Animalogos

Quando caçar é um jogo de crianças

Muito se tem falado na sociedade e nos meios de comunicação sobre a violência nos videojogos como um factor que pode dessensibilizar ou mesmo incitar nos jogadores – e principalmente nos mais novos – para a violência no mundo real. Há inclusive variadíssimos estudos a este respeito. Mas que pensar no caso de actividades hoje tidas como perfeitamente lícitas e aceitáveis por uma grande parte da população, como é o caso da caça?
Um dos muitos jogos que permitem caçar veados virtuais
Encontrei numa grande loja de electrodomésticos e outros equipamentos electrónicos no Porto um jogo para consola que pretende mimetizar com elevado grau de fidelidade à realidade a caça de animais de grande porte, com réplica de arma de caça incluída. Uma rápida pesquisa no Google revelou que, só para uma das consolas mais populares, existem dezenas destes jogos, podendo os consumidores escolher entre uma grande variedade de armas e animais para caçar. Evidentemente, todas as outras plataformas têm também à disponibilidade dos gamers jogos do mesmo tipo.
 
Poder-se-á argumentar que a maior parte dos jogadores que matam zombies, terroristas, soldados, polícias ou outros quaisquer inimigos virtuais não tem a mínima intenção de reproduzir esse comportamento no mundo real. Ademais, pode-se mesmo advogar que estes jogos podem constituir uma substituição efectiva da caça, uma prática generalizada e com muitos adeptos e que tem efeitos negativos no bem-estar animal e na conservação das espécies. Afinal, abater animais virtuais não tem qualquer efeito directo na vida e no bem-estar de um só animal real. 
Mas há a possibilidade deste tipo de jogos contribuir para popularizar ainda mais a prática da caça, principalmente nos mais jovens. Não se pode também descartar que este jogos possam dessensibilizar os jogadores para o sofrimento dos animais caçados (que não se resume de maneira alguma ao momento do abate, como ilustra um conhecido estudo de P. Bateson e E. Bradshaw) e/ou que leve os jogadores a entenderem a prática da caça real como um jogo, em que a pontuação depende do número de animais abatidos.
“Snapshots” ilustrativas das imagens que surgem no ecrã  durante um jogo
Colocam-se assim, no plano ético, várias questões, as quais beneficiariam de estudos especialmente dirigidos a este novo segmento de videojogos e jogadores. Digno de registo é o facto de alguns controladores desenhados para serem usados nestes jogos mimetizarem na perfeição armas reais, algo que foi já proposto como amplificador do efeito negativo dos jogos violentos no comportamento violento.
Um exemplo de um comando que reproduz fielmente uma arma e caça  
Numa secção de um site dedicada a pais e educadores, pode-se ler que Hunting games for kids safely introduces your kids to the world of hunting. In fact, online hunting games and similar software may totally satisfy your kids’ need to become a hunter. Vá-se lá saber porquê, nunca imaginei que as crianças tivessem necessidades dessas…
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