O consumo excessivo – Samsara


La surconsommation (o consumo excessivo), assim se chama o pungente vídeo que circula na internet. Trata-se de um excerto do documentário Samsara de 2011 (realizado por Ron Fricke), uma experiência visual  absolutamente assombrosa sobre as assimetrias do nosso maravilhoso, e ao mesmo tempo aterrador, planeta Terra. O filme percorre os cinco continentes e demorou quase cinco anos a ser filmado.

O excerto em causa parece passar-se na China e retrata o superlativo da massificação da pecuária industrial, fazendo depois a ligação para o consumismo e a obesidade. O realizador tem o cuidado de descrever (através da imagem já que o filme não tem comentários) aspectos de três das mais importantes formas de produção pecuária: a apanha mecânica de frangos de engorda (broilers), as celas de amamentação de porcas e a ordenha mecânica em bovinos leiteiros. Um quarto aspecto, o do trabalhador humano, também não é esquecido. O traveling lento da câmara de alta definição permite-nos deter sobre pequenos pormenores e qualquer um deles merecia um comentário demorado. As imagens muitas vezes aceleradas transmitem uma sensação de urgência que, aliada à escala quase sobre-humana dos espaços, nos impele a reflectir sobre os nossos hábitos de consumo e sobre as suas consequências. Mal posso esperar por ver o filme completo. 

Pastoreio e publicidade

A associação Djurskyddet Sverige (Animal Welfare Sweden) denunciou recentemente à Agência Sueca dos Consumidores um filme de publicidade da margarina Bregott* como sendo publicidade enganosa.

O filme que está em causa chama-se Kvalitetskontroll i Bregott-fabriken (controlo de qualidade na fábrica de Bregott) e mostra um vitelo a mamar uma vaca num pasto ao ar livre. Não é este o filme denunciado, mas podia ser, pois o que está em causa também consta nele:



Segundo a legislação sueca, as vacas leiteiras devem ter acesso a pastoreio por 2 a 4 meses durante o periodo 2 de maio a 15 de outubro. No entanto, esta regra não inclui vitelos e na Suécia, à semelhança do que acontece noutros países industrializados, não é costume manter os vitelos junto com as vacas leiteiras.


Algo semelhante se passa em Portugal. A imagem acima ilustra a presente campanha de publicidade da principal empresa de setor de leite no norte do país. Sendo que o sistema predominante de produção na região implica manter as vacas permanentemente estabuladas, o que diria a DECO?

Uma sugestão, para a publicidade na imagem acima deixar de ser problematica, bastava uma simples alteração. Se as embalagens de leite não fossem da linha principal da empresa, mas da sua linha de leite produzido em modo biológico, já seria correto publicitar com as vacas no pasto. 

*Bregott é fabricada pela indústria leiteira a partir de manteiga a qual se adiciona óleo de colza e água para gerar um produto menos gordo e possível de barrar em frio. O produto existe desde 1969 e foi sempre publicitado como uma alternativa mais natural à margarina convencional.

Genetica molecular e bem-estar animal – entrevista com Per Jensen

Olá Per Jensen, professor de Etologia e coordenador do grupo de investigação AVIAN na Universidade de Linköping, na Suécia. Parabéns pela atribuição do European Research Council Advanced Grant para o projecto Genetics and Epigenetics of Animal Welfare (GENEWELL)! Podias por favor explicar aos nossos leitores um pouco mais sobre este projecto? 

O plano é estender a nossa actual linha de investigação em genética e epigenética do comportamento em galinhas, mas também abrir uma nova linha de investigação deste tipo em cães. Estou particularmente interessado em aprofundar o conhecimento em bem-estar animal, nomeadamente como é que os animais são afectados por experiências stressantes, como lidam com estes desafios e como a habilidade para o fazer é afectada por factores genéticos e epigenéticos. Tradicionalmente, tem-se focado a pesquisa em bem-estar nas interacções entre animais e o seu ambiente, como por exemplo no que diz respeito às necessidades comportamentais de cada espécie. Estou interessado em perceber como isto é afectado pelos genes do animal, e também como é afectado pela intensa selecção de que os animais são alvo face às condições de produção modernas. Investimos vários anos no mapeamento de genes relacionados com o comportamento, stress e bem-estar em galinhas e queremos agora fazer estudos semelhantes em cães. O melhor amigo do homem tem sido criado para manifestar diferentes comportamentos há centenas de anos, e isto abre uma oportunidade de ouro para encontrar genes relacionados com as diferenças entre as raças. Por exemplo, que mecanismos genéticos fazem com que algumas raças sejam capazes de lidar melhor com situações stressantes, ou para colaborar com humanos? Esta é uma abordagem relativamente nova na investigação do bem-estar animal, e penso que dará uma contribuição fundamental para o nosso entendimento da biologia animal, no seu todo. 

