Texugos e Tuberculose no Reino Unido – Uma Relaҫão Complexa

Quando penso em texugos, espécie muito característica pelas grossas riscas brancas e pretas ao longo da cabeҫa, a imagem que me vem à memória é a de O Vento nos Salgueiros, série televisiva britânica da minha infância, baseada na novela infantil com o mesmo nome (The Wind in the Willows), do início do século passado.

O texugo europeu (Meles meles) pode ser encontrado um pouco por todo o continente mas é especialmente abundante nas ilhas britânicas. O velho Sr Texugo, personagem de O Vento nos Salgueiros, é sábio e solitário, preferindo a tranquilidade da sua toca ao buliҫo da superfície. Mas acontece que a realidade dos texugos britânicos pouco se assemelha à pacata vida do Sr. Texugo. Desde que estudos científicos descobriram que os texugos são o principal (?) reservatório do Mycobacterium bovis, e portanto importantes focos de transmissão da tuberculose bovina (bTB), que estes listrados mustelídeos nunca mais tiveram descanso.
Há décadas que o abate massivo de texugos (badger culling) tem sido a medida imposta pela autoridade sanitária no Reino Unido (DEFRA), de forma a prevenir a transmissão da tuberculose de texugos a animais domésticos (especialmente bovinos leiteiros, mas também cães e gatos) e destes a seres humanos (principalmente pelo consumo de leite não pasteurizado). Estima-se que entre 1975 e 1997, mais de 20 000 texugos tenham sido abatidos. Nos anos 80, os texugos eram gaseados no interior das suas tocas. Actualmente, os animais são mortos a tiro por caҫadores licenciados (marksmen) em montarias patrocinadas pela DEFRA, mas apenas em zonas rurais do sul de Inglaterra.

A eficácia do abate de texugos no controlo da doenҫa é alvo de um aceso debate e que está longe de estar resolvido. É sabido que outros animais silvestres, como veados, são também importantes focos de infecҫão natural, mas os texugos parecem ter garantido o estatuto de bode expiatório do falhanҫo de todas as medidas de controlo da tuberculose bovina. O governo mostra números a justificar o abate e de como a situaҫão da doenҫa seria muito pior do que a que existe hoje, caso os animais não fossem abatidos. O abate tem custado anualmente milhões de libras, pagas pelo erário público, e estudos independentes sugerem que traz poucos benefícios, para além do sentimento de seguranҫa para agricultores e consumidores. Especialistas alertam para o facto de que o abate localizado e de um número insuficiente de animais (terá sido isso que aconteceu este ano) não só torna a medida ineficaz como pode inclusivamente aumentar o risco de transmissão da bTB às espécies pecuárias, provavelmente porque os texugos infectados passam a ocupar nichos ecológicos maiores (e.g. podem percorrer maiores distâncias para procriar).

SOURCE: bbc.com

Além disso, a medida tem provado ser cruel já que até 18% dos animais demoram mais de cinco minutos a morrer, intervalo de tempo a partir do qual o abate é considerado ‘inumano’. E embora este seja um tema que tem dominado a opinião pública durante décadas e o enorme esforҫo financeiro envolvido, a verdade é que não existe actualmente investigaҫão sobre métodos de abate alternativos.

Em relaҫão a métodos alternativos ao abate, decorre desde Setembro uma campanha de vacinaҫão de texugos, Badger Edge Vaccination Scheme, também patrocinada pela DEFRA mas que depende da iniciativa privada para ser implementada. A ideia é criar um cordão sanitário (feita de texugos vacinados) entre zonas indemnes e zonas afectadas por bTB em animais domésticos, prevenindo-se assim a propagaҫão da doenҫa. Durante anos a vacinaҫão foi proibida pois havia o risco de se fazer passar animais portadores por animais vacinados, mas a estratégia mudou assim que se tornou evidente que o badger culling, por si só, não será suficiente para controlar a epidemia de bTB. Só em 2013, mais de 26 mil cabeҫas de gado, infectadas com tuberculose, foram abatidas no Reino Unido.

