando terá que ser transposta para a legislação nacional. Mas é claro que para Portugal esta directiva vai ter importância considerável, já que a legislação nacional em vigor é pouco mais do que uma transposição da directiva anterior. E é na questão de nivelar o campo europeu que a revisão é essencial. Não faz sentido que quando ciência é uma actividade internacional, as regras que ela segue sejam tão dispares como têm sido até agora na Europa.
Exactamente por ser tão controversa, é importante que esta actividade seja regulamentada. Se como cientistas queremos ser credíveis temos que poder mostrar que fazemos o que podemos. Acho, por isso, tanto estranho como triste ouvir cientistas – em países que já têm uma regulamentação mais extensa e exigente – criticarem severamente esta nova directiva. O uso de animais na investigação não é um direito adquirido, e a liberdade que tomamos em assumir este direito não é incondicional. Como argumento numa recente EMBO Reports, uma justa e correcta legislação pode trazer a ‘licença social’ que os cientistas bem precisam.
Primeiros linces nascidos em cativeiro em Portugal

A notícia do nascimento de duas crias de Lince-ibérico (Lynx pardinus) no Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI), em Silves supreendeu todos, mesmo aqueles envolvidos no projecto de reintrodução desta espécie emblemática no nosso País. De facto, decorreram apenas cinco meses desde que os progenitores, Azahar e Drago, foram introduzidos no CNRLI, e a extrema facilidade com que os dois indivíduos se adaptaram às novas condições (e um ao outro) augura um futuro mais risonho para a espécie.
Não deixa de ser curioso, no entanto, que a campanha de recuperação do Lince Ibérico – o mamífero mais ameaçado da Europa e o felino mais ameaçado do mundo – não seja mais do que uma medida de compensação ambiental imposta por Bruxelas pela construção da Barragem de Odelouca, na Serra de Monchique, no Algarve. Já anteriormente, nos finais dos anos setenta, houve uma campanha nacional para salvar o lince da extinção que se saldou num rotundo fracasso.

A campanha da Liga Portuguesa para a Protecção da Natureza visava, como ilustra o poster, combater a industria da celulose e o crescimento da monocultura do pinheiro-bravo e do eucalipto em detrimento da vegetação autóctone. A campanha, ao fazer perigar o desenvolvimento económico, criou uma barreira intransponível entre os interesses humanos e os interesses da natureza (e os do lince em particular). A prioridade foi, claro está, para os interesses humanos mais imediatos pese embora as consequências nefastas a médio-longo prazo do monocultivo vegetal: maior vulnerabilidade aos fogos florestais, desertificação dos solos e diminuição de biodiversidade.
Muito caminho está ainda por percorrer para que o lince volte a fazer parte da fauna nacional. Tão importantes como a reprodução em cativeiro, são a recuperação das populações de coelho-bravo e a requalificação de habitats.