A genética molecular tem sido vista como uma revolução, num certo sentido, em muitas áreas de investigação em ciências da vida. Em muita da investigação biomédica, por exemplo, tem permitido aos cientistas identificar mutações determinantes para certas doenças, bem como criar modelos melhorados destas doenças. Estas ferramentas demoraram mais a entrar na ciência de bem-estar animal. Que importantes descobertas podemos esperar do uso da genética molecular nesta área?

A visão tradicional em Biologia tem sido que os animais nascem com um determinado conjunto de genes estáveis que só se alteram gradualmente e ao longo de muitas gerações pela acção da selecção de mutações aleatórias. No entanto, tem sido cada vez mais evidente que o modo como os genes são expressos e interagem pode mudar ao longo da vida. Ao conjunto de mecanismos que regulam este fenómeno – mudando o modo como os genes funcionam sem contudo alterar a sequência de DNA –chamamos “epigenética”. Penso que podemos ter subestimado até que ponto esta orquestração do genoma é afectada por situações stressantes ao longo da vida, e como isto por sua vez altera a habilidade de um animal de se adaptar a vários desafios. Têm sido demonstrados inclusive efeitos epigenéticos transgeracionais, de modo que o stress numa geração pode afectar descendentes que ainda não nasceram ou eclodiram
 
Espero vir a compreender como mutações, por exemplo aquelas acumuladas durante a domesticação, afectam o sistema de controlo do stress e como os mecanismos epigenéticos podem calibrar e modificar todo este sistema. A relação entre os genes e as interacções ambientais são bem conhecidas em ciência: o modo como um gene em particular afecta o fenótipo depende do ambiente em que o animal vive. Agora queremos acrescentar ao epigenoma e estudar interacções entre três factores: alguns genes podem causar variação epigenética, que por sua vez afectam a expressão génica e tudo isto modela o fenótipo, que depende ainda do ambiente. A maior parte deste trabalho será realizado em galinhas mas, usando cães e a imensa variação entre as diversas raças, esperamos poder encontrar genes e mutações que possam explicar variações no modo como os animais se adaptam a diferentes circunstâncias.

Perguntei acima acerca de importantes descobertas futuras. Podemos no entanto já ter algumas descobertas importantes? 

Sim, sem dúvida. Por exemplo, localizámos nas galinhas dois importantes genes, onde mutações têm vindo a ser seleccionadas pelo processo de domesticação. Ao estudar galinhas portadoras dessas mutações e comparando com o seu antecessor (o galo selvagem) continuaremos a tentar entender todos os seus efeitos fenotípicos. O primeiro gene (TSHR) codifica para o receptor da hormona estimulante da tiróide. Este gene está aparentemente envolvido no desenvolvimento e maturação sexual e poderá afectar o comportamento e a resposta ao stress. O outro gene no qual já estamos a trabalhar codifica para o alfa-adrenoreceptor 2c (ADRA2c). Este é um auto-receptor que calibra a resposta ao stress pelo sistema nervoso autónomo e é possível que desempenhe uma função fundamental na regulação do modo como o stress é experienciado pelas aves. Encontrámos grandes diferenças numa das mais importantes variantes epigenéticas (chamada metilação do DNA), entre galos selvagens (Red Junglefowl) e domesticados da variante White Leghorn. Queremos agora descobrir qual a diferença fenotípica entre estas duas aves. Parece claro que a domesticação levou a enormes mudanças na regulação do genoma, mesmo que as diferenças na cadeia de DNA em si sejam pequenas.

World Spay Day

Há alguns problemas inerentes em tentar apelar ao dia mundial de castração…Mas o evento marcado para dia 19 de fevereiro chama a atenção pela importância de controlar a reprodução de animais de companhia.

World Spay Day 19/2 2013

No que diz respeito a pequenos animais que vivem com um dono e cuja interação com outros animais acontece sob supervisão, há outras maneiras de fazer o ‘planeamento familiar’. Mas para os animais que estão na fronteira entre a vida doméstica e a vida selvagem, como muitos gatos e alguns cães, a escolha é essencialmente entre castração e morte.