O Mocho Sábio – Uma sugestão de Natal

A história d’O Mocho Sábio “conta a história de um casal de mochos galegos, a Sancha e o Raimundo que estão apaixonados e escolheram um bonito local para viver. Mas a Sancha não consegue pôr ovos e anda muito triste. O casal tem um amigo sábio, o mocho Al-Kibir. O Al-Kibir vive na Quinta das Ardósias com o Dr. Alcobia, um sábio farmacêutico, reformado, cuja biblioteca faz as delícias do Mocho Sábio: aí aprendeu a ler e adquiriu conhecimentos que se vão revelar muito úteis.“
Este é o primeiro livro da colecção “A Vida Selvagem”, da Editora Escrivaninha. O livro é ilustrado por 24 aguarelas e conta com o prefácio de João Eduardo Rabaça, Professor de Biologia da Universidade de Évora.
Em associação com a ALDEIA, este livro pretende angariar fundos para o projecto STRI – Rapinas Nocturnas de Portugal. Especificamente, os lucros obtidos – 4€ por cada livro vendido – têm em vista a contribuição para a colocação de uma câmara de vigilância numa caixa-ninho de Tyto alba (Coruja-das-torres) para que seja possível acompanhar a nidificação de um casal desta espécie.
O preço de venda é de 10€. Para adquirir o seu livro, contacte a associação ALDEIA através do e-mail rias.aldeia@gmail.com.

"I don’t like you" – Jane Goodall e John Oliver

Numa curta entrevista com o brilhante John Oliver – o apresentador e humorista britânico que é hoje um fenómeno de popularidade nos Estados Unidos –  Jane Goodall revela o seu bom-humor (e paciência), sendo o mesmo utilizado como veículo para divulgar as principais descobertas da primatóloga ao longo da sua vida dedicada ao estudo dos chimpanzés. 

O que eu gosto mais desta entrevista é que, ao passo que a maioria das peças televisivas “sérias” tendem a romantizar a vida e trabalho desta investigadora, aqui não só isso não acontece, como é dada oportunidade a Goodall de de não se levar demasiado a sério, ao mesmo tempo que são abordadas questões sensíveis ao nível da investigação destes primatas, como a atribuição de nomes aos indivíduos, ao invés de números de referência. 

Goodall também não se coíbe de designar os seus comportamentos com a mesma terminologia com que nós, humanos, descrevemos os nossos comportamentos. Assim, para Goodall, comportamentos sociais como dar abraços, beijos e as mãos não são  “parecidos” ou “análogos” aos dos humanos, mas a mesma coisa, de facto. 

Eu não sou nada de antropomorfismos, mas acho que no caso de animais tão biologicamente próximos, estamos de facto perante comportamentos homólogos, salvas as devidas distâncias. 

Uma peça despretensiosa, interessante, didática e cativante como a comunicação de ciência deverá ser. Uns cinco minutos bem passados.

Estudos com animais em destaque nos Prémios (Ig)Nobel 2014

Os prémios Ig Nobel são a grande festa da ciência. Ao contrário do que muitos pensam, não são atribuídos a estudos mal feitos, ridículos ou de pouco interesse científico. Antes celebram o lado divertido da ciência, que frequentemente os próprios investigadores não se apercebem que pode existir nos seus estudos, até que alguém o aponta. 
No ano passado, referimos o destaque dado à ciência de comportamento animal, na forma do IgNobel atribuído a Tolkcamp e colegas pelo seu estudo, que demonstrou que a probabilidade de uma vaca se deitar não aumenta com o tempo que passa em pé.  Este ano, entre outros nobres laureados, os estudos em animais estiveram bem representados, com três estudos que, como é apanágio dos galardoados pelo comité IgNobel, primeiro nos fazem rir, mas depois nos fazem pensar. 
Fonte: Hart et al
O estudo que recebeu o Ignobel da Biologia envolveu milhares de observações realizadas pelo checo Vlastimil Hart e colegas, que demonstraram que, quando os cães fazem as suas necessidades, por vezes se alinham com o campo geomagnético da Terra. Apesar da metodologia usada ter sido hilariante, se pensarmos bem nisso, foi não obstante também rigorosa e adequada. 
Os autores introduziram assim um novo paradigma de estudo comportamental, definindo assim também uma nova metodologia. Acima, de todo, são as implicações da sua descoberta que se revestem do maior interesse: os cães  poderão ter grande sensibilidade magnética, à semelhança de algumas aves, algo que era desconhecido até agora. IgNobel da Biologia muito bem atribuído. 
Ao que parece, não é só o Grumpy Cat
que fica de mau humor…
O IgNóbel em Saúde Pública foi atribuído a Jaroslav Flegr e colegas, também da República Checa, pelo seu estudo em que procuraram aferir se o convívio com gatos tem implicações na saúde mental dos proprietários. Demonstraram que a toxoplasmose latente (que pode variar, de área para área, entre 20-80%) resultante do contacto com gatos poderá levar a alterações comportamentais em jovens mulheres, e aumentar o risco de esquizofrenia em homens. Os autores sugerem que as mulheres que convivem com gatos são mais inteligentes, tem maior sentimento de culpa, apreensão e insegurança e, possivelmente, uma maior propensão para se sentirem tensas, determinadas e agitadas. 
Uma das imagens bem-humoradas apresentadas pelos
autores na cerimónia de atribuição dos prémios, em Boston. 
Para terminar, o estudo galardoado com o IgNobel em Ciências do Ártico realizado pelas Norueguesas Eigil Reimers e Sindre Eftestøl, que observaram como renas do ártico reagem na presença de humanos disfarçados de ursos polares. Descobriram que, quando os humanos se encontravam vestidos de modo a assemelhar-se (à distância) com um urso polar, a distância de fuga das renas encurtava consideravelmente. Isto sugere a existência de uma relação presa-predador entre as duas espécies, o que tem implicações para a ecologia e conservação das mesmas. 
É de referir que, num altura em que estudos conduzidos em animais se revestem de tanta controvérsia, são galardoadas experiências inócuas para estes, o que implica que numa análise custo-benefício, não obstante à primeira vista ser difícil perceber a razão por detrás da sua realização, não levantarem questões éticas de maior. 

