Author: Manuel Sant'Ana
Foie-Gras – adaptação ou violação ?
Para produzir foie-gras, é necessário forçar a alimentação de patos e gansos, de forma a provocar uma alteração hepática caracterizada por acumulação de matéria gorda com aumento de tamanho (hepatomegália – ver figura), e que pode levar à diminuição de função (insuficiência hepática) e mesmo à falência total.
Três quartos do foie-gras a nível mundial são produzidos em França. Aliás, os franceses têm uma palavra para descrever o processo de alimentação forçada, gavage, que eu penso não ter correspondência directa noutras línguas.
O artigo científico, da autoria de investigadores da Universidade de Toulouse, vem dizer que o foie gras só é bom se for proveniente de figados “saudáveis”, isto é, plenamente funcionais. Embora o artigo vise apenas as características organolépticas do produto final, podemos tecer considerações mais abrangentes sobre o bem-estar animal. A primeira implicação desta conclusão é a possibilidade de obter foie-gras de animais clinicamente saudáveis, o que me parece fazer sentido, já que o figado gordo é uma característica adaptativa de aves de espécies migratórias de forma a suportarem longas jornadas de jejum. A segunda, que deriva da primeira, é que esta conclusão abre uma janela de oportunidade para se estabelecerem guidelines que caracterizem o que é um figado gordo saudável, com óbvios benefícios para os animais.
Lembro-me do Professor Ian Duncan, um dos pioneiros da ciência do bem-estar animal, me ter dito uma vez que tinha sentimentos ambíguos em relação ao foie-gras, já que, da sua experiência, não via qualquer sinal de stress nos animais ao serem alimentados dessa forma e que os próprios procuravam o alimentador, ao invés de fugirem dele. Mas isso não impede que a indústria do foie-gras seja alvo de grande contestação por movimentos activistas como a Stop Gavage, a Stop Force Feeding e a No Foie Gras.
Caros animalogantes, termino com a pergunta deixada no artigo do The Economist: “Ambos os lados do debate estão certos. A produção de foie-gras pode ser uma forma de abuso, mas não é necessariamente assim, pois um aumento do fígado pode ainda ser saudável. A questão é, onde estabelecer a fronteira (do aceitável)?”
ACTUALIZAÇÃO: O Jornal Público informa que na Califórnia entrou em vigor uma lei que proíbe a produção e venda de foie gras (01-07-2012).
O Elo Homem-Animal e a Lâmina de Ockham
http://sicnoticias.sapo.pt/skins/sicnot/gfx/jwplayer/player.swf
Gostava, porém, de desafiar esta explicação, empírica e complexa, e aplicar a Lâmina de Ockham (Occam’s Razor) para propor uma outra explicação mais simples para este tipo de comportamento. Sabemos que o cão tinha o hábito de fazer este percurso e tudo indica que se estabeleceram padrões comportamentais que permitiram ao animal fixar o que fazer a seguir. Entre estes comportamentos adquiridos estaria o regresso a casa, assim que a dona saísse do Centro de Saúde. Não será que, ao invés de “sentir a falta” da dona e por isso se recusar a abandonar o local, o animal está simplesmente bloqueado pela ausência do estímulo que lhe indica que chegou o momento de voltar para casa? Isto é, quem nos garante que a permanência no local é um acto consciente e não apenas uma resposta inconsciente à ausência de um estímulo?
P.S. Podem ficar os animalogantes descansados já que o cão foi adoptado por alguém que viu a reportagem.
O talhante orgulhoso
CADE (Part 2): The Good Slaughter: A Proud Meat Cutter Shares His Processing Floor from SkeeterNYC on Vimeo.
És um Animal, Viskovitz ! – Breve Recensão
És um animal, Viskovitz!
Tradução: Tiago Guerreiro da Silva
LIVRODODIA Editores, Torres Vedras, 2010
Viscovitz é um personagem eminentemente humano – um anti-herói ? – mas que se metamorfoseia sucessivamente de escorpião a formiga, de camaleão a cão, na busca continuada pelo amor de Ljuba. Esta pulsão sexual é a linha que une todos os quadros retratados e somos assim introduzidos, através do humor, ao difícil mundo da reprodução animal (as desventuras do caracol e do tentilhão são verdadeiramente hilariantes). E, na verdade se pensarmos em termos evolutivos, é isso que conta para a sobrevivência da espécie. Incluíndo a nossa. Já Aristóteles, em História dos Animais, escrevia:
“A vida dos animais pode, então, ser dividida em dois actos: procriação e alimentação; Pois é nestes dois actos que se concentram todos os seus interesses e toda a sua vida. (…) E como tudo o que é conforme com a natureza é agradável, todos os animais buscam o prazer, mantendo a sua natureza.”
Pode um cão ser vegan ?
Deixo este texto inacabado. Espero contribuições dos animalogantes para o desenvolver.
Workshops em Bioética Animal e Ambiental
Jazz for Cows
by The New Hot 5 New Orleans-style Jazz Band.
International Conference on Veterinary and Animal Ethics

Quanto à conferência propriamente dita, foi pautada por altos e baixos, como se compreende num evento inaugural. A organização (exemplar) do Royal Veterinary College optou por uma abordagem de alargada abrangência temática com curtas contribuições de veterinários, filósofos, economistas, advogados, dirigentes políticos e de ONG’s. Esta pletora de palestrantes diluiu em demasia a unidade da conferência (os temas foram do abate religioso ao Grand National passando pelo Human-Animal Bond em menos de uma hora) mas permitiu um ambiente alargado de discussão, que por vezes igualava o tempo da palestra que lhe dava origem.
As palestras foram gravadas e serão transpostas para livro, com a chancela da Blackwell Publishers. Entre elas destaco duas, sem desmérito para as restantes:
a) “Ethical analysis of the use of animals for sport” de Madeleine Campbell pela forma objectiva e clara como expôs a dilemática no uso de cavalos para desporto.
b) “The Justice of Animal Use” de Martin Whiting que explora a transposição (ou não…) do Princípio da Justiça para o âmbito da ética animal.
De realçar que a conferência foi seguida em directo pelo Twitter (#ICVAE), tendo mesmo sido feitas perguntas aos palestrantes por essa via, e também pela plataforma NOVICE (Animal Welfare Group) onde, através do trabalho dactilográfico extraordinário de uma outra bolseira, Rowena Packer, se conseguiu um elevado nível de discussão que ainda hoje perdura.
Tribo Mundari, Sudão
Ver Slideshow.
Juba, 26 de dezembro de 2010.
Homens e crianças partilham a terra com o gado, que usam como base da alimentação e moeda de troca, e que é, ao mesmo tempo, factor determinante do estatuto social de cada indivíduo ou família da tribo (…) Depois de uma guerra civil (1983-2005) que matou pelo menos dois milhões de pessoas, o Sudão precisa de optimismo. Como os mundari precisam de respeitar o tempo das colheitas de sogro das suas terras alagadas pelo Nilo nas estações das chuvas, como precisam de iniciar os rapazes que hão-de tomar conta do gado, quando crescerem.
Público, P2, 21 Janeiro 2011