Desde que debatemos este assunto aqui no animalogos tive a oportunidade de observar os efeitos de uma campanha de Capturar-Esterelizar-Devolver (CED) na rua onde vivo no centro do Porto. Foi a  Associação Animais de Rua que levou a cabo a campanha em julho de 2011. Embora a minha observação seja pontual e não sistemática, os efeitos são claramente visíveis. O mais evidente foi a completa ausência da habitual feira de gatos em cio durante os meses de janeiro, fevereiro e março no primeiro ano. Agora no segundo inverno parece que alguns machos de outras zonas aproveitaram o território agora aberto, porque já se ouve algum miar noturno, e ontem observei um desconhecido no nosso jardim. No entanto, continua-se a ver apenas gatos em bom estado de saúde que calmamente aguardam a próxima refeição na zona da rua onde as habituais senhoras lhes deixam comida. Nada de gatos magros,doentes ou esfomeados. Quanto ao efeito nefasto sobre a vida selvagem – bem, estamos no centro da segunda cidade do país, não é?

Quem quer contribuir para a atividade desta organização pode ver as opções aqui

O que há de errado em comer cavalo por vaca ?

Matadouro Romeno
Photo:Daniel Mihailescu – AFP
O escândalo da carne de cavalo que estalou no Reino Unido há duas semanas não dá sinais de abrandar. A troca, propositada, de carne de vaca por carne de cavalo em produtos transformados (hambúrgeres, lasanhas, recheios) é um problema que envolve toda a Europa e que revela as fragilidades do mercado europeu de produtos de origem animal. A carne de cavalo já foi entretanto detectada noutros países como a Alemanha ou a França, estando para já Portugal fora deste mercado negro que parece ter origem na Roménia.
Duas questões principais se colocam com esta crise: uma diz respeito à quebra do elo de confiança com consumidor, que deixa de ter razões para crer na informação que vem nos rótulos; a segunda, mais grave, prende-se com os potenciais riscos de saúde pública em comer carne cujo estado sanitário se desconhece. Um dos perigos associados ao consumo de carne de cavalo é a presença do anti-inflamatório fenilbutazona. O Ministro David Heath, da DEFRA, confirmou a presença do fármaco em 8 das 206 amostras testadas pelos seus laboratórios, mas em valores considerados residuais e que portanto não constituem um risco para a saúde pública. Mas outros riscos poderão ainda emergir.
O horror com que a presença de carne de cavalo foi encarada no Reino Unido tem razões históricas. Por um lado, este caso ameaça tornar-se o maior escândalo no sector agro-alimentar europeu desde a crise das vacas loucas  nas décadas de 80 e 90 do século passado, que também teve origem nas Ilhas Britânicas. Por outro lado, não é de desprezar o facto dos britânicos serem um povo de horse lovers. Para os britânicos o cavalo é o animal de estimação por excelência, e a sua presença tem uma importância – na paisagem e no imaginário colectivo – muito superior àquela que a maioria de nós lhe reconhece. Para muitos, portanto, comer cavalo é uma ideia aberrante, como para outros será comer cão ou outro animal de estimação.
Em Portugal não existe também o hábito de comer carne de cavalo, mas as razões parecem ser diferentes. A mim, não me faz confusão nenhuma comer um bife de cavalo mas já não concebo a ideia de comer gato por lebre. Como diz Miguel Esteves Cardoso no Fugas de hoje, “aquilo que mais nos deve horrorizar  não é a presença de carne de cavalo mas a distância insondável entre o consumidor e o animal (ou animais) cuja carne está a comer.” Como omnívoro que sou, não podia estar mais de acordo. O mesmo problema se põe, por exemplo, com o leite. Existem marcas, como a Auchan, que importam leite (a granel) de França. O produto é depois embalado em Portugal e é-lhe atribuido o selo de produto nacional. Ora nada disto é transparente. Eu não tenho nada contra o leite francês ou mesmo contra os cavalos romenos. O que eu quero é saber o que estou a comer e saber também, sem sombra de dúvidas, a origem e a forma como aqueles animais foram criados. 

“Uma só Saúde” – bom ou mau para os animais?

Por Peter Sandoe

De acordo com o conceito de Uma Só Saúde, a verdadeira razão para o trabalho do veterinário é prevenir doenças humanas, como por exemplo zoonoses transmitidas a partir de animais doentes para os seres humanos através dos alimentos. Desta forma, a medicina veterinária aproxima-se da medicina humana. Tem sido defendido que esta visão não deve levar a uma menor consideração dos animais e que, pelo contrário, está destinada a ser uma situação de mútuo benefício, onde a saúde humana é assegurada através da garantia de saúde animal e do seu bem-estar.