O Burro-de-Miranda – uma visita à sede da AEPGA em Miranda do Douro

Já por mais que uma vez falámos aqui do Burro-de-Miranda e do excelente trabalho da Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA) para a sua promoção e conservação. Recentemente, e a propósito das férias familiares, tive a oportunidade de poder visitar a sua sede, na aldeia de Atenor, Miranda do Douro, para conhecer in loco estes fantásticos animais e o meritório trabalho desta associação fundada em 2001.
Burriquitos nascidos este ano. Todos baptizados com nomes
começando por “J” (para o ano será com “L”, e por aí adiante)
(Foto: Nuno Franco)
Como estava apenas de passagem, optei pela actividade de mais curta duração (passeio de 1h30), ainda que a associação tenha outros passeios em que o contacto com os burros e a natureza envolvente assumem o papel central, e que podem durar até vários dias. Organizam e dinamizam ainda várias outras actividades, que incluem, por exemplo, o próximo workshop de Medicina Veterinária de Asininos, a realizar entre 25 e 28 de Setembro próximos.
Quem é, então, o Burro-de-Miranda? É essencialmente uma raça (subespécie?) asinina autóctone do nordeste transmontano, caracterizada por:

O “Lourenço”, de oito anos, um belíssimo
exemplar da raça. (Foto: NF)

– Pelagem comprida, grossa, de cor castanha 

– Grandes e peludas orelhas. Largas na base, redondas na ponta
– Peito largo, pescoço curto e cabeça volumosa
– Lábios grossos, focinho curto e branco na ponta
– Olhos rodeados por uma mancha branca.
– Estatura elevada, mais do que 1,20 m, idealmente com 1,35 m.
Os burros até nem gostam muito que lhes mexam
nas orelhas, mas este nem se queixou… (Foto:NF) 

São animais de temperamento muito dócil, ainda que apenas machos castrados e fêmeas sejam utilizados nos passeios (a associação dispõe de 6 garanhões, não castrados, para reprodução). Quer os juvenis quer os adultos com quem contactei procuravam activamente a presença e os mimos dos visitantes, tornando muito difícil não nos afeiçoarmos a estes animais.  

Foram muito populares no passado como animais de carga, de tracção e de transporte, mas encontram-se hoje ameaçados. Existem em todo o país cerca de 800 fêmeas, ainda que apenas 400 estejam em idade reprodutora, o que coloca a raça na lista de animais ameaçados.

A longevidade dos animais de trabalho é de cerca de 30 anos, mas prevê-se que os animais que se encontram nas instalações da AEPGA possam chegar aos 40 anos de idade. 

Nas instalações da AEPGA, que incluem um terreno com 14 hectares, residem hoje 70 burros, (tendo começado com 20), catorze dos quais nasceram este ano, o maior registo de sempre. Por limitações de ordem logística (a associação não conta com qualquer apoio do município de Miranda do Douro), a associação vende ou cede animais para vários locais do país. No distrito do Porto podem ser encontrados, por exemplo, na Fundação de Serralves ou no Parque Biológico de Gaia.

A associação conta com dois médicos veterinários a tempo inteiro, que se encarregam da monitorização dos animais da associação, mas que também fazem acompanhamento veterinário de outros burros na região, por um valor simbólico, dada a idade e perfil sócio-económico da maioria dos proprietários de gado asinino na região.

Nada é deixado ao acaso pela equipa veterinária da AEPGA,
como se pode constatar neste quadro. (Foto: NF) 

Já o passeio em si, foi uma experiência muito positiva e didáctica. Toda a família adorou e eu confesso que me apaixonei por estes belos animais. Partilho com os animalogantes alguns destes momentos passados em Atenor na companhia dos Burros-de-Miranda, aproveitando ainda para recomendar esta experiência a todos que gostem de animais, de contacto com a natureza e de aventura.

Fotos: Nuno Franco
 

Petição para abolir a caça à Rola-Brava

 A QUERCUS lançou uma petição para proibir a caça à rola-brava (Streptopelia turtur). Se não concorda com a caça não lhe será difícil assiná-la. Mas mesmo que seja caçador, ou de alguma forma adepto da caça, esta petição é também para si. De facto, a rola-brava já foi no passado uma das aves mais abundantes da nossa avifauna, e daí ser chamada também de rola-comum. Mas qualquer caçador saberá que hoje em dia caçar uma rola é uma raridade e poucos serão aqueles que o farão sem se questionarem sobre o futuro da espécie.
Esta petição, da autoria da maior associação nacional de conservação da natureza, está longe ser perfeita; seria mais razoável pedir uma suspensão da caça por um período de, p.e., uma década em vez da liminar proibição. Os poderes políticos, por norma, não gostam que as coisas lhes sejam impostas, mas antes sugeridas. Não vem acompanhada por dados científicos sobre a ocorrência da espécie no nosso país, dados esses que existem e que, além disso, oferecem possíveis soluções para prevenir o seu declínio. Também não se compreende a alusão às aves aquáticas e ao uso do chumbo no mesmo documento, numa espécie de “já agora”. A meu ver, cada tema deve ser tratado separadamente e com devida profundidade, o que não é o caso.
Ainda assim, por uma gestão cinegética sustentável, é importante suspender a caça à rola-brava e por isso assino esta petição.

Dia Internacional do Burro

Hoje, 8 de Maio, celebra-se o Dia Internacional do Burro. Comemoram-se assim estes animais que, ao longo dos séculos, têm trabalho em cooperação com os humanos não só como meio de transporte de pessoas e mercadorias, mas também como preciosos ajudantes na agricultura, para uso recreativo e até sendo usados para fins terapêuticos. 
É particularmente importante assinalar esta efeméride devido à ameaça de extinção que enfrenta a única raça autóctone portuguesa de gado asinino, o Burro de Miranda. 

A Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA) – que trabalha no sentido de conservar o Burro de Miranda – convida assim os seus apoiantes a tirar uma fotografia ostentando com orgulho umas orelhas de burro, para lembrar o valor do burro em Portugal e no resto do mundo onde, principalmente nos países em desenvolvimento frequentemente vivem num estado de saúde e bem-estar abaixo do limiar do aceitável, por desconhecimento ou falta de recursos das famílias que tanto deles dependem.  
As cinco melhores fotografias serão seleccionadas e os respectivos participantes convidados a passarem um dia com os burros como prémio, tendo direito a participar nos trabalhos diários de alimentação e manutenção do Centro de Valorização do Burro de Miranda, a fazer um passeio de uma hora e a apadrinhar um dos animais. 
Procura assim a AEPGA promover a mensagem de que “o burro é um companheiro precioso que merece ter uma vida com qualidade, saúde e felicidade, e de que o Burro de Miranda, em particular, precisa de protecção.”

Petição para abolir o uso do Diclofenac na Europa

Fonte: BBC – Poisoning drives vulture decline in Masai Mara, Kenya
Está a decorrer uma petição enderaçada aos Comissários Europeus do Ambiente e da Saúde para abolir o uso do medicamento veterinário Diclofenac no espaço europeu. Este anti-inflamatório não esteróide é usado há décadas no combate da dor e inflamação em ruminantes (bovinos, ovinos e caprinos). Trata-se, no entanto, de uma droga altamente nefrotóxica noutras espécies, nomeadamente cães e aves. Especialmente vulneráveis são as espécies necrófagas – como os abutres – que se alimentam das carcaças de ruminantes medicados com diclofenac. Segundo o Programa Antídoto-Portugal:

dados relativos à mortalidade massiva de várias espécies de abutres em países asiáticos, nomeadamente na Índia e no Paquistão (…) revelaram que a elevada diminuição anual de adultos e sub-adultos se devia à insuficiência renal que era provocada pela ingestão de cadáveres com resíduos de Diclofenac, um anti-inflamatório de uso veterinário com que os ruminantes são medicados naquela região (Oaks et al. 2004).