No entanto, isso não parece ser de todo verdade. Se o objectivo é o de proteger os seres humanos, tanto quanto possível, da exposição a doenças contagiosas, a solução mais eficaz passará frequentemente por diminuir o contacto entre os animais e as potenciais fontes de contaminação externas. A consequência para um número considerável de animais de produção será mantê-los sempre fechados. Isso é bom para a segurança alimentar, mas será ideal para o bem-estar animal?
O movimento Uma Só Saúde tem sido, até agora, focado na prevenção da transmissão de doenças de animais de produção de animais selvagens para o ser humano, mas a World Small Animal Veterinary Association uniu forças com a OIE para incluir também animais de companhia, argumentando que estes têm um efeito directo na promoção da saúde humana em situações que vão desde a educação das crianças, passando pelo auxílio na recuperação de doenças, até ao acompanhamento de idosos. Isto é, os efeitos positivos dos animais de companhia para a saúde humana também desempenham um papel na perspectiva de Uma Só Saúde. Mais uma vez, os animais estão lá, mas não em seu próprio direito. O conceito Uma Só Saúde parece ser construído na premissa de que, no final do dia, apenas a saúde humana conta. Parece-me que este é um conceito questionável para os veterinários assinarem.
Em vez disso, poder-se-ia tentar dar a volta à discussão e ver os problemas de saúde comuns da perspectiva dos animais. Pode-se, por exemplo, considerar como os estilos de vida humana pouco saudáveis contribuem para a epidemia de obesidade em cães e gatos. Para melhorar a saúde animal ter-se-ia, naturalmente, que fazer o desvio para ajudar os humanos a alcançar uma vida melhor. Que com isso se geraria também mais saúde humana e com melhor qualidade de vida seria, de um ponto de vista veterinário, um efeito colateral positivo, mas não o objectivo principal.
(Adaptado de uma coluna no Dansk Veterinaertidskrift)

Seguir a discussão sobre senciência

O sítio Animal Mosaic (elaborado pela World Society for the Protection of Animals) organiza uma série de debates entre cientistas e o público para explorar o tema de senciência não-humana.

Clicar para aceder ao site. 

Em janeiro, Victoria Braithwaite (professora catedrática em pescas e biologia da Penn State University) e Paula Droege (professora de filosófia da mesma universidade) abordaram a questão São os peixes conscientes e sencientes? Uma transcrição do debate está disponível on-line.

Dia 21 de fevereiro, o tema será Pesar a evidência: os invertebrados são sencientes? e os intervenientes Robert Elwood (professor catedratico de comportamento animal da Queen’s University, Belfast) e Melissa Bateson (professora catedratica de etologia da Newcastle University). Este debate tem lugar às 15h e pode ser seguido em direto.

Portugal não aplica as normas mínimas de protecção de suínos

Comissão Europeia deverá lançar, em Fevereiro, um processo de infracção contra Portugal devido à não aplicação de uma directiva comunitária sobre normas mínimas de protecção de suínos, relata Renascença. 

Infelizmente Portugal está acompanhado por mais 16 países nos quais não foi conseguido  que os agricultores alterassem as instalações durante o período de 10 anos que lhes foi dado. Mas segundo o relato da Renascença nenhum país tem aplicação tão baixa como Portugal, onde só 58% dos produtores têm as condições exigidas para porcas parideiras.

Claro que é uma altura muito pouco feliz para lançar uma notícia com estas palavras:

Mesmo quem tem um pensamento mais equilibrado do que o típico ressabiado comentador de notícias on-line há de reagir com uma boa dose de cepticismo numa altura em que abundam as notícias sobre os números crescentes de famílias com água e luz cortadas e crianças que só comem na escola. Não ajuda a fotografia escolhida para ilustrar a notícia que não tem nada a ver com as alterações importantes que a diretiva 2001/88/CE introduz.

Não se trata de se preocupar mais com os animais do que com as pessoas. Trata-se de abandonar um sistema de alojamento no qual as porcas parideiras podem viver a sua vida inteira amarradas ou enclausuradas em jaulas

 
Antes da entrada em vigor desta diretiva era permitido alojar as porcas durante a gestação neste tipo de celas, pouco maiores do que o corpo do próprio animal, não podendo este sequer virar-se 180º. Passados os 3 meses, 3 semanas e 3 dias de gestação  é dada a oportunidade à porca de caminhar um pouco para chegar às instalações onde ocorre parto e período de aleitamento, um total de cerca de 4 semanas. Depois volta para a cela de gestação. 

Os sistemas alternativos não são isentos de problemas, os quais podemos discutir a seguir. Mas, francamente, o sistema de confinamento contínuo não é vida para um ser vivo inteligente e ativo!