Com o advento de novas drogas mais seguras e eficazes (como o meloxicam) o uso sistémico de diclofenac não apresenta qualquer benefício (para os animais tratados, a saúde pública e as espécies selvagens) que não seja o seu baixo preço. No entanto, a sua comercialização é permitida em Espanha e Itália, onde residem 80% dos abutres da Europa. Acresce o facto de que qualquer medicamento veterinário vendido em Espanha rapidamente se torna disponível em Portugal, já que existe um mercado paralelo que permite que os produtores pecuários se abasteçam, sem grandes dificuldades, de medicamentos para os seus animais no país vizinho.

O valor ecológico dos abutres – espécies que podem ser facilmente avistadas em Portugal nas regiões raianas do Tejo e do Douro Internacional – é inestimável e o seu papel na remoção de carcaças e prevenção de doenças insubstituível. Assinar a petição é, por isso, um dever de cidadania.

Outra vez Marius, e o abate de animais saudáveis em Zoos.

O caso de Marius – a girafa que foi abatida no Zoo de Copenhaga, necropsiada em público e dada de comer aos leões – continua a dar que falar. No vídeo aqui reproduzido podemos observar como o Director do Zoo de Copenhaga, Bengt Holst, procura defender-se de forma serena do criticismo apaixonado por parte do jornalista do Channel 4, Matt Frei. Esta entrevista espelha bem o confronto de valores entre duas formas muito diferentes de entender o papel dos animais na sociedade.
O Director do Zoo justifica a prática como sendo uma aproximação à natureza. No estado selvagem a girafa também é comida por leões e a autópsia pública permite um exame naturalista do interior de uma girafa, com evidentes benefícios pedagógicos. Em resposta à pergunta ‘Gosta de animais?’ Bengt Holst responde que sim, em função de manter populações saudáveis. Para Bengt Holst, o valor moral está no grupo ou população e não tanto nos indivíduos que compõem o grupo. Por outras palavras, o todo vale mais do que a soma das suas partes.
O jornalista, por seu lado, procura enfatizar a componente emocional, usando termos como ‘crueldade’, ‘desmembramento’, ‘crianças horrorizadas’, e acusando o entrevistado de usar uma linguagem ‘clínica e fria’. Para ele, o valor parece estar nas relações que nós humanos estabelecemos com os outros animais. No entanto, Matt Frei não é capaz de articular um único argumento válido para contrapor as justificações do entrevistado. Mais do que o abate em si, o jornalista parece chocado com o facto de Marius ter apenas dois anos e ser saudável. Mas não parece fazer sentido esperar que os animais fiquem doentes ou velhos para que o seu abate se torne permissível.
A discussão enfatiza a diferença fundamental entre o abate de Marius e o abate de outros animais selvagens (como coelhos e roedores) para controlo das suas populações: a qualidade de “praga”. Aqueles mamíferos silvestres que são considerados pragas podem ser abatidos, mas o mesmo não se passa com girafas em zoos. A resposta de Holst espelha bem este dilema: mas quem decide o que é uma praga?
Uma crónica publicada ontem por Hannah Barnes, jornalista da BBC, procura contextualizar o abate de animais em Zoos. Trata-se de uma prática recorrente na gestão de um Zoo, nomeadamente daqueles que são membros da Associação Europeia de Zoos e Aquários (EAZA). Segundo a jornalista, na semana anterior ao escândalo de Marius um outro Zoo dinamarquês, o Odense Zoo, tinha abatido dois leões. Os exemplos de abate incluem ainda zebras no Reino Unido, hipopótamos em Portugal ou crias de tigre na Alemanha. Para mim, o mais curioso desta história é que à medida que os Zoos melhoram as usas práticas e a qualidade de vida dos animais em cativeiro aumenta, mais hipóteses existem destes se reproduzirem e maior número de animais terá de ser abatido para manter populações captivas saudáveis